CONTO

A queda*



É somente mais uma entre milhares de noites com sibilos estranhos, apenas o rememorar de presságios antigos, mera bobagem a se enfrentar, pensei, pouco antes de decidir levantar. Por segundos, encaro a altura do degrau à beira da casa semelhante a um portal para um outro mundo. Pressinto algo errado, e uma voz dentro de mim me diz "não vá". Ignoro e sigo em frente.

O primeiro passo se perde no vazio. Vou de cara ao chão.

O peito comprimido dói.

Algo sólido machuca feio minha bochecha direita, língua e palato.

Da perspectiva horizontal rente ao solo, sinto medo desse significado, mas isso só renova minhas forças para levantar mais rápido do que é possível supor.

Não adianta muito; é tarde demais. Correntes de ganchos em ponta prendem minhas duas pernas desde a cintura. A impressão quanto a casa se confirma.

Vejo todo tipo de demônio a sorrir, dançar e se mover de maneira libidinosa à volta de uma luz incandescente. Não quero mais entrar ali.

Não obstante, as correntes ignoram meu querer e me puxam; sinto meu peito bater forte num degrau alto, minha boca tem intenso gosto agridoce de ferro.

Ergo-me em fúria, só consigo ver a luz. A quero e desejo como jamais desejei algo. Os grilhões voam como caco de vidro. Faço então coisas indizíveis e, pior ainda, as quais jamais, por um segundo que fosse, imaginei ser capaz. Os demônios riem com ainda mais lascívia e barulho, felizes de verem suas vontades a mim direcionadas enfim satisfeitas. Tudo agora é escuridão, exceto pela memória incandescente rodeada por aquele mal infindo.

A agonia me leva a lembrar do que havia feito, de como pude esquecer o velho adágio: a felicidade é em tudo semelhante - crianças correndo no parque, um dia de sol em abril, o céu explodindo de azul ao fundo, o rosto de um filho transmutado em uma alegria que ele não consegue conter, sua mulher chorando de felicidade no banheiro, o beijo sincero dessa mulher, a certeza tangível de estar tudo bem; mas a infelicidade, essa possui forma de manifestar tantas quantas são as estrelas no céu.

Cada ser infeliz o é à sua maneira. E em cada uma delas buscará compartilhar essa dor. É a única coisa que compartilham de coração, afinal.

Finalmente desperto, toda fibra de meu corpo a contorcer-se em grito. Tudo é desterro. A vista embaçada vislumbra com dificuldade de novo a luz direta vinda dos olhos dela; mas é um brilho em tudo diferente. Antes que possa dizer qualquer coisa, antecipa-se: "Não há mais volta".

As correntes retornam no mesmo instante.

Sou arrastado para o abismo, sinto cheiro de grama e gosto de terra na boca, há carne sendo arranhada; só tenho tempo de a ver diminuindo cada vez mais, conforme afundo em um oceano impossível de se vencer a nado. As vagas não são de água, mas enxofre e álcool - eu caio e vejo o mundo descer ao inferno comigo. 

É nada além de impressão. Sei bem - estou completamente só. 

Meu dente arrancado volta a sangrar agora que lâminas foram colocadas em minha boca e eu, obrigado a mastigá-las.

Mas nem isso dói mais que as últimas palavras. Não há mais volta - está para sempre atado a este momento. E ele nunca vai passar.

 

*Conto reproduzido do livro "Essa armadilha, o corpo" (Chiado Editora - 2018)

rodi

Rodivaldo Ribeiro era cuiabano. Apesar da partida prematura, com 44 anos, deixou sua marca aguerrida no jornalismo cuiabano, atuando em diversos setores. Sempre bastante crítico e embasado em diferentes áreas do conhecimento. Foi um bravo articulador cultural. Tinha um histórico de roqueiro e, nos últimos anos, vinha se destacando na literatura

Leia sobre o lançamento do livro de Rodivaldo "Essa armadilha, o corpo" (Chiado Books - 2018), em...

http://www.tyrannusmelancholicus.com.br/noticias/10782/essa-armadilha-o-corpo

 

Leia outro conto de Rodivaldo já publicado no tyrannus em...

http://www.tyrannusmelancholicus.com.br/cronicas/11244/prece-sem-nome-nem-titulo

 


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