RESENHA

Quando somente a arte parece simbolizar a liberdade*



“Luanda, Lisboa, Paraíso”. O título do romance apresenta três espaços em que a transitoriedade da vida se debulha. Cartola e Aquiles, personagens de uma família dividida pela diáspora, pela miséria imposta e as agruras de uma guerra sem limites. “Os primeiros cinco anos de vida da criança apanharam a família no cruzamento entre a crescente paralisia da mãe (Glória) e a iminência da Independência”. (p. 12). 

A mãe presa ao catre, o filho precisando de atendimento especializado, a guerra civil desrespeitando toda e qualquer subjetividade. O caminho era seguir para a Metrópole. É incrível como a cultura lusitana está entranhada (ainda) nesse pós-colonialismo que insiste em não ser decolonial. “Cartola parecia mais baixo ao filho desde que haviam chegado a Lisboa. A sua camisa fora engomada pela última vez ainda em Luanda. O filho olhava-o como quem teme que o rei sucumba a uma conspiração”. (p. 29).

Glória é a mãe de Aquiles e se revela no livro nas cartas que envia ao marido, depois que aprende a escrever e nelas revela suas angústias, saudades e desejos, além de pequenas encomendas para suprir as necessidades. Cartola, que herda o nome devido ao objeto deixado pelo pai e do qual se apropriou, segue com o filho calejando as mãos no ofício de servente, o que me lembra dos haitianos que chegaram a Cuiabá e tiveram que engavetar seus diplomas em nome da sobrevivência. Parecem sumidos, até porque as ruas agora estão tomadas pelos venezuelanos que, por conta da pandemia, experimentam invisibilidade ainda maior. 

E Aquiles, com sua perna coxa, como a Eugenia machadiana, tem sua identidade atravessada pelo determinismo biológico. O menino cujo “calcanhar defeituoso era o seu passaporte. E tinha o olhar penhorado, os olhos da mãe”. (p. 47). A relação de amor entre pai e filho vai se desdobrando com a leitura e ganhando contornos dramáticos, sem derramamento. Para quem já vivenciou dramas similares dentro da família, da própria casa, pode imaginar que “talvez dentro de cada doente houvesse um tirano e dentro de cada cuidador um carrasco”. (p. 104).

Esse entre-lugar que o imigrante vivencia é captado pela narrativa em pequenas doses, quase que homeopáticas, a fim de não contaminar a escrita com ideologramas próximos ao dialogismo panfletário que costuma sombrear a escrita. A linguagem das ruas e o espaço das casas. A saudade da mãe embala a vida tortuosa desse filho; talvez sua fraqueza maior, o seu próprio calcanhar desfigurado em metástases de uma imaginação sem volta, pois que “Desde que começara a ir com o pai para a obra, o seu desejo íntimo era pagar-lhe um bilhete de avião [para a mãe], embora soubesse bem que não teria maneira de a sustentar e lhe fosse claro que o pai estava velho e cansado demais para a apoiar em Lisboa. (p. 154).

Lisboa foi a tentativa desse pai, em face às condições precárias de saúde da mãe, mas revela-se insuficiente para que a sobrevivência se efetive longe da origem. A morte de Pepe, que se torna amigo da família na periferia metropolitana atinge os brios que ainda restavam naqueles (pai e filho) que se arrastavam em busca de um pedaço de pão. Seu enforcamento parece ser a pá de cal. 

Se a carta do enforcado no tarô pode significar uma maneira de se livrar das amarras, a execução do ato, em si, até por não se prender o corpo pelo pé, e sim pelo pescoço, não permite uma segunda chance. Pepe parece ter contribuído com esse momento póstumo. Trajou-se para a morte pronto para ser embalado e levado à cova, como se percebe pelas mãos de quem narra:

"Arranjara-se para o enterro como para um casamento. Braços hirtos, mãos roxas, unhas azuladas, olhos abertos,  língua de fora. Calçava apenas um sapato, embora não tivesse meias; calças borradas. Aos seus pés, no tanque, alguns pares de peúgas de molho casavam com o cinzento-sabão da cara do enforcado. (p. 197)."

Djaimilia é autora de “Esse cabelo”, obra que estampa na capa a mensagem de que se trata de um “romance surpreendente que mistura memória, imaginação e crítica social com humor e leveza na medida certa”. Se o livro se autodenomina uma “tragicomédia de um cabelo crespo que cruza fronteiras”, a obra que, ao falar de cabelo expõe questões ligadas ao racismo, feminismo e identidade serve de contraponto ao domínio colonial que sufocou a cultura angolana por um bom tempo, esse belo escultor que cria obras de arte que se elevam com o passar dos dias. A angolana de nascimento é, como aponta Agualusa, a “novíssima estrela da literatura portuguesa”.

 

REFERÊNCIAS

ALMEIDA, Djaimilia Pereira de. Luana, Lisboa, Paraíso. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. 

 

*Texto de Luiz Renato Souza Pinto, poeta, escritor, ator e professor. Colabora mensalmente com o tyrannus, através da coluna LETRAS DELAS, onde envereda por literaturas escritas por mulheres

djaimilia

Djaimilia Pereira de Almeida é escritora, ativista e feminista. Nasceu em Luanda, capital de Angola, mas cresceu nos arredores de Lisboa, em Portugal. Costuma se classificada como representante de uma literatura que trabalha temas como raça, gênero e identidade. É autora de quatro livros, entre eles os romances "Esse cabelo", que recebeu o prêmio Novos na categoria literatura, e "Luanda, Lisboa, Paraíso", vencedor do prêmio literário Fundação Inês de Castro

 


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