PROSA

pedia a cada estrela fria um brilho de aluguel



"se houve alguma violência partiu de infiltrados"

Asno-mor, reproduzido do Estadão, edição de 04 de maio de 2020

 

Negacionista entrou à sala e olhou aquelas pessoas convertidas em restos de pessoas; entubadas, de olhos bem fechados e com a alma e a esperança já caminhando de mãos dadas no mundo dos mortos. Negacionista recordaria anos depois naquele momento ter pensado: até para a morte temos técnicas! Negacionista entrou na cozinha, sentou e se serviu de um café. Olhou à janela e não viu nada. Tomou o café. Levantou. Chutou um pedaço de esparadrapo no chão do corredor. Voltou pra casa. Antes passou na padaria. Comprou sete pães e deu uma cantada na caixa. Anos depois recordaria que enquanto enchia de gracejos a moça mergulhada na tela cheia de números lembrou de um poema italiano, La pioggia nel pineto. Também lembrou da primeira vez que comeu carne crua, anos antes deles chegarem à cidade. E quando eles chegaram traziam armas e bandeiras e convenciam aos brados. Lembro quando eles botaram a bandeira dos gringos acima da nossa. Lembro de como eles pisotearam o azul de nosso céu e foram apagando aos sopros cada uma das estrelas que nos uniam. Escarraram sobre o verde de nossas matas, escarraram no coração de nossas córneas e com as crinas dos nossos cavalos enforcaram os pássaros que cultivávamos e, o que é em muitos sentidos algo muito pior, os pássaros que nos cultivavam. Negacionista parou ainda na farmácia e, após certa hesitação, comprou álcool em gel: treze reais na promoção. Não entendia bem as palavras de Gabriele D'Annunzi, mas gostava da musicalidade do poema e trazia uma concepção esteticista da poesia: poesia era música – nisso coincidia com o professor alemão que lecionava romantismo na faculdade. Negacionista comprou ovos e uma massa de bolo pronta no mercado, usava máscara – não importa a cor. Se programou pra ver a live do Alceu, mas se perdeu no tempo ouvindo canções de Aldir Blanc – que acabara de falecer devido à doença do vírus. Separou um capítulo de meta-história pra ler depois do almoço, mas se excitou e se esqueceu enquanto namorava na rede. Não faz falta que se diga que chovia, ainda assim é bom que se diga: chovia. Estávamos todos como bêbados cambaleando numa corda de equilibristas e tudo se assemelhava a um circo: de horrores. As pessoas morriam, os fascistas batiam nos repórteres e ele se perguntava o que passava na cabeça de seus pais quando o batizaram, à pia, com esse nome: Negacionista. Ele tinha cinquenta e três bem vividos – e sua risada escorria pelas paredes do boteco quando assim repetia. O certo é que naquele então nada tinha conhecimento dessa palavra, negacionistalábios que a pronunciassem estavam por serem feitos, comentaria anos depois certo erudito provinciano e malsão. Lhe tocou essa sina e eis que de um dia pra noite ele acordou famoso, famigerado – e sua risada escorria pelas paredes do boteco quando pronunciava famigerado, era uma pronúncia engordurada como imaginava ser a própria condição que essa palavra representava: alguém famigerado deveria ser, por extensão, engordurado. Axioma e corolário ou atributo ontológico, definiria um filósofo malsão. Gostava de pinturas rupestres, perdia horas admirando-as. Gostava de perder horas, entre íntimos era lembrado como o autor da frase: a utilidade é um desperdício. Não carece que se diga que sua voz escorria nas paredes engorduradas do famigerado bar Flórida quando já mais alto que o Himalaia a repetia como um bordão vagabundo que lhe revelara algum anjo dos subterrâneos. Sua biografia era próxima à das tesouras: aparava desnecessários. E seguia, roendo, como um castor, o caroço do impecável. Em busca do Indeterminável, sentenciaria um teólogo malsão. Amava o vento – tinha uma coragem que o acariciava e essa coragem era a do vento, era a do que rema e ao remar se esvai, se esfumaça, se esvazia e se abre à nova carne. Ao imponderável de toda súbita presença, assinalaria o poeta malsão em seu soneto em guardanapo escrito. Empunhou o cinzel com que fizera a cicatriz: tinha dezessete, ela 23. Era um simples vidro com uma massa biológica, tinha nome e. NEGACIONISTA! – o grito o surpreendeu em anáguas de fantasias; era Arnoldo, o velho que, de todos os seus amigos, mais livros colecionara. Arnoldo tinha interesses variados, gostava de Elba Ramalho e Chopin e traduzia poetas búlgaros nas horas vagas. Não faz falta que se diga que era exímio perito em javanês, mas é bom que se registre, por escrito: Arnoldo sabia javanês como poucos – e como sabemos quanto já de por si ser tão raro alguém que domine javanês, os poucos que tocavam a Arnoldo eram menos ainda. Isso de ser menos sempre fazia a mente do Negacionista cavilar sobre aquilo de que o ensinamento da pandemia era sobre ser menos – o que para muitos era uma descoberta, para nós era uma negação. E não se iluda o leitor: esse nós é um recurso estilístico que nos bota, eu e você que me lê, no mesmo campo de valores do nosso protagonista. Uma técnica! – até para narrar temos técnicas. Negacionista era um sujeito desprovido de caráter – como nosso lendário herói mameluco que o poeta bandeirante inventou depois de ler alguma etnografia alemã. Constituição, estranha palavra que ele só aprendeu a soletrar aos quatorze – e com muita dificuldade, é bom que não reste sombra de dúvida quanto a isso. As moscas lhe agoniavam o juízo, as moscas e as notícias sobre a marcha dos fascistas: era só algum maluco infiltrado entre os patriotas – a bandeira gringa içada, a de Israel de junto e ele ali de mãos dadas com uma criança sem máscara; exposta a tudo, mas principalmente exposta à humilhação de carregar pro resto da vida a memória deste lugar perverso onde o destino a enfiou. Campos neutrais, bonito nome para um disco. Cosmorama, nome bonito pra um poema que ele desperdiçou, anos antes, em um poema que não era necessário – aparar arestas, biografia de tesoura. Campos neutrais, um lugar adequado para se encontrar com alguém que mal termina de despertar e ainda traz a madrugada no céu da boca. Campos neutrais poderia mesmo chegar a ser o nome de um vento ou de uma várzea encruzilhada por rios ou de uma novela sublime. Ainda folheou o livro de geografia da filha, mas lá não encontrou nenhuma referência àquele topônimo que não lhe saía da cabeça: um mosquito se debatendo na teia de aranha, descreveria um literato malsão. Campos neutrais também lembrava um labirinto e, às vezes, uma viagem nunca realizada pelo simples fato de ser irrealizável. Pensava em Kierkegaard quando entendeu que tem viagens que não são para ser realizadas – como aquele mítico escritor que ia todos os dias ao mesmo bar, na mesma hora e contava aos presentes todos os dias a mesma história: a história do romance que estava escrevendo (I.P. escreveria depois da sua morte essa história). Evidentemente, não se tratava da mesma história já que todos os dias ele descrevia com detalhes precisos a trama do último capítulo de sua epopeia (I.P. reproduziria em seu livro a transcrição minuciosa de centenas dessas intervenções). Morto, correram todos os etílicos contumazes do bar Flórida à casa do escritor. Lá não havia sequer uma página manuscrita, menos ainda datilografada. O homem não possuía computador e tudo o que acharam ali foi uma carta para a filha, um bilhete apenas: te amo, sempre, teu pai. Além deste sintético bilhete havia apenas um dicionário enferrujado e dois pratos sujos na pia de pedra: filha, te amo, sempre, teu pai – singelo rabisco em tinta vermelha no canto esquerdo da capa de um velho Houaiss.

nuno capa

Nuno Gonçalves nasceu em Recife (PE), mas é cearense, pai, poeta e professor. Publicou: "Cacos de Cristo", "O sol e a maldição", "Cartas de navegação", "O canto das onças", "Calabouço de reticências ou a aridez do oceano" e "Álbum de família & outros negativos: poemas pós-apocalipse". Graduado em história (UECE), tem mestrado na mesma disciplina (UFC) e doutorado no Programa de Estudos Latinoamericanos (UNAM). Na foto acima, com Marialice, sua filha


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