PROSA

Última visita a Mallarmé



Quando comecei a frequentar Mallarmé em pessoa, a literatura não me era quase mais nada. Ler e escrever me pesavam, e confesso que me resta qualquer coisa desse aborrecimento. A consciência do meu próprio eu por ela própria, o esclarecimento dessa atenção, e o cuidado de desenhar limpidamente minha existência não me permitiam quase mais nada. Esse mal secreto afasta das Letras, nas quais tem, entretanto, sua origem.

Mallarmé, todavia, figurava em meu sistema íntimo de personagem de arte sábia e o supremo estado da ambição literária a mais elevada. Tinha feito de seu espírito uma profunda companhia, e esperava que a despeito da diferença de nossas idades e da discrepância imensa de nossos méritos, o dia chegaria em que eu não recearia de lhe propor minhas dificuldades e minhas opiniões particulares. Isso não era o que me intimidava, porque ninguém me foi mais doce nem mais deliciosamente simples que ele; mas me parecia então que existia uma espécie de contraste entre o exercício da literatura e a perseguição de certo rigor e de uma inteira sinceridade do pensamento. A questão é infinitamente delicada. Devia eu a entender em Mallarmé? Eu o estimava e o colocava acima de tudo; mas tinha renunciado a adorar aquilo que ele tinha adorado toda sua vida, e a que ele tinha tudo ofertado, e não encontrava mais a coragem de lhe fazer entender.

Não via, entretanto, homenagem mais verdadeira a lhe render que lhe confiar meu pensamento, e de lhe mostrar quantas pesquisas, e as análises mais finas e mais preciosas das quais elas procedem, tinham transformado a meus olhos o problema literário e me tinham conduzido a abandonar a partida. É que os esforços de Mallarmé, muito opostos às doutrinas e às preocupações de seus contemporâneos, tendiam a ordenar todo o domínio das Letras para a consideração geral das formas. É extremamente notável que ele tenha chegado, pelo estudo aprofundado de sua arte, e sem conhecimentos científicos, a uma concepção tão abstrata e tão próxima de especulações as mais elevadas de algumas ciências. Ele jamais falava, de resto, de sua ideia senão por figuras. O ensinamento explícito o repugnava estranhamente.

Seu ofício, que ele odiava, estava por qualquer coisa nessa aversão. Mas eu, ensaiando de me resumir suas tendências, permitia-me interiormente de designá-las à minha maneira. A literatura ordinária me parecia comparável a uma aritmética, isto é, a busca de resultados particulares, nos quais a gente mal distingue o preceito do exemplo; aquela que ele conservava me parecia análoga a uma álgebra, porque ela suporia a vontade de colocar em evidência, de conservar através dos pensamentos e de desenvolver por eles próprios, as formas da linguagem.

“Mas no momento em que um princípio foi reconhecido e entendido por alguns, é demasiado inútil perder tempo em suas aplicações”, dizia-me ele.

O dia que esperava jamais veio. 

***

Vi pela última vez Stéphane Mallarmé em 14 de julho de 1898 em Valvins. O almoço terminado, conduziu-me a seu “gabinete de trabalho”. Quatro passos curtos, dois longos; a janela aberta ao Sena e floresta através de uma folhagem toda rasgada de luz, e os mínimos estremecimentos do rio resplandecendo escassamente repetidos pelas margens.

Mallarmé se inquietava dos supremos detalhes da fabricação do Lance de dados. O inventor considerava e retocava a lápis este engenho totalmente novo que a imprensa Lahure tinha aceitado construir.

Não havia ainda a empresa, nem o sonho de empreender, de dar a figura de um texto uma significação e uma ação comparáveis àquelas do próprio texto. Como o uso ordinário de nossos membros nos faz esquecer sua existência e negligenciar a variedade de seus recursos, e como somente acontece a um artista do corpo humano nos fazer ver algumas vezes todas as flexibilidades, ao preço de uma vida que consome em exercícios e que explora aos perigos de seu desejo, assim o uso habitual da palavra, a prática da leitura cursiva e aquela da expressão imediata debilitando a consciência de seus atos por demais familiares e abolindo até a ideia de suas potências e de suas perfeições possíveis – a menos que sobrevenha e não se consagre qualquer pessoa estranhamente desdenhosa das facilidades de seu espírito, mas singularmente atenciosa àquilo que ele pode produzir de mais inesperado e de mais perspicaz.

Eu estava aos pés desta pessoa. Nada me dizia que jamais a reveria. Não havia, no dourado do dia, corvo encarregado de pressagiar.

Tudo estava calmo e seguro... Mas enquanto Mallarmé me falava, o dedo sobre a página, lembrava-me de que meu pensamento se colocava a sonhar esse exato momento. Dar-me-ia distraidamente um valor como absoluto. Sonhava, próximo dele vivo, com seu destino como terminado. Nascido para a delícia de uns, para o escândalo de outros, e maravilha para todos: para estes, maravilha da demência e do absurdo; para os seus, maravilha do orgulho, da elegância e do pudor intelectual, bastara-lhe alguns poemas para recolocar em questão o objeto próprio da literatura. Sua obra difícil de entender, impossível de negligenciar, dividia o povo letrado. Pobre e sem honrarias, a nudez de sua condição aviltava todas as vantagens dos outros; mas estava assegurado, sem as procurar, das fidelidades extraordinárias. Quanto a ele, no qual o sorriso do sábio, de vítima superior, esmagaria docemente o universo, jamais tinha pedido ao mundo aquilo que contém de mais raro e de mais precioso. Ele o encontrava em si.

***

Fomos ao campo. O poeta “artificial” colhia flores as mais ingênuas. Acianos e papoulas carregadas nos braços. O ar era flama; o esplendor absoluto; o silêncio cheio de vertigens e trocas; a morte impossível ou indiferente; tudo formidavelmente belo, abrasador e dormente; e as imagens do sol tremiam.

Ao sol, na imensa forma do céu puro, eu sonhava com um recinto incandescente onde nada de distinto subsiste, onde nada dura, mas onde nada cessa; como se a destruição a si mesma se destruísse, apenas realizada. Perdia o sentimento da diferença entre o ser e o não ser. A música por vezes nos impõe essa impressão, que está além de todas as outras. A poesia, pensava eu, não é ela também o jogo supremo da transmutação das ideias?

Mallarmé me mostrou a planície que o verão precoce começava a dourar: “veja, diz ele, é o primeiro toque de címbalo do outono sobre a terra”.

Quando veio o outono, ele não estava mais.


*Traduzido por Márcio Freire, este texto foi reproduzido de periódico da Universidade Federal de Pernambuco

valery

Ambroise-Paul-Toussaint-Jules Valéry, ou apenas Paul Valéry (1871-1945), foi um filósofo, escritor e poeta francês da escola simbolista, cujos escritos incluem interesses em matemática, filosofia e música

 


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