PROSA

O pião*



"Um filósofo costumava circular onde brincavam crianças. E, se via um menino que tinha um pião, já ficava à espreita. Mal o pião começava a rodar, o filósofo o perseguia com a intenção de agarrá-lo. Não o preocupava que as crianças fizessem o maior barulho e tentassem impedi-lo de entrar na brincadeira; se ele pegava o pião enquanto este ainda girava, ficava feliz, mas só por um instante, depois atirava-o ao chão e ia embora. Na verdade acreditava que o conhecimento de qualquer insignificância, por exemplo o de um pião que girava, era suficiente ao conhecimento do geral. Por isso não se ocupava dos grandes problemas – era algo que lhe parecia antieconômico. Se a menor de todas as ninharias fosse realmente conhecida, então tudo estava conhecido; sendo assim só se ocupava do pião rodando. E, sempre que se realizavam preparativos para fazer o pião girar, ele tinha esperança de que agora ia conseguir; e, se o pião girava, a esperança se transformava em certeza enquanto ele corria até perder o fôlego atrás do pião. Mas quando depois retinha na mão o estúpido pedaço de madeira, ele se sentia mal e a gritaria das crianças – que ele até então não havia escutado e agora de repente penetrava nos seus ouvidos – afugentava-o dali e ele cambaleava como um pião lançado com um golpe desajeitado da fieira."

 

*Texto reproduzido do livro “Narrativas do espólio” (Cia. das Letras - 2002), de Franz Kafka, com tradução de Modesto Carone. Já foi publicado aqui mesmo no tyrannus, em 2013

kafka

Nascido em Praga (República Checa), Franz Kafka (1883-1924), foi um escritor de língua alemã. Deixou romances e contos e é considerado pelos críticos como um dos autores mais influentes do século XX. Sua obra reverbera temas e arquétipos de alienação e brutalidade física e psicológica, conflitos familiares, personagens aterrorizados, labirintos burocráticos e transformações místicas

 


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