ROMANCE/TRECHO

Opisanie swiata



Prezado Sr. Opalka, é com grande pesar que levo ao conhecimento de V. Sa. que seu filho, o Sr. Natanael Martins, se encontra internado, em estado grave, em nosso hospital. Ele rogou-me que lhe encaminhasse a carta anexa, a mim tão sofridamente ditada. Sinto-me na obrigação de dizer-lhe ainda que a progressiva debilidade do estado de saúde de seu filho tem, nos últimos dias, afetado a sua capacidade de entendimento e de raciocínio. Por isso, suplico-lhe, não se atenha aos detalhes e não julgue a carta por aquilo que ela diz, mas por aquilo que ela quer dizer. Sem mais, subscrevo-me, DR. AMADO SILVA Médico-operador. Querido pai, não me sinto bem. Já faz um mês que não caminho e não consigo ficar muito tempo sentado na cama, à qual estou confinado desde os primeiros meses do corrente ano. Não lembro mais como é estar a uma mesa para almoçar ou jantar e tenho alguma dificuldade para respirar. Sinto dores por todo o corpo, em especial nas pernas e nos braços. Segurar a caneta para escrever exige de mim um grande esforço. Por essa razão, dito esta carta. Os médicos não sabem o que pode ter me acometido, e os remédios já não dão conta de aliviar meu sofrimento. Meus poucos amigos não têm me visitado com a regularidade com que vinham nos primeiros tempos da doença. Mamãe, como o senhor já deve saber, pereceu há dois anos. Por sorte, não chegou a sofrer com minha enfermidade, que se manifestou pela primeira vez no verão passado. Estou sozinho e muito debilitado. Preso a esta cama, não tenho pensado em outra coisa senão em encontrá-lo. Sinto uma vontade cada vez maior de, enfim, conhecê-lo. Pedi que comprassem a passagem para o senhor vir me ver, já que não tenho condições de sair de onde estou. O senhor terá apenas de ir até o porto para pegar o navio. Sugiro que vá até lá de trem. Não pense em enfrentar uma desnecessária viagem de barco. Traga consigo um paletó de inverno. Embora aí seja verão, pode haver noites frias no navio. Aqui na floresta, como é de seu conhecimento, faz calor o ano inteiro. E chove muito. Por isso, traga também a gabardine. O guarda-chuva o senhor pode deixar em casa, pois os tenho aos montes. Não preciso dizer-lhe que aqui não se usam as mesmas roupas que aí. O senhor sabe que nem os maiores magnatas daqui vestem roupas de lã. Preferem a percalina. Se o senhor tiver fatiotas de percalina, não hesite em trazê-las. Se tiver camisas de seda, também. É sempre bom ter um par delas para não descuidar jamais da elegância. Traga consigo o relógio e, se achar conveniente, o travesseiro. Os travesseiros alheios nunca são como os nossos. Guarde o relógio dentro do travesseiro, para não quebrar. Considere a possibilidade de permanecer aqui comigo alguns dias ou, talvez, alguns meses. Assim, traga tudo o que lhe é caro. Só não precisa trazer dinheiro. Eu não tenho muito, mas tenho o suficiente para nós dois. Não se preocupe com isso. Preocupe-se em carregar apenas seus pertences. Se o senhor quiser trazer sua arma, traga-a. Se o senhor tiver também uma faca, porte-a consigo. Não creio que se utilizará delas ao longo da viagem, mas é sempre bom andar precavido. As armas aqui são caras, principalmente as de fogo. São mais caras que aí. Não sei se o senhor gosta de jogar cartas. Se sim, tenho baralhos aqui. Não se apoquente com isso. Livros, eu também os tenho, tanto de literatura quanto de ciência. Tenho muitos relatos de viagem. Comprei-os aos montes. Mamãe me contou que o senhor gostava de viajar. Aliás, estão comigo os livros que o senhor deixou aqui. O senhor certamente ficará feliz em revê-los. Em suma, pense em tudo o que lhe é essencial e traga. Há espaço de sobra na minha casa, embora ela não seja grande. É a casa que era de minha mãe e que fora de meus avós. Não sei se o senhor se lembra dela. Fica na mata, numa clareira, entre castanheiras. Depois de separar tudo o que lhe importa, compre um baú e acondicione tudo nele. Creio que é a melhor forma de trazer suas coisas. Sobre o baú, escreva com letras grandes, em tinta preta, de preferência a óleo, para que não se apague: SR. OPALKA. Se não der tudo dentro de um único baú, compre outro. Pinte em cima de cada um: SR. OPALKA. E os numere: escreva Nº. 1 para o primeiro baú e Nº. 2 para o segundo. Traga ainda uma valise de mão ou uma sacola. A viagem de navio é demorada. É preciso, pois, ter por perto algumas mudas de roupa. O senhor sabe: não se pode viver por mais de uma semana com uma camisa só. Não esqueça também de carregar consigo uma cesta. Compre uns dez limões, um saco de açúcar, um pouco de chá. Eles podem ser úteis no navio. Quando o senhor estiver com ânsias, pegue um limão, esprema-o sobre o açúcar e tome. O senhor pode ainda fazer chá. É só pedir água na cozinha do navio. Compre também umas duas garrafas de vinho tinto, um pouco de manteiga, pão e queijo. Embora sirvam comida em abundância no navio, é bom estar preparado. Traga também uma faca de cozinha, uma colher e um caneco na cesta, junto com os limões, o açúcar, o chá, o vinho, a manteiga, o pão e o queijo. O senhor poderá levar mais mantimentos se quiser. Há o percurso de trem, antes de chegar ao navio. Talvez seja o caso de dobrar a quantidade de tudo, menos do limão, do açúcar e do chá, que são para o enjoo. Cuide para que seu baú não suma durante a viagem. Não o perca de vista. E fique de olho também em sua valise. Não deixe que as outras pessoas se apossem de seus mantimentos. Eu sei que a viagem é longa e demorada, mas o pior é chegar até o navio. Depois, é tudo tranquilo. Quando o navio navega calmamente, pode-se subir ao convés. Lá é mais saudável e agradável do que nas cabines. Quando o navio balança, é melhor ficar deitado na cama, porque há casos de passageiros que caem e se quebram ou machucam a cabeça. Quanto a andar pelas escadas para subir ao convés, deve-se ter muito cuidado, porque há casos de pessoas que descem de fundilhos quando o navio oscila. O senhor não vai querer perder o equilíbrio e descer de fundilhos pelas escadas do navio, não é? Contaram-me que uma senhora machucou-se assim. Ela quebrou uma das pernas e, em três dias, estava morta. Se as camas forem do tipo beliche, jamais se deite nas de baixo. Aqueles que estão nas de cima podem vomitar na sua cabeça. E preste atenção: durante a viagem, não escute ninguém e não deixe que o perturbem. Não faça caso do que os outros dizem. Diz-se muita besteira na solidão do oceano. Percebo agora o quão tolo posso parecer-lhe ao enfileirar tais recomendações. O senhor é um homem viajado e certamente sabe bem mais que eu da rotina e das exigências de um percurso como esse. No porto daqui, o senhor Jean-Pierre estará lhe esperando. Ele o trará imediatamente até onde estou. Quando o senhor chegar ao hospital, será fácil saber quem eu sou: serei aquele que mais se parece consigo. Rogo-lhe, pai, venha. Venha tão logo receba esta carta com a passagem. Aguardo-o com impaciência. Faça uma boa viagem. Do seu amoroso filho, NATANAEL – Pois não aplaudas nada, disse-lhe mansamente a mulher. Queres fazer-me um obséquio? Vamos à Europa, em março, ou abril, e voltemos daqui a um ano. Pede licença à câmara, donde quer que estejamos – de Varsóvia, por exemplo; tenho muita vontade de ir a Varsóvia, continuou sorrindo e fechando- lhe graciosamente a cara entre as mãos. Diga que sim; responda, que é para eu escrever hoje mesmo para o Rio Grande, o vapor sai amanhã. Está dito; vamos a Varsóvia? MACHADO DE ASSIS, Quincas Borba Tu sais qu’Ubu se passe en Pologne, c’est-à-dire nulle part. MICHEL FOUCAULT, carta a um amigo, 22 de novembro de 1958 Para Ivo, meu pai How to be happy in Warsaw O tipo era atarracado, braços e pernas como pequenas toras. O rosto, redondo, circundado por grossos fios de cabelos castanho-escuros, cortados na forma de um capacete – um estranho corte de cabelo que acentuava ainda mais a rotundez da face. A parte inferior da barriga protuberante não se continha dentro da camisa vermelho-sangue: saltava para fora por baixo e pelas aberturas entre os botões produzidas pela pressão do corpo roliço sob a justeza do tecido. De magriço, o tipo só tinha o bigode: fino, longo e com as pontas levemente viradas para o alto. Não era moda e nem chegaria a sê-lo, mas era assim que ele gostava de usá-lo. Embora fizesse calor naquele mês de agosto, trazia sobre a camisa vermelho- sangue e a calça clara de linho um longo quimono de seda espalhafatosamente estampado, que, de tão comprido, arrastava no chão e levava consigo poeira, areia, pedrinhas e toda sorte de detritos que porventura encontrasse pelo caminho. Levava, com esforço, quatro malas de tamanhos diferentes: duas em cada uma das mãos e duas debaixo dos braços troncudos. Ao ver Opalka sentado num dos bancos da estação, lendo compenetrado o jornal, sorriu feliz. Acelerou o passinho, tropeçou na barra do quimono e se espatifou no chão a apenas alguns passos do banco. Com a queda, arremessou involuntariamente para a frente suas malas, que se esparramaram defronte a Opalka, fazendo barulho. Como num boliche, as quatro malas derrubaram o pequeno baú de Opalka, o qual, por sua vez, caiu sobre a sua cesta de limões, virando-a. Os limões – uma dúzia – rolaram todos para fora. Um deles avançava, célere, em direção ao vão dos trilhos, enquanto os outros já tinham estancado embaixo do banco, entre as pernas de Opalka e em torno da cesta e do baú. O tipo, que havia se levantado num salto, se jogou ao chão, como se mergulhasse numa piscina, para tentar conter o limão. Mas foi em vão: o braço, muito curto, não conseguiu alcançá- lo, e o limão, enfim, tombou sobre os trilhos. Opalka, que, admirado, acompanhava a cena por cima do jornal, fez então menção de juntar os limões restantes. Mas o tipo, que já estava em pé novamente, espanando com força seu quimono espalhafatoso, esticou a mão espalmada, fazendo sinal para que Opalka não se movesse. Sem obedecê-lo, Opalka depositou o jornal no banco a seu lado e abaixou o tronco. Quando ia pegar um dos limões que estava próximo a seu pé esquerdo, o tipo fez novamente um sinal com a mão e gritou em alemão: – Pare! Opalka, surpreso, deteve-se, encarou o tipo e ergueu novamente o corpo, desistindo do limão. O tipo sorriu-lhe e, mancando, recolheu a cesta do chão e foi recolocando dentro dela, um a um, os onze limões. Opalka pegou o jornal e voltou a lê-lo. Depois de encher a cesta, o tipo levantou o pequeno baú, bateu-lhe vigorosamente com a mão direita para livrá-lo da poeira e o depôs encostado no banco, ao lado dos pés de Opalka. Este tirou por um momento sua atenção do jornal e olhou de soslaio para o tipo. O recém-chegado estava agora acomodando suas próprias malas. Ele as organizava por ordem de tamanho e bem na frente do banco em que estava Opalka: a menor delas ficou aos pés deste e a maior diante do lugar que escolheu para se sentar. Finalmente o pequeno homem tomou assento ao lado de Opalka, que o olhou de lado, discretamente. O tipo analisava cada partezinha de seu quimono e, vez por outra, estalava a língua no céu da boca e balançava a cabeça para os lados, contrariado. Opalka não conseguia mais prestar atenção no jornal. Observava o tipo, que, depois de muito estalar a língua no céu da boca e balançar a cabeça para os lados, abaixou o tronco em diagonal em direção ao chão, a fim de alcançar a menor de suas malas. Como não se levantara do banco, passou o corpo por cima dos joelhos de Opalka, que comprimiu o jornal contra o peito para evitar que fosse amassado pela cabeça do outro. Este, por sua vez, remexia e remexia e remexia em sua mala, sempre grunhindo e suspirando. Sem encontrar o que procurava, levantou-se e foi até ela. Abaixou-se diante dela e voltou a remexer, introduzindo parte de sua cabeça no interior da mala. Opalka sacudiu o jornal, como se assim pudesse desamassá-lo, e voltou a ler. Mas sua atenção foi novamente interrompida; desta feita, por uma exclamação de júbilo, que vinha de baixo: – Ah! Opalka espiou mais uma vez por cima do jornal e lá estava o tipo em pé, segurando uma faca numa mão e uma maçã, como se fosse um troféu, na outra. Ele se sentou a seu lado e, antes de comer, virou-se para Opalka e lhe perguntou em polonês: – Posso ajudá-lo? Ao que o outro, tirando mais uma vez os olhos do jornal, disse, também em polonês: – Como? O tipo franziu a testa, ofereceu a maçã para Opalka e repetiu: – Posso ajudá-lo? Opalka abaixou o jornal, encarou o tipo e respondeu, também em polonês: – Desculpe. Mas creio não tê-lo entendido. O tipo suspirou fundo e olhou para os lados, como se procurasse alguém a quem pedir ajuda. Olhou para sua mala pequena e, em seguida, para as próprias mãos, ora ocupadas pela faca e pela maçã. Opalka, percebendo a inquietação do outro perguntou-lhe, ainda em polonês: – Posso ajudá-lo? O tipo se virou para Opalka e franziu novamente a testa. Na dúvida, estendeu-lhe a maçã, balançando-a levemente, deixando evidente, com o gesto, que lhe oferecia a fruta. Opalka, fingindo não ver a maçã que o outro lhe apresentava, repetiu: – Posso ajudá-lo? O tipo, sem dizer palavra, fitou Opalka e em seguida fitou a maçã e a faca, que continuavam em suas mãos. Opalka largou o jornal no banco a seu lado e estendeu os dois braços em direção às mãos do sujeito, fazendo sinal com os dedos para que este último lhe passasse a maçã e a faca. O tipo sorriu satisfeito e lhe entregou a fruta e o utensílio. Depois limpou uma mão na outra e foi até sua mala pequena. Remexeu nela mais uma vez por um certo tempo, enquanto Opalka o observava, de faca e maçã nas mãos. Finalmente, tirou de dentro de sua mala um guia de viagem dedicado a Varsóvia, em inglês, e dois cadernos de anotação pretos, visivelmente em uso. Voltou a se sentar ao lado de Opalka, virando veloz e ruidosamente as páginas do guia. Folheava para lá e para cá e parecia não achar o que procurava. Volta e meia estalava a língua no céu da boca e grunhia coisas incompreensíveis num idioma não identificável. Irritado, fechou o guia e o colocou sobre o banco, bem em cima do jornal de Opalka. Cruzou as pernas e pegou os dois cadernos pretos de anotação. Folheou um. Folheou outro. Voltou a pegar o primeiro, desta vez virando as páginas mais lentamente, até que parou numa delas. Um imenso sorriso abriu seu rosto, que já estava ficando carrancudo. Voltou-se para Opalka e ia lhe falar quando percebeu que este estava com a maçã e a faca nas mãos. O tipo, que segurava o caderno preto na mão direita, esticou a mão esquerda para tomar de volta a maçã e a faca. Opalka lhe entregou a maçã, mas não conseguiu lhe passar a faca porque a mão do outro, muito pequena, não dava conta das duas coisas ao mesmo tempo. O tipo devolveu a maçã a Opalka e acomodou o caderno sobre as pernas. Para mantê-lo aberto na página que lhe interessava, depositou sobre ele o outro caderno preto fechado. Feito isso, pegou a maçã e a faca de volta. Virou-se para Opalka e, lendo no caderno, disse em polonês: – O senhor está servido? Opalka sorriu e agradeceu, também em polonês: – É muita gentileza sua, mas não. Muito obrigado. Em seguida puxou o jornal, que estava sobre o banco, debaixo do guia de viagem, e tentou continuar a leitura. O tipo, por sua vez, descascou toda a maçã antes de cortá-la em pedacinhos pequenos, os quais enfiava na boca e mastigava feliz. Opalka não conseguia sair da mesma página – já havia lido três vezes o mesmo parágrafo –, porque o ruído da mastigação do outro o desconcentrava. Buscava, pela quarta vez, entender o que estava escrito quando foi surpreendido por uma nova agitação. O tipo, que acabara de encontrar um bicho em sua maçã, levantou-se para arremessar a fruta e a faca em direção ao vão dos trilhos, enquanto gritava, furioso, em sua própria língua: – Um bicho! Que nojo! Ele caminhou até a beira da plataforma e cuspiu, nos dormentes, a massa informe de maçã mastigada. – Que nojo! Que nojo! Que nojo! Ele enfiou, então, o dedo médio da mão direita na garganta e forçou o vômito, que não veio. Preparava-se para repetir o gesto quando Opalka, que assistia a tudo incrédulo, tentou evitar o desfecho desagradável, dizendo-lhe em português: – Não faça isso. Não é preciso. Não será um bichinho de maçã que irá lhe fazer mal. O tipo se deteve. Espantado, virou-se para Opalka e lhe falou, também em português: – Mas o senhor fala português! Por que não me disse isso antes? – Porque eu não sabia que o senhor falava português – respondeu Opalka. – Como ia adivinhar? − O senhor sabe que – O barulho do trem chegando à estação abafou a voz do tipo, impedindo que Opalka ouvisse a conclusão de sua frase. Quando o trem parou, Opalka disse, a partir de então sempre em português: – Chegou o nosso trem. E, diante da grande quantidade de malas que o tipo carregava, perguntou-lhe: – Posso ajudá-lo? O tipo agradeceu a gentileza, mas rejeitou a ajuda. Opalka apanhou o pequeno baú e a cesta com os onze limões, onde colocara também o jornal, e subiu no trem. De dentro de sua cabine, olhou pela janela e viu o outro derrubando as quatro malas no chão. Ele tentava pegar as duas maiores segurando as duas menores debaixo dos braços curtos e troncudos, mas não dava certo. Quando se abaixava para apanhar as malas maiores, as menores invariavelmente caíam. Opalka colocou o jornal amassado no bolso de seu terno branco de verão e desceu do trem. Aproximou-se do tipo e lhe disse: – Deixe-me ajudá-lo. Sem dar tempo ao outro para responder, apoderou-se de uma mala pequena e de outra grande e subiu no trem. O tipo, que não parava de lhe agradecer o gesto, subiu atrás, trazendo as duas malas restantes em cada uma das mãos. Opalka o deixou passar à frente e, depois, o seguiu até sua cabine. Lá, depositou nos bagageiros superiores as duas malas que ajudara a trazer. O tipo tentou fazer o mesmo, mas seus braços curtos não alcançavam o alto. Opalka lhe tomou as malas remanescentes e as acomodou ao lado das outras. Feito isso, estendeu a mão direita para o tipo e se despediu, desejando-lhe boa viagem. O tipo apertou-lhe efusivamente a mão, retribuindo o cumprimento. Opalka, então, dirigiu-se à sua cabine. Chegando lá, tirou o chapéu e se sentou à janela. Pegou o jornal do bolso do casaco de seu terno, deu-lhe um safanão na tentativa, inútil, de desamassá-lo e voltou a lê-lo, esperando o trem partir. Dele, minha lembrança mais viva será sempre metropolitana e cosmopolita. Surpreendi-o no meio de sua volta ao mundo; a menor, que principiou em Santos, a bordo de um Maru, e passou por Varsóvia, depois de tocar em Capetown, Sumatra e Vladivostok. A maior foi nas terras do Sem Fim da Amazônia. Naquele dia, na estação, ele chegara sem mais, ignorando todo os outros bancos desocupados e se acomodando ao meu lado (ele não conseguia ficar sozinho e, muito menos, quieto). Das valises ainda marcadas pelas etiquetas e poeiras da Transiberiana (catorze dias entre Vladivostok e Bjelo-Sjelovskaya), onde foi chamado Lafcádio (lembrança de Lafcádio Hearn, o amigo de exotismos), emergiram aos poucos os meteoros familiares. A colossal moeda de bronze com meia libra de peso, o manuscrito de um longo poema no qual trabalhava (ele tinha lá suas veleidades literárias), o quimono de legítima seda shin-shung-shah, o chapéu tropical, a caveira pré-histórica para servir de cinzeiro, a Constituição da República argentina (“Artículo primero: no hay artículo primero”), as três latas de caviar Molossol, um guia de viagem How to be happy in Warsaw e uma quantidade absurda de cadernos de anotação. Em breve, tud se dissiparia, porque Bopp se mostrou, ao longo de nosso tempo de convivência, perdulário e dadivoso. Tudo, menos o quimono comprado em Xangai, que presta serviços à noite porque tem um dragão dourado, bom para espantar espíritos maus. O guia ficou comigo. Eu devia dá-lo a meu filho para quando ele pudesse ir à Polônia me visitar. Querido pai, peço desculpas por escrever-lhe novamente. Não encontro sossego. O tempo passa, as dores aumentam e não sei se o senhor virá me ver. Talvez seja cedo demais para esperar uma resposta sua. Talvez minha primeira carta nem te...

 

*Reproduzido do site https://docero.com.br/

veronica

A gaúcha Veronica Stigger (Porto Alegre, 1973) é escritora, jornalista, professora e crítica de arte brasileira. Na última década vem se constituindo como uma das mais importantes autoras da literatura brasileira e o tyrannus aposta que seu futuro nas letras ainda vai nos surpreender bastante. É doutora em teoria e crítica da arte pela Universidade de São Paulo, com estudo sobre as relações entre arte, mito e rito na modernidade. Veronica costuma ser rotulada como pós-moderna, e o experimentalismo é outra característica muito apropriada em seus escritos. Vencedora e/ou indicada para inúmeros prêmios, seu primeiro romance "Opisanie swiata" (Sesi-SP Editora - 2013), que a gente reproduz um trecho inicial, foi vencedor dos prêmios SP de Literatura, Machado de Assis e Açorianos de Narrativa Longa. Já foi publicada em verso e prosa no tyrannus

 

 

 

 

 


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