PENSATA

O que medra*



O Coiote Coió, nos arcaicos desenhos do Papa-léguas, precisa correr demais, por vezes tanto e tão intensamente, que quando passa por um abismo, segue seu percurso como se tivesse chão e assim prossegue até que, atrasado, percebe o erro: é só ao perceber que perdeu chão que ele por fim pode cair; em outras palavras, é a percepção do fim da estrada, ou do chão, que num só gesto lhe concede e lhe obriga a queda. Essa lembrança não é só minha; vem de um recurso e chiste frequente do filósofo esloveno Slavoj Žižek para designar o fim do capitalismo como um acontecimento que só se confirmará quando o assumirmos como já dado. É um dos modos de narrar o fim e está longe de ser o único, embora seja dos mais instigantes, por perceber o fim como sempre já-adiado.

Por outro lado, Déborah Danowski & Eduardo Viveiros de Castro observaram um fascínio escatológico mais constante no livrinho essencial "Há Mundos por Vir?". Ali eles comentam como o cinema e outras mídias adoram imaginar o colapso total do nosso mundo por meio de zumbis, meteoros, tsunamis, alienígenas, ou qualquer coisa que viria a dar fim ao mundo que conhecemos, desde que o mundo não mude por si, que o sistema econômico, social, político — quase ele próprio como entidade (sobre) natural — só ruiria diante de um outro desastre ou embate (sobre) natural de porte maior. Nesses casos, nossa obsessão com o fim do mundo parece não passar de uma confiança extrema de que o mundo não pode ser outro por outro caminho; ele está dado e deve durar quanto dura um universo.

Na verdade, nunca cessamos de ver o novo anúncio de fim do mundo; ele é praticamente um gênero contemporâneo, seja por bug do milênio, calendário maia, ou frases de efeito como “fim da história”, “fim do livro”, “fim da poesia”, “fim do clima”, “fim da democracia”, “fim do mundo”, etc. De um modo ou de outro, todos parecem se fundar na confiança dupla que sustenta o nosso mundo: ou nada ao nosso alcance muda o presente (como se este fosse o único ou o melhor dos mundos possíveis, logo inacabável), ou nosso mundo já acabou e agora basta um mero sopro (como em algumas lutas de comédias ou cartoons em que, depois de apanhar muito, o vencido cai com um simples sopro na cara). Daria pra chamar essas linhas, respectivamente, de integrados e apocalípticos, parafraseando Umberto Eco; mas não é bem isso que está em jogo neste momento.

Nos últimos dias, diante da seríssima pandemia de Covid-19 — que vem assolando o planeta com um número incontrolável de internamentos por problemas respiratórios e de óbitos que fazem com que algumas regiões entrem em verdadeiro colapso de saúde pública, com UTIs lotadas, doentes desatendidos e valas comuns —, pudemos ler mais uma série de confirmações do fim do mundo, seja por colapso do capitalismo financeiro, aprofundamento ainda maior do mesmo capitalismo, revolução astral, ou mesmo mudança na vida geral, de modo que todos nós seríamos filhos de uma era agora já terminada. A Pandemia, assim com maiúscula, seria a marca do fim, cumprindo num só gesto o papel de (sobre) natureza e de sopro naquilo que já estaria acabado sem percebermos. Estamos mais do que certos de que vivemos uma grande guinada, marco histórico inesquecível, e pouco atentamos como quase nenhum de nós se lembrava mais dos efeitos da Ebola, da Tuberculose, da Cólera, ou das datas dos maiores surtos de Peste Negra, que até hoje nunca foi erradicada; é certo que a maioria de nós já não se recordava da Gripe Espanhola, que assolou meio mundo há pouco mais de um século. O que parece nos cegar é que o mundo teima em continuar mesmo depois dos fins.

Adiar o fim do mundo, a queda do céu, ou o colapso nuclear e climático pode ser um modo de salvá-lo e salvar-nos; porém apenas se estivermos dispostos a viver o mundo sempre novo que se nos apresenta. Ninguém nunca morreu no mesmo mundo em que nasceu, e alguns de nós podem vir a morrer em mundos drasticamente diversos. Como lembram Danowski & Viveiros de Castro, os índios nos mostram que o fim de um mundo pode ser muito longo: o deles vive seu fim há mais de meio milênio. Parece-me que é este mesmo esquecimento que nos desdobra agora entre os apocalípticos que afobados anunciam a nova era ainda ignota, ou os negacionistas que insistem em afirmar que estamos diante de apenas uma gripezinha. Diante do desbragado delírio dos negacionistas, fico ao lado dos apocalípticos convictos, embora descrente de seu tom, que me parece mais razoável do que aqueles que, mesmo cuidando da doença, acreditam que em pouco tempo tudo poderá voltar ao normal, como se o Covid-19 fosse entrar num buraco ao fim da quarentena e lá desaparecer, incrivelmente deslembrados de que o H1N1 ainda ressurge anualmente, mesmo com todos os tratamentos, deslembrados de que não temos ainda remédio para o novo coronavírus, e que uma vacina deve levar, na melhor das hipóteses, um ano para ficar pronta e em condição de produção.  

É trancado no privilégio de uma casa com quintal, ao fim da Páscoa, acompanhado da Nanda e dos nossos dois filhos, Íris e Dante, que posso pensar o que me cabe como poeta — diga-se, poeta que ainda não escreveu um verso próprio desde o início da reclusão. Ontem me lembrei de uma fala sobre esse tema que fiz no SESC e hoje corre o risco de chegar ao fim junto com o Sistema S na mão de um governo aniquilante por definição. Lá pensei como tradicionalmente a escrita se estabeleceu como mídia de preservação da linguagem ao futuro, como uma espécie de apontamento para a eternidade; porque, mesmo sabendo que os textos perecem, que livros são queimados, perdidos, dispersos ao léu, essa imagem de pervivência tende a ocupar nossas mentes. No entanto, ali pensava também, como ainda penso, o que seria escrever num tempo de fins plurais em que um Fim singular não para de se anunciar? Afinal, a escrita pode adiar o fim do mundo? Essa é uma demanda ética fundamental em nosso tempo, que restará sempre adiada, como queda no real.

Em 1986, pouco tempo antes de falecer em decorrência de um câncer talvez contraído nas filmagens de "Stalker", o diretor Andrei Tarkovski, que vivia num mundo muito outro, anterior à queda do muro de Berlim e ao fim da União Soviética (talvez antes de ver a catástrofe de Chernobil), escrevia em "Esculpir o Tempo":

"Num mundo em que existe a ameaça real de uma guerra capaz de aniquilar a humanidade, onde os males sociais existem em uma escala assustadora, e onde o sofrimento humano clama aos céus — é preciso encontrar um modo de fazer com que as pessoas se encontrem umas com as outras. Este é o dever sagrado da humanidade em relação ao seu próprio futuro e o dever pessoal de cada indivíduo."

Parece que rabiscou estas linhas para nós, garrafa perdida no tempo sempre a procura de (re) leitores. Com elas, percebo hoje que as artes, e talvez ainda mais a poesia, servem para garantirmos que estejamos num mundo aberto à mudança e ao fim, e não para determiná-lo (o mundo, o fim) como coisa acabada.

Antes moldar os fins como leito fértil em que o novo medra.

*Reproduzido de http://www.bpp.pr.gov.br/Candido

 

gontijo

Guilherme Gontijo Flores é poeta, tradutor e professor na UFPR. Autor de livros em prosa e verso, traduziu autores como Robert Burton, Sexto Propércio e Safo. É coeditor da revista-blog escamandro e membro da banda Pecora Loca. Nascido em Brasília, em 1984, já rodou pelo Brasil e tem sólida formação acadêmica, com indicações para alguns dos mais importantes prêmios literários. Guilherme é um bravo articulador da cena literária brasileira contemporânea

 


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