PROSA

Manuel de Oliveira* (trecho)



A história da mágoa que o levou a uma semi-loucura, ele me contou muitas vezes de um modo inalterável. Cabinda de nação, ele viera muito menino da Costa d’África e um português hortelão o comprara e lhe ensinara o ofício de plantar couves. O seu senhor tinha uma grande horta pelas bandas da rua do Pinheiro, no Catete, e logo que o pobre Manoel – era esse o nome do meu cabinda – cresceu um pouco, pela manhã, com verduras cuidadosamente contadas pelo senhor, ele saía para o Catete e Botafogo a vender couves, repolhos, cenouras, etc. Levavam as verduras e legumes preços marcados, mas ele as podia vender mais caro, ficando para si o excedente. Durante anos, Manoel de Oliveira, pois, como era costume, veio a usar sobrenome do senhor, fez ele isso, ao sol e à chuva, juntando nas mãos do senhor os seus lucros diários. Quando chegou a certa quantia estipulada, o Oliveira, dono da horta, deu-lhe a sua carta de alforria.  Não sabia da companhia do seu antigo senhor e com ele continuava a trabalhar, mediante salário.

Habituado a economizar, continuava a fazê-lo, mas não sem que, de quando em quando, comprasse o seu “gasparinho”. Um belo dia, a sorte bafejou-o e a loteria deu-lhe um conto de réis, que ele guardou nas mãos do patrão. (…)

Por esse tempo, veio Manoel de Oliveira a conhecer uma pretinha escrava que acudia pelo nome de Maria Paulina. A comborça interessou-o e ele, à vista das condições de fortuna em que estava, resolveu, agir os preliminares indispensáveis, tomar estado. Libertou a rapariga, comprou uns móveis toscos, alugou um tugúrio e foi morar com a Maria Paulina. As coisas correram bem até certo tempo. (…) Assim, ia correndo a sua vida, quando ele teve a honra, na sua humildade, de ser objeto de drama. Maria Paulina fugiu... O fato abalou o pobre preto em todo o seu ser. Ficou meio pateta, deu em falar sozinho, abandonou a horta e deixou-se errar a esmo pela cidade, dormindo aqui e ali.

A polícia apanhou-o e meteu-o no Asilo de Mendigos. Daí foi enviado para a ilha do Governador e internado numa espécie de colônia de pedintes que o governo imperial fundou nos seus últimos anos de existência. Vindo a república foram essas colônias, pois eram duas, transformadas nas atuais de alienados. Meu pai foi, em 1890, nomeado para um pequeno emprego delas. Fomos todos morar lá e foi então que eu conheci Manoel de Oliveira (…)

O seu grande amor era a horta. O seu antigo senhor tinha-lhe inventado esse gesto que não o largou até a hora da morte (…) Devo-lhe muito de amor e devotamento. Conto um pequeno fato. Quando minha família atravessou uma crise aguda; quando veio a nossa tragédia doméstica, Manoel de Oliveira chegou-se a mim e emprestou-me cem mil reis que economizara.

Muitos outros fatos se passaram entre nós dessa natureza, e, agora, que o desalento me invade, não posso relembrar essa figura original de negro, sem considerar que o que faz o encanto da vida, mais o que qualquer outra coisa, é a candura dos simples e a resignação dos humildes...”


*Reproduzido de https://suplementopernambuco.com.br/ , conto selecionado por Lilia Moritz Schwarcz, antropóloga e historiadora, professora da USP. Ela é pesquisadora da obra de Lima Barreto, autora de diversos livros

LIMA

Lima Barreto (1881-1922) foi um jornalista e escritor brasileiro. Publicou romances, sátiras, contos, crônicas e uma vasta obra em periódicos, principalmente em revistas populares ilustradas e periódicos anarquistas do início do século XX

 


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