NO ANALISTA

Procurar ajuda, eu?



Já fiz análise, não sabia? Era perfeito. Minha analista, uma senhora de quarenta e poucos anos, uma graça, atenciosa, sentada logo atrás de mim, nunca me interrompendo. E o que houve? Todo mundo passa, ou já passou por isto. Um dia, eu falava e falava (sobre o quê, Deus meu?), quando ouvi, é evidente e previsível, um ronco. Ela dormia a sono solto. Logo atrás de mim, enquanto eu falava. Voltei a me recostar e continuei falando. Eu lhe digo, foi a melhor de todas as sessões. Nunca me senti tão bem. Em nenhuma outra ocasião, deixei o divã me sentindo tão leve, tão completa. Nas sessões seguintes, infelizmente, ela não voltou a dormir. Poucas semanas depois, achei por bem interromper o tratamento, iniciando, a partir de então, uma busca por outra pessoa, outro(a) analista que me completasse daquela forma. Que, estando ali, não estivesse. Com o passar do tempo, passai a mirar profissionais idosos, velhos de fraldas, quase contemporâneos de Sigmund que, aos oitenta ou noventa anos, ainda insistissem em trabalhar. Depois de uma longa busca, obtive sucesso. O nome era Santiago, e ele tinha 94 anos. Assim que eu começava a falar, ele caía no sono. Fiz análise com Santiago por três anos, até que ele morreu. O ápice se deu no dia em que, ao descrever uma relação com alguém, fiquei excitada e me masturbei ali mesmo, no divã. Santiago roncava. Eu e ele nos entendíamos. Do que ele morreu? É uma história bem maluca.

Santiago morreu dentro de um cinema, assistindo a um filme de Manoel de Oliveira, cineasta favorito dele. Acho que era “O convento”. Não, era “Viagem ao princípio do mundo”.

Eu nunca conhecera ninguém, até então, que tivesse morrido em um cinema. Após a morte de Santiago, parei de fazer análise.

Você acha que eu deveria voltar, João Bosco?

Marcello Mastroianni em "Viagem ao princípio do mundo", interpretando seu último personagem



 

*André de Leones é escritor e o texto acima foi publicado em seu livro “Como desaparecer completamente”.

Abaixo, a chamada publicada na capa da edição em que saiu o presente texto

eu, tu, ele... todos nós temos problemas e precisamos de apoio. De ajuda. Precisamos falar de nossos problemas para saber ‘o que é que tá pegando’, e assim melhorar nossas vidas. Você já fez análise? Se sim, ou se não, vale a pena ler o texto publicado nesta edição, que é de autoria do escritor André de Leones, e integra o romance “Como desaparecer completamente” (Editora Rocco). Se não der certo, se não melhorar o seu astral e sua jornada vital, então... experimente chamar o Dr. Caligari


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