DRAMATURGIA

Um Assovio* (ato primeiro - cena I)



Fernando (passeando e batendo na testa) — Não sei que diabo tenho nesta cabeça! Nem S. Cosme, que é da minha particular devoção, é capaz de adivinhar o que se passa dentro deste coco! O que, porém, é verdade é que todos os dias, todas as horas faço novas preces; e todas as horas e todos os dias transgrido os deveres que em tais protestos me imponho! (Chama.) Gabriel, Gabriel, que diabo estás fazendo nesse fogão, em que estás pregando há mais de duas horas! Querem ver que estás a roer os tijolos, julgando serem de goiabada! Cruzes! Cruzes! Que gastrônomo! É capaz... já estou com medo! É capaz de roer até a minha casaca velha! (Pegando de repente no nariz, tira um pedaço; olha e grita,) Oh! Diabo! Até já me roeu um pedaço do nariz, quando eu ontem dormia! Gabriel! Gabriel!

Gabriel — Pronto! Então (de dentro) que tanto me chama!? Diabos te levem! É o amo mais impertinente que tenho visto! Cruzes! Ave-Maria! Já vou, já vou! Deixe-me tomar o meu quinhão de café; e tomo, porque estou o transido de frio! Estou gelo! Quer derreter-me!? Espere, espere!

Fernando — Diabos te levem para as profundas do maior inferno! Está este diabo a tomar café desde que amanhece, até que anoitece! Vai-te, diabo!

Gabriel (aparecendo) — Ora, graças a Deus e a meu amo! — já que com o diabo cortei de todo as minhas relações. (Apalpando e levantando a barriga.) Tenho esta pança mais pequena que a de um jumento, ou de um boi lavrador! Não é nada (caminhando para o lado do amo), existe aqui... quem sabe já quanto estará! (Rindo-se.) Duas chaleiras de café; quatro libras de açúcar... já se sabe — do mais fino refinado. Três libras, não! Seis livras de pão de rala e duas de fina manteiga inglesa. (Andando para uma e outra parte.) Troleró, troró! Agora sei que sou mesmo um Manuel José Taquarião! Só me faltam as cartas, e as parceiras! (Apalpa as algibeiras e tira um baralho.)

Fernando (à parte) — Estou otimamente servido de criado e companheiro! Não tenho, sinto — um guindaste para lhe suspender a pança!

Gabriel (depois de haver examinado o baralho com atenção; para o amo) — Pensei que não tinha trazido. Está ótimo! Vamos a uma primeirinha? (Batendo no baralho.)Heim? Heim? (Tocando-lhe no braço.) Então? Vamos, ou não vamos!?

Fernando — Tu és o diabo em figura de bicho. (Batendo-lhe na pança.)

Gabriel — Ai! não me fures, que eu tenho um filho de seis meses arranjado pela Sra. D. Luduvina, aquela célebre parceira que o Sr. meu amo melhor que eu conhece ... visto que passou as mais apreciáveis noites com... ou... etc. etc.

Fernando (batendo- lhe na boca) — Ó diabo! Não descubras esse segredo! Senão, são capazes os amigos dela de me porem na cadeia!

Gabriel (à parte) — Por isso é que muitas vezes eu chupo-lhe o dinheiro, faço d’amo! Tem segredos, que eu sei; e que ele não quer que sejam revelados!

Fernando - Então, Galdino! Encheste o teu pandulho desde ( bate-lhe na bunda, que é tão bem formidável, e na barriga) esta extremidade até esta...!

Gabriel — Ai! ai! seu diabo! Não sabes que ainda não botei as páreas do que pari por aqui!... (Apalpa a bunda).

Fernando — E entretanto, de mim não te lembraste, judeu! Vai me buscar uma xícara, anda!

Gabriel — Oh! Pois não! (pulando; e dando voltas.) O meu amo sabe dançar a chula? (Olha para os calcanhares.) E ainda faltam-me as esporas; senão, havia eu de fazer o papel mais interessante que se tem visto! Nem o Juca Fumaça era capaz de me ganhar em levianeza e linda graça! (Continua a dançar a chula.)

Fernando — Este diabo (à parte ou para um lado ) não vai me buscar café! Então?Vais ou não vais!?

Gabriel — Ah! quer café! Já vou! (Dá mais duas ou três voltas, e entra por uma porta, pela qual torna a vir logo depois.)

Fernando — Que tal estará o café deste judeu?

Gabriel — Eis aqui! Está melhor que o chocolate da velha Teresa lá do Caminho Novo em que não há senão velhas tabaqueiras ou espirradeiras, que na frase dos rapazes são tudo e a mesma cousa!

Fernando (pagando a xícara e levando-a aos lábios) — Fum!... Fede a rato podre! E tem gosto de macaco são! Que porcaria! Pega; pega! (Atira-lhe com o café à cara.)

Gabriel (limpando-se todo) — Não precisava fazer-me beber pelos olhos! Já estava farto de derramá-lo pela cara. Agora arrumo a xícara.

Fernando — Quem sabe se o fétido e o gosto provêem da xícara!? Pode ser! Para não tornar a ter destes prazeres... (atirando) quebrarei as pernas deste pançudo! (Atira xícara e pires nas pernas do criado.)

Gabriel — Ó diabo! Quase me quebras as pernas! Mas ficou sem o casal da xícara! O que me vale (à parte) é que por eu há muito já o conhecer, mandei o ano passado forrá-las de aço no ferreiro das encomendas, que mora lá por trás das vendas, na rua das contendas!

 

*Reproduzido de http://www.dominiopublico.gov.br

qorpo

José Joaquim de Campos Leão (1829-1883), conhecido como Qorpo Santo, foi um dramaturgo, poeta, jornalista, tipógrafo e gramático brasileiro

 

 


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