CRÔNICA

Tio Nhonho



Tio Nhonho batia uma mão sobre a outra. A direita sobre a esquerda, que estava fixa, com a palma voltada para cima. A mão direita era aplicada na outra, a princípio, toda espalmada, e em seguida os dedos iam se subtraindo: quatro dedos, três, dois... um único dedo. Era uma espécie de brincadeira pra gente adivinhar o que significava aquele barulho.

O quê que é isso, Loro?, indagava. E fiquei diante daquela gestualização que produzia sons cessantes. Eu sempre me achei esperto, mas estava longe de adivinhar do que se tratava. Finalmente, ele explicou o que era: "bosta de vaca caindo no asfalto".

O barulho reproduzido pelo tio preferido (e único, ele só tinha irmãs) entre a "primaiada", era perfeito. Hoje em dia, vamos combinar, é raro você estar dentro de um carro que diminua a velocidade para compartilhar a rodovia com uma boiada. Noutros tempos isso era comum.

Quando a vaca ou boi ou bezerro ou novilha ou touro, caga; enquanto a boiada está na rodovia, o cocô vai despencando do sesso dos bovinos aos poucos, em bocados cada vez menores, reproduzindo um som que vai minguando ao espatifar-se no asfalto.

Tio Nhonho era de uma sabedoria incrível. Uma dessas pessoas que viveu a maior parte da vida no meio rural e depois se viu obrigado a mudar para a cidade. Conforme dizem, ele saiu do mato, mas o mato não saiu dele. Faz sentido. A pré-história, afinal, é o paradeiro mais antigo da trajetória humana no planeta. Começamos nas cavernas e demoramos um bocado para nos esparramarmos entre moradias que vão de favelas à condomínios de luxo. 

Nesta hora, narrando sobre meu tio, lembro o que me falou amigo ausente, o escritor mato-grossense Ricardo Guilherme Dicke. Algo que de imediato se enraizou nos meus compartimentos cerebrais: a imensa sabedoria que emana das pessoas simples, aquelas que não se enveredaram pela erudição e às quais não foi oportunizada uma educação formal mais aguda, mas que a escola da vida brindou com um conhecimento espetacular.

Foi com Dulvio da Costa Miranda (1936-2019), mais conhecido como Nhonho, que iniciei, na primeira infância, meus conhecimentos acerca de seres viventes como lambari, pintassilgo, rola-bosta, cansanção, sinimbu, marimbondo sinhá, lixeira, cumbaru, caga-fogo, catingueiro, saboneteira, rubafo, tucanguira, anu branco e o quati mundéu; entre tantos outros habitantes que já foram mais presentes no cerrado mato-grossense.

Tive uma convivência tão forte com tio Nhonho que, quando procriei, escolhi-o como compadre. Entreguei-lhe meu filho caçula, o Vítor, para que ele batizasse. Com total apoio da Fátima, minha companheira, que adorava Nhonho. Fátima saiu de cena há mais de dois anos e, no seu velório, encontrei muito conforto na conversa do tio querido. Mas, eis que Nhonho, há poucos dias, também se mandou deste mundo. 

Nas reuniões familiares, esses dois entes queridos meus, hoje ausentes, costumavam conversar demoradamente e eu ficava muito feliz com isso. E a malvadeza do tempo me levou a Fátima e o tio Nhonho, sendo que este saiu de cena cerca de um mês após a sua companheira, Maria Auxiliadora, também ter se mandado.  

O mundo não está nada fácil, cada vez mais difícil enquanto a gente envelhece. E vai tendo que aprender, na marra, a conviver com a perda de gentes tão especiais. Mas, envelhecer tem que servir pra alguma coisa e talvez seja por isso que eu escrevo aqui. 

Fui escalado para avisar meu tio da morte da sua companheira. Função brava. Um dia depois ele me disse que não queria mais viver e eu fui temperando as conversas seguintes com argumentos tipo um dia a gente tá mal, noutro dia nem tanto. E que a decisão de morrer ou não, não seria competência exclusiva dele. "Têm dias que a gente acorda e não lê o horóscopo", disse ele, enigmaticamente. 

Foi difícil e doloroso acompanhar cotidianamente sua reta final. Mas é assim que é a vida. O final dela. Estranho, mas há certa harmonia em relação a partida dele, pensando bem, já que ele mesmo declarava-se insatisfeito em continuar vivo.  

"Mexeu, morreu", diz uma placa afixada no portão da sua moradia bem simples, no bairro da Lixeira, onde cebolinhas gigantescas ainda vicejam altaneiras e podem ser vistas extrapolando a altura do muro. 

Por onde andará tio Nhonho nesta altura dos acontecimentos? Não sei, mas pode ser que venha a saber um dia. Acredito que na eternidade todos os reencontros são possíveis. 

loro

Lorenzo Tyrannus (acima), eu mesmo, aqui recortado de selfie feita em visita a Nhonho, no hospital, na antevéspera da sua partida

 


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