PROSA

"Hei, hou, Borunga chegou" (trecho)*



 

O primeiro café da manhã de uma maruja era um programão.

A tripulação acordava cedo e sentava atenta à mesa, deixando uma única vaga no meio. Quem chegava primeiro ficava no lado oposto, de frente, o melhor lugar do espetáculo. Nesse dia eu cravei os dentes ali. O título do meu filme biográfico, àquela altura: Ribu e sua grande conquista em cinco anos de Borunga: o melhor lugar na mesa. Grande bosta.

A nova iguaria veio equilibrada na mão de uma das auxiliares do navio e pousou na minha frente. Parecia algodão-doce. Ou clara de ovo batida com gosto, as bolhas molengas, ocupando toda uma tigela enorme.

Kérrera, a novata, apareceu pra ocupar o espaço apertado no banco. A melhor descrição pra ela seria: um ovo cozido. Grande. Com braços e pernas, quando precisa. Ela se equilibrou sobre a tábua e projetou um braço, apanhou a tigela e a derramou por cima de si. A emulsificação caiu na cabeça (cabeça é uma aproximação, vai) e grudou.

Eu dei risada.

Todas me encararam. Ninguém entendia por que eu achava engraçado um ovo com cabelo. Tinha que ter nascido na Terra pra sacar essa.

Aos poucos aquela substância foi sugada, como se inalada por poros. Quando não se via mais rastro da comida, Kérrera levantou.

— Obrigada — ela disse (na verdade, projetou por telepatia, mas soava como uma voz) e saiu, levemente amarelada na parte inferior. Era o jeito dela ficar envergonhada, descobri mais tarde.

Só depois desse show é que todas tomamos o café. Chá de erva cidreira e pão com queijo pra mim. Ainda bem que não foi ovo, eu nunca me sentiria bem comendo ovo cozido perto de Kérrera. E, de fato, nunca precisei. Era o jeito sutil do navio manter o equilíbrio, nos surpreendendo com esse tipo de detalhe.

Eu gostava de cortar o pão, enfiar o queijo no meio e comer como um sanduíche. Por essa e outras manias eu tinha uma faca, e também uma colher e um garfo, que ficavam com uma multitude de utensílios estranhos no armário de canto. Se eu soubesse o que vinha pela frente, teria jogado a faca fora ali mesmo. Mas quem podia saber?

Parecia uma manhã normal, aquela. Não suspeitava que a menina-ovo ia pegar a minha — a nossa — vidinha de sempre e dar uma chacoalhada das boas, de remexer os ossos (no meu caso). É a vida, né. Sempre aparece alguém pra bagunçar tudo.


*Trecho da noveleta "Hei, hou, Borunga chegou", publicado na revista digital que está em sua terceira temporada. Lei o texto inteiro em https://mafagaforevista.com.br/edicao-3-junho  

fred gustavos

santiago

Santiago Santos nasceu em SC, mas, devido ao adiantado da hora, virou cuiabano. Já publicou os livros "Na eternidade sempre é domingo" (Carlini & Caniato - 2016) e "Algazarra" (Patuá - 2018). Escreve e também traduz, revisa e prepara textos. Seu refúgio oficial é o site flashfiction.com.br . Foi o autor selecionado para a edição de junho da Revista Mafagafo, revista digital brasileira de ficção científica e fantasia








 

 


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