PROSA

As vinhas da ira (romance-trechos)*



Os pecadores

“À margem de uma vala de irrigação, um velho pregador gesticulava, e o povo gritava. O pregador corria para lá e para cá com a fúria de um tigre e fustigava o povo com suas palavras, e o povo arrastava-se pelo chão, a chorar e a uivar. Ele media aquela gente com o olhar; calculava-lhe a disposição, tocava-a como se toca um instrumento. E quando toda aquela gente serpenteava pelo chão, ele se inclinava e erguia, revelando grande força, um por um nos braços, e gritando ‘Tome-os, Jesus’, atirava-os na água. Quando já todos estavam dentro da vala, com água até a cintura, a olhar o mestre com olhares assustados, ele se ajoelhava na margem e rezava por eles. Rezava implorando que todos eles, homens e mulheres, rastejassem pelo chão, a chorar e a uivar. E os homens e as mulheres observavam-no com a roupa colada ao corpo a pingar água. Voltavam depois para o acampamento, os sapatos chapinhando, falando baixinho, cheios de assombro.

Estamos redimidos, diziam. Temos a alma branca como neve. Nunca mais vamos pecar.

E as crianças, molhadas e assustadas, cochichavam entre si: estamos redimidos. Não vamos pecar, nunca mais.

Só queria era saber o que eram esses pecados todos, pra eu cometer eles.”


A gaita e o violão

“Uma gaita é fácil de se carregar. Tira ela do bolso de trás das calças e bate ela na mão, pra cair a poeira, a sujeira do bolso e os fiapos de fumo. Bom, agora ela tá boa. Pode-se fazer muita coisa com uma gaita: pode-se arrancar um som agudo e penetrante e acordes simples, e também uma melodia de acordes rítmicos. Pode-se moldar a música com as mãos em concha, fazendo-a lamentar-se, chorar que nem uma gaita escocesa, torná-la volumosa, cheia como um órgão ou fina e amarga como o sopro das montanhas. E pode-se tocar e guardar o instrumento no bolso. Ter ele sempre no bolso, sempre acompanhando a gente. E pode-se sempre tocar e aprender novos truques, novos métodos de se moldar o som com as mãos, modular ele com os lábios, sem precisar de ninguém que nos ensine essas coisas. E pode-se fazer experiências sozinho, às apalpadelas… sozinho na sombra de uma tarde, ou então depois do jantar, à entrada da tenda, enquanto as mulheres lavam a louça. Pode-se bater com o pé no chão, vagarosamente, para marcar o compasso; as sobrancelhas a subir e descer, seguindo o ritmo. E se acaso se perde o instrumento, ou se alguém o quebra, o prejuízo não é tão grande assim. Pode-se comprar outra gaita por 25 cents.

Um violão é mais precioso. Deve-se aprender a tocar violão. Os dedos da mão esquerda devem ser calosos. O polegar da direita também deve ter calosidades. Esticam-se os dedos que nem patas de aranha, para acertar bem as marcações nas cordas.

Este violão era de meu pai. Eu não era mais alto que um percevejo quando ele começou a me ensinar. E quando eu já sabia tocar que nem ele, deixou que eu tocasse. Costumava sentar-se na soleira, me escutando e marcando o compasso com o pé. Às vezes eu metia coisas da minha cabeça no meio da música, e ele ficava zangado até que eu conseguia acertar; então ele ficava aliviado. ‘Toca’, dizia. ‘Toca alguma coisa bem bonita’. Pois é. Este é um violão dos bons. Olha só como já tá todo arranhado. Foi um milhão de canções que arranhou ele assim, um milhão de canções que já se tocou com ele. Foi esse milhão de canções que afinou a madeira desse jeito. Qualquer dia tá quebrando que nem casca de ovo. Não se pode consertar ele, senão perde o som. Às vezes, quando toco, de noite, uma gaita na tenda do vizinho me acompanha. E fica tão bonito, os dois juntos!”

 

*Trechos do romance "As vinhas da ira" (Record), reproduzidos e nominados, através do endereço https://kikacastro.com.br/ , com tradução de Herbert Caro e Hernesto Vinhaes

steinbeck

O estadunidense John Steinbeck (1902 - 1968) foi vencedor de prêmios literários como o Nobel e o Pulitzer de Ficção. Entre seus mais memoráveis livros estão "Luta Incerta" (1936), "Ratos e Homens" (1937) e "As Vinhas da Ira" (1939); este último, adaptado para o cinema com direção de John Ford. No total, Steinbeck teve 17 obras de sua autoria adaptadas para o cinema em Hollywood

 


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