ENSAIO

A busca do presente*



Começo com uma palavra que todos os homens proferiram, desde que o homem é homem: gracias. É uma palavra que tem equivalentes em todas as línguas. E em todas é rica a gama de significados. Nas línguas latinas, vai do espiritual ao físico, da graça que Deus concede aos homens para salvá-lo do erro e da morte à graça corporal da jovem que dança ou à do felino que salta na floresta. Graça é perdão, indulto, favor, benefício, nome, inspiração, felicidade no estilo de falar ou de pintar, gesto que revela as boas maneiras e, enfim, ato que expressa bondade de alma. A graça é gratuita, é um dom; aquele que a recebe, o agraciado, se não for um malnascido, agradece: dá graças. É o que faço agora com estas palavras de pouco peso. Espero que minha emoção compense sua leveza. Se cada uma fosse uma gota de água, os senhores poderiam ver, através delas, o que sinto: gratidão, reconhecimento. E também uma indefinível mistura de temor, respeito e surpresa ao ver-me diante dos senhores, neste recinto que é, simultaneamente, o lugar das letras suecas e a casa da literatura universal.

As línguas são realidades mais vastas que as entidades políticas e históricas que chamamos de nações. Um exemplo disso são as línguas europeias que falamos na América. A situação peculiar de nossas literaturas diante da literatura da Inglaterra, da Espanha, de Portugal e da França depende precisamente deste fato básico: são literaturas escritas em línguas transplantadas. As línguas nascem e crescem em um solo; alimenta-as uma história comum. Arrancadas de seu solo natal e de sua tradição, plantadas em um mundo desconhecido e a se nomear, as línguas europeias enraizaram-se nas terras novas, cresceram com as sociedades americanas e se transformaram. São a mesma planta e são uma planta distinta. Nossas literaturas não viveram passivamente as vicissitudes das línguas transplantadas: participaram do processo e o apressaram. Logo deixaram de ser meros reflexos transatlânticos; algumas vezes, foram a negação das literaturas europeias e outras, com mais frequência, sua réplica.

Apesar desses vaivéns, a relação nunca se rompeu. Meus clássicos são os da minha língua e sinto-me descendente de Lope e de Quevedo como qualquer escritor espanhol... porém, não sou espanhol. Creio que o mesmo poderia dizer a maioria dos escritores hispano-americanos e também os dos Estados Unidos, do Brasil e do Canadá diante da tradição inglesa, portuguesa e francesa. Para entender mais claramente a peculiar posição dos escritores americanos, basta pensar no diálogo que mantém o escritor japonês, chinês ou árabe com esta ou aquela literatura europeia: é um diálogo através de línguas e civilizações distintas. De modo diverso, nosso diálogo se realiza no interior da mesma língua. Somos e não somos europeus. Que somos, então? É difícil definir o que somos, mas nossas obras falam por nós.

A grande novidade deste século, em matéria literária, foi o aparecimento das literaturas da América. Primeiro surgiu a anglo-americana e, depois, na segunda metade do século XX, a da América Latina em seus grandes ramos, a hispano-americana e a brasileira. Ainda que muito diferentes, as três literaturas têm um traço em comum: a luta, mais ideológica que literária, entre as tendências cosmopolitas e as nativistas, o europeísmo e o americanismo. Que ficou dessa disputa? As polêmicas se dissipam; ficam as obras. Além dessa semelhança geral, as diferenças entre as três são numerosas e profundas. Uma é de ordem histórica mais do que literária: o desenvolvimento da literatura anglo-americana coincide com a ascensão histórica dos Estados Unidos como potência mundial; o da nossa com as desventuras e convulsões políticas e sociais de nossos povos. Nova prova dos limites dos determinismos sociais e históricos; os crepúsculos dos impérios e as perturbações das sociedades coexistem por vezes com obras e momentos de esplendor nas artes e nas letras: Li-Po e Tu Fu foram testemunhas da queda dos Tang; Velásquez foi o pintor de Felipe IV; Sêneca e Lucano foram contemporâneos e vítimas de Nero. Outras diferenças são de ordem literária e se referem mais às obras em particular do que ao caráter de cada literatura. E as literaturas têm caráter, possuem um conjunto de traços comuns que as distingue umas das outras? Não creio. Uma literatura não se define por um quimérico, inacessível caráter. É uma sociedade de obras únicas unidas por relações de oposição e afinidade.

A primeira e básica diferença entre a literatura latino-americana e a anglo-americana reside na diversidade de suas origens. Uns e outros começamos por ser uma projeção europeia. Eles, de uma ilha, e nós, de uma península. Duas regiões excêntricas pela geografia, a história e a cultura. Eles vêm da Inglaterra e da Reforma; nós, da Espanha, de Portugal e da Contrarreforma. Nem preciso mencionar, no caso dos hispano-americanos, o que distingue a Espanha das outras nações europeias e lhe outorga uma notável e original fisionomia histórica. A Espanha não é menos excêntrica que a Inglaterra, ainda que de forma distinta. A excentricidade inglesa é insular e se caracteriza pelo isolamento: uma excentricidade por exclusão. A hispânica é peninsular e consiste na coexistência de diferentes civilizações e passados: uma excentricidade por inclusão. No que seria a Espanha católica, os visigodos professaram a heresia de Arriano, para não falar dos séculos de dominação da civilização árabe, da influência do pensamento judaico, da Reconquista e de outras peculiaridades.

Na América, a excentricidade hispânica se reproduz e se multiplica, sobretudo nos países com antigas e brilhantes civilizações, como México e Peru. Os espanhóis encontraram no México não só uma geografia, como também uma história. Essa história está viva ainda: não é um passado mas um presente. O México pré-colombiano, com seus templos e seus deuses, é um montão de ruínas, contudo o espírito que animou este mundo não morreu. Fala-nos na linguagem cifrada dos mitos, das lendas, das formas de convivência, das artes populares, dos costumes. Ser escritor mexicano significa ouvir o que nos diz esse presente, essa presença. Ouvi-la, falar com ela, decifrá-la: dizê-la. Talvez depois desta breve digressão seja possível entrever a estranha relação que, ao mesmo tempo, nos une e separa da tradição europeia.

A consciência da separação é uma nota constante de nossa história espiritual. Às vezes sentimos a separação como uma ferida e então ela se transforma em cisão interna, consciência desgarrada que nos convida ao exame de nós mesmos; outras vezes aparece como um desafio, espora que nos incita à ação, a sair ao encontro dos outros e do mundo. Claro, o sentimento da separação é universal e não é privativo dos hispano-americanos. Nasce no momento mesmo de nosso nascimento: desprendidos do todo, caímos em um solo estranho. Essa experiência se converte em uma chaga que nunca cicatriza. É o fundo insondável de cada homem; todos os nossos empreendimentos e ações, tudo o que fazemos e tudo aquilo com que sonhamos são pontes para romper a separação e nos unir ao mundo e aos nossos semelhantes. Nessa perspectiva, a vida de cada homem e a história coletiva dos homens podem ser vistas como tentativas destinadas a reconstruir a situação original. Inacabada e inacabável cura da cisão. Mas não me proponho a fazer outra descrição, mais uma, desse sentimento. Sublinho que entre nós ele se manifesta sobretudo em termos históricos. Assim, converte-se em consciência de nossa história. Quando e como aparece esse sentimento e como se transforma em consciência? A resposta a essa dupla pergunta pode consistir em uma teoria ou em um testemunho pessoal. Prefiro o segundo: há muitas teorias e nenhuma confiável de todo.

 

*Reproduzido do site https://suplementopernambuco.com.br/ , este texto compõe o discurso que o autor proferiu quando ganhou o Prêmio Nobel de Literatura, em 1990

octavio

O mexicano Octavio Paz (1914-1998) foi ganhador do Nobel de Literatura em 1990. Foi poeta, ensaísta, tradutor e diplomata. Projetou-se mundialmente, em especial, pelo trabalho prático e teórico no campo da poesia moderna ou de vanguarda


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