CONTO

A ideia de matar Tia Belina*



Jamais passara pela cabeça de Teotônio Draga, apesar dos transtornos que a velha causava à sua vida privada. Nem mesmo quando foi informado de ter sido sua mulher ─ a fabulosa Neide ─ instituída herdeira da velha, com direito a receber setenta e cinco por cento da riqueza. Nascera o pensamento ao espremer o seu ordenado, a fim de fazê-lo bastante ao atendimento dos encargos domésticos.

Casara-se Tia Belina com o Dr. Honorato Perdigão, um dos primeiros médicos a empregar o raio X na cidade de São Paulo, o que lhe valeu, com a crescente modernização da especialidade, haveres representados por imóveis e títulos vários. Comum naquele tempo era viver a esposa sombreada pelo marido, agente dos meios de manutenção, das amizades, do convívio social. Ao faltar-lhe o companheiro, Tia Belina passava bem dos cinquenta. Filhos não concebera, porque “Deus não quis”, como dizia, escondendo, à custa do Criador, a verdadeira causa, cuja origem se encontrava nas consequências das expedições venusianas do Jovem Perdigão. Daí ter-se Tia Belina desajeitado na vida, como falou o poeta; pouco a pouco foi desaparecendo, com o apoio da mediania de seus cunhos pessoais. Vivia só, com os mesmos bens que o marido deixara, servida por Marita, excelente empregada. Quando, aos setenta anos, não pôde mais andar, Tia Belina e sua existência tornaram-se definitivamente mesquinhas, fastidiosas, inúteis.

Assim pensava Teotônio Draga, incrementando, com tais operações, o maligno projeto, que se aperfeiçoava minuto a minuto.

Por sua vez, casara-se Teotônio com a “fabulosa Neide”, em Campinas, onde prestava serviços à Fazenda do Estado de São Paulo. Dotada de intentos laboriosos, de capacidade de sacrifício, de habilidade manual, Neide fazia tricô, crochê, adornos para festas, jogava basquetebol, produzia peças de teatro infantil, era adestrada em coisas de enfermagem, amparava desenganados de amor.

Transferido para a Secretaria, em São Paulo, Teotônio Draga viu nascer o primeiro filho, agora com um ano, alvo sublime, porém insuficiente no consumir as veemências de Neide. Quando entrevou das pernas, Tia Belina, de bom grado, aceitou a dedicação da parente, inexperta ainda nas coisas da cidade grande, mas tão apta nas serventias de enfermeira. E Neide, então, encontrou área fecunda para o exercício de vocações humanitárias e exibicionistas.

Sábado era o melhor dia para matar Tia Belina. Assim pensava Teotônio na sexta-feira, à noite. Estando a repartição fechada, poderia, livremente, vistoriar o campo de trabalho e dar execução a determinadas  medidas preliminares, indispensáveis ao plano. Somente às nove horas da noite Marita renderia Neide: noivava até mais tarde, já que o noivo Arquimedes, no sábado, trabalhava no período noturno, na Companhia Telefônica. Durante a assistência de Neide à Tia Belina, nos problemas do banho, do arejar o quarto, da mudança das roupas, do acerto de contas, a cargo de Teotônio ficaria o menino. Quase sempre andavam sem empregada, como agora, pois nenhuma satisfazia as exigências da “fabulosa Neide”.

Pormenores, cálculos, previsões trouxeram sono a Teotônio Draga que, a custo, se desprendeu das reflexões sobre a morte de Tia Belina.

Na manhã seguinte, Teotônio, já disposto aos insólitos afãs do dia, abriu a bolsa de Neide e retirou do chaveiro duas chaves de metal amarelo, substituindo-as por outras duas, da mesma cor, previamente destacadas do seu molho. Desceu, tomou café, servido pela própria Neide ─ Veja, marido, que excelentes estas torradas com queijos de Minas! ─ e saiu, com o objetivo aparente de dedicar-se aos quefazeres de costume: cabelo, barba, aperitivo no “Paiol”. Da farmácia telefonou para a “Locar”, reservando um “Volkswagen”, como fazia, quando visitava os pais, aos domingos, em Cotia.

De ônibus chegou à cidade e, num chaveiro da Galeria Ipê, da Rua 7 de Abril, onde jamais entrara, encomendou a cópia das duas chaves. Do troco, colocou as velhas no bolso e as novas no seu chaveiro, numa operação laboriosa, em virtude da rijeza da mola do prendedor. Dali seguiu para o quarteirão da Rua Marquês de Itu, onde morava Tia Belina; inspecionou tudo com cuidado, inclusive o bar da esquina. Foi à “Locar”, na Rua da Consolação, retirou o “Volks”, e seguiu para Pinheiros. Estacionou o carro na Rua Miruna, atrás de sua casa.

Neide fazia o almoço: “Temos hoje aquelas fabulosas costeletas!”  No quarto, Teotônio trocou as chaves, recolocando no chaveiro da mulher as que de lá havia tirado. Suspirou, como quem chega ao fim da jornada. Chegara ao final de uma importante etapa do empreendimento: as providências preliminares achavam-se cumpridas.

A premeditação do crime aguça a inteligência, aperfeiçoa a cautela, impele destreza aos gestos imaginativos. Desenrola-se na mente satânica a processualística do delito, com as intervenções diagramadas rigorosamente, por quem, contando com o risco, aspira à impunidade, ao resultado, ao prazer de ludibriar o regime social. Depois de concebida e de tornada íntima, a própria ideia da execução final do crime passa a ser tratada insensivelmente, como se fosse qualquer um dos atos preparatórios. O agente integra-se no plano, numa simbiose tão exaltada que não admite a falibilidade, inclusive no momento extremo. Só nos casos de homicídio por criminoso primário, malogra, às vezes, a naturalidade entranhadamente prevista, no momento de puxar o gatilho, de espremer a garganta, de dirigir o punhal. Nesses instantes, o aparecimento vivo da emoção pode decretar a falha do cálculo intelectual, assim como falha o estudante que decorou o ponto, quando surpreendido pelas perguntas maliciosas do examinador.

Fazia algum tempo, Neide seguira para os quefazeres em casa da tia. Sentado na poltrona, Teotônio Draga esperou até a hora aprazada: oito e quinze. Olhou o cinzeiro e contou as pontas de cigarro. Exato. Subiu a escada, preparou o sedativo numa colher de sopa e, com certo desajeito, impingiu a droga ao menino. Apanhou o livro no criado-mudo e passou o marcador para dez páginas adiante. Cautelas, tendo em conta a “fabulosa Neide”. Desceu à sala, colocou o livro na mesinha ao lado da poltrona em que sentou. Pela terceira vez, coagiu a memória a desfilar, cena por cena, o plano prestes a funcionar. Passou os olhos pela sala, pensando na modéstia da casa, ladeada, entretanto, por corredores ajardinados, assim pretendida para que estivesse sempre ensolarado o quarto do menino. No transe, a existência de duas de duas entradas facilitava o seu trabalho. Pelo portão dos fundos, alcançou logo o “Volkswagen”; rumou para a cidade e estacionou o carro, sem fechar a porta à chave, a poucos metros do bar inspecionado naquela manhã.

Postou-se sob a árvore escolhida. Oito e quarenta e cinco. O zelador do edifício onde morava Tia Belina fechara a porta de entrada e já subira para o seu apartamento no último andar, de acordo com o conhecido hábito.

A pausa trouxe certa angústia. O coração desandou. Fenômeno psicossomático. Já lera sobre isso. Era a mesma coisa que corar de vergonha. Sentia a sua lucidez envolvida numa cápsula de medo. Os olhos pregados na esquina em penumbra. Começou a nascer certo desânimo, ante o vulto do empreendimento, como se forma, lenta, ao longe, a lombada da onda que vai rebentar na praia. Atalhou a evolução, pensando na curteza dos vencimentos, na mediocridade da vida burocrática, na economia dos desejos, na velha obtusa, apoucada, inepta, com diagnóstico de sobrevivência prolongada, por ter um “coração de ferro”, como diziam. Dois vultos anunciaram-se na esquina e, logo depois, a denúncia da luz: Marita e o noivo. “Despedidas estéreis”... Enfim, Marita entrou. Neide deveria sair dentro de três ou quatro minutos. Tirou o chaveiro do bolso e, apalpando-o nervosamente, percebeu haver uma só medalha pendurada. E a outra? Rebuscava nos fatos do dia o momento de havê-lo perdido, quando sua mulher apareceu no saguão do prédio, abriu a porta, puxando apenas o trinco, o que confirmou sua lembrança de ser preciso o uso da chave apenas para entrar.

A iminência da ação reprimiu a angústia, reajustou os nervos, arrefeceu o cérebro, recompôs o organismo. Um atleta pronto para saltar. Dissimulado na sombra, viu Neide caminhar com passos resolutos, o busto e a cabeça em altivez, no gozo estentóreo de sua personalidade, depois do dever cumprido. Teotônio Draga concluiu: “essa mulher não precisa de dinheiro para ser feliz...”

Quando Neide chegou à esquina, o ônibus despontou no começo da rua, passando por ele, com poucos passageiros, como previra e era conveniente. Dirigiu-se celeremente ao bar, onde entrou, depois de ter visto Neide subir no ônibus. Fez a ligação:

─ Queria falar com D. Marita. Ah, é a senhora? Olhe: é má notícia. Um Sr. Arquimedes foi atropelado na Avenida Ipiranga...Calma, por favor. Ele pediu para a senhora ir imediatamente para o Hospital das Clínicas... Não sei, não senhora. O melhor é ir logo... Quem levou? Foi o próprio motorista. Não se assuste. Não é grave, não.

Retomou sua posição na sombra, mas não por muito tempo, porque logo depois Marita surgia, espaventada, à procura de um táxi, enveredando pela Rua Bento Freitas.

Teotônio entrou no edifício.

Saiu sete minutos depois, esgueirando-se pela porta, furando a escuridão com rapidez. Partiu o “Volkswagen”. Queria Teotônio concentrar-se na direção do veículo, mas, apesar de afugentado, o acontecimento não desatrelava do cérebro. A velha... estaria tudo perdido se não chegasse antes de Neide. Sinal vermelho na Avenida Angélica. Impaciência. Olhou o relógio; gastara, até o momento, treze minutos. Maior velocidade na Avenida Rebouças. As duas luzes traseiras do carro que lhe ia à frente lembraram os olhos acesos da velha... Finalmente a Rua Miruna.  E o vulto, no trecho despovoado, às carreiras desapareceu na escuridão. Ao abrir a porta dos fundos, com cuidado, pressentiu, com a ajuda do silêncio, a ausência de Neide. Degraus, de dois em dois. No quarto, enquanto tirava o paletó, inspecionou o garoto. Pálido, mas o peito arfando normalmente.

Impunha-se a complementação do plano. Enquanto descia a escada, afrouxou o laço da gravata. Acendeu um cigarro, depositou-o à beira do cinzeiro. Saiu pela porta da frente, deixando-a escancarada. Com a única chave existente, abriu a caixa de correspondência, ao lado do portão, e, disfarçadamente, nela colocou as joias, o dinheiro e as chaves. Trancou-a, para, em seguida, sair à calçada e tocar a campainha da casa, confiante.

─ Boa noite, D. Vitória. Será que a senhora pode-me ajudar? Imagine que o menino está muito pálido. Meio friozinho. A Neide está em casa da tia. Já faz uma meia hora que o garoto...

─ Pois não, seu Teotônio. Vou dar uma espiada. Não há de ser nada, com certeza.

E depois de gritar: “Filha! Vou até a casa de D. Neide”, a vizinha, cheia de préstimos, examinou a criança, achando-a realmente um pouco pálida, mas com o pulso bom, não merecendo qualquer preocupação.

Acompanhou D. Vitória e, de volta, já sentado na poltrona, com o livro aberto nas mãos e o cigarro a queimar no cinzeiro, Teotônio ouviu o ruído da chave e a entrada da “fabulosa Neide”.

─ Boa noite, meu bem. Como vai o Nito?

─ Dormindo.

Neide passou a comentar a eficiência com que se houve nos encargos, a preocupação com o menino, o remorso de ter despedido a empregada, obrigando, com isso, o marido a servir de babá. Acentuou a canseira do corpo, empenhado nos serviços de enfermeira e também nos de babá ─ e sorriu ─, “porque a velhinha parece cada vez mais com uma criança”. Exausta, como disse, preparou-se para dormir, no que a imitou o marido, incapaz, no momento, de dialogar, a não ser com os olhos estarrecidos de Tia Belina. Coube a um sedativo pôr fim às náuseas que lhe envolviam o corpo.

─ Acorda, Teotônio. Acorda, homem. A Radiopatrulha está aí. Vi pela janela. Que será?

De sobressalto, levantou-se; mas o cérebro, desfocado, apenas configurava confusões, ausências, ameaças de delíquio; aos poucos, porém, desvanecia-se o aturdimento e a realidade chegava, trazida pela imagem de duas pequenas esferas que, de repente, se transformavam nos olhos apavorados de Tia Belina. Sentia que a presença da polícia imprimira terror aos seus próprios olhos. Abafando a lembrança e o medo, conseguiu descer as escadas.

Ao abrir a porta, escoltado por sua mulher, os pensamentos de Teotônio Draga pareciam os saltos vivos de pássaro em gaiola. Embora Marita acompanhasse os guardas, perdurou por alguns segundos a agitação das ideias, aquietadas, repentinamente, pela informação:

─ Viemos comunicar-lhe que sua tia morreu.

E, logo depois:

─ Foi assassinada.

Quando Teotônio voltou à casa, depois da visita ao necrotério, encontrou Neide com o filho inerte no colo.

─ Que é que houve?

─ Ele não acorda. Nem pra comer. Tem alguma coisa, não é possível! Chame o Dr. Eduardo.

─ ...

─ Anda, Teotônio. Não fique aí parado, feito bobo.

Deixou-se ficar por instantes, na atonia, convertida de súbito em veemência, que o levou à descida vertiginosa da escada; imobilizou-se, porém, quando atravessava a porta já aberta: ouvira o gemido, e depois o choro obstinado e enérgico da criança que tem fome.

Fechou a porta como se tivesse expulsado da casa um hóspede profundamente incômodo.

Na sala do Delegado de Homicídios, o mistério da morte de D. Belina Matos Perdigão excitava o velho Leite, como o vento ao junco, fazendo-o andar de um lado para outro, diante de seus auxiliares.

─ Não acredito que seja coisa de ladrão profissional. Não é preciso  matar uma paralítica para roubá-la. Não é por isso que deixaremos de investigar esse setor. Venâncio e o seu pessoal ficam com essa parte. Dr. Fulco, Galeno e eu ficamos com os parentes e os condôminos do prédio.

As pesquisas malogravam no campo da profissionalidade do crime e, pelo mesmo caminho, seguiam as do grupo liderado pelo Dr. Leite. Os álibis sucediam-se de forma inelutável. Marita num táxi e, depois, exaurindo-se nas portarias do Hospital das Clínicas, à cata de um Arquimedes que não fora atropelado. Neide tomava o ônibus costumeiro, reconhecida pelo cobrador. Teotônio a montar guarda ao filho, com o testemunho entusiasmado de D. Vitória. O zelador jantava em companhia dos seus e do eletricista que fazia serviços no prédio. A irmã e o cunhado de Neide, em Campinas. A maior parte dos condôminos na praia, ou no interior, gozando o fim da semana. Outros a jantar fora. Alguns no cinema. Poucos em casa, jogando buraco ou recebendo gente.

O velho Leite:

─ Fulco: você é moço, inteligente, que fazer carreira. Uma das qualidades do bom detetive é a paciência. Vamos ver se você é bem servido dela. Uma coisa é certa, veja bem: o criminoso usou duas chaves. A da porta da rua, pois não podia aproveitar a entrada ou saída de alguém, sob pena de ser visto, como provam, aliás, os depoimentos dos condôminos. Depois, a chave do apartamento. Você sabe que a porta estava fechada quando a empregada voltou. E mais: a fechadura é reforçada e de muito boa qualidade: impossível abri-la com chave mestra. Possuíam as duas chaves as seguintes pessoas: a empregada, D. Neide e a sobrinha de Campinas. Outros dois exemplares ficavam  ─ e isso há muito tempo ─,  misturados com outros objetos, numa pequena vasilha de prata, posta sobre o aparador. No momento do crime, todos os portadores encontravam-se com as suas chaves. E a empregada informa que as chaves sobressalentes não foram retiradas de seu lugar. Logo, alguém mandou fazer duas cópias daquelas chaves. Você não acha, Fulco, que se nós descobríssemos esse  alguém...

No rosto do jovem detetive salientou-se o lábio inferior, movimento acompanhado por um lento e ritmado balancear de cabeça.

─ Já sei. Em São Paulo existem cerca de trinta chaveiros com telefone. E muitos outros, sem E a paciência, Fulco?  Pode ser que não dê nada. Mas pista é pista...

─ “O senhor quantas chaves nós fazemos por dia?”

─ “Freguês conhecido, não mandou fazer. Pode ser que um avulso, mas não me lembro.”

─ Por favor: eu sei que é muito difícil o senhor guardar de memória. Mas duas chaves ao mesmo tempo...

─ “Sabe de uma coisa? Se o senhor depender disso, está frito e enfarinato.”

─ “Duas chaves?  Sim, me lembro. O Totonho, da farmácia. Mas não eram desse tipo.”

─ Pelo talão da nota fiscal o senhor pode encontrar.

─ “Mas não consta o nome do cliente.”

─ “Doutor: vai ser duro, porque é comum mandarem fazer duas chaves: a da rua e a do apartamento.”

─ “Não sei. No seu caso, só com muita sorte. É impossível... seja feliz.”

O velho Leite determinou:

─ Não quero ser interrompido.

Percebera o brilho do êxito nos olhos novatos de Fulco: espantava-se, porém, com a modéstia do moço. Sentara-se ele com a naturalidade de quem vai contar uma estória e não uma pesquisa vitoriosa.

─ A parte negativa de minhas investigações não interessa ao senhor. Em certo chaveiro, o proprietário recordava-se de alguém que encomendara duas chaves, porque esse alguém esquecera sobre o balcão uma medalha de prata, e não voltava para reclamá-la. É esta aqui. Os dizeres gravados são os seguintes: “A Gazeta Esportiva ─ Campeonato Amador de Futebol ─ 1959 ─ Araucária Esporte Clube ─ Vice-Campeão.”  Fui à redação do jornal e examinei os números do final do campeonato. A escalação do Araucária no último jogo, com o campeão, foi a seguinte: Rochinha ─ Samid e Leprinha ─ Hélio, Teo e Pupo ─ Cabeçudo, Zé-Baixeiro, Rubens, Laurinho e Bombarda. “A Gazeta” não publicou a fotografia do quadro. Apurei, com um redator de esportes, que o Araucária fora constituído por um grupo de jovens paranaenses que residiam em São Paulo. Descobri o endereço da sede, que era no apartamento de um dos jogadores: Samid Rasec. O zelador informou que o clube já não existia há uns cinco anos. O inquilino abandonara o apartamento sem deixar endereço. Investigar o paradeiro de Samid demoraria muito. Mas eu ia fazer isso, porque também me parecera estranho, e até suspeito, o homem não voltar para reclamar a medalha e porque... um dos médios do Araucária chamava-se Teo. Teo não é o apelido de Teotônio? Resolvi conferir mais depressa. Teotônio Draga não tem telefone, mas a mulher tem ido frequentemente à casa da tia, pois pretende mudar-se para lá. Telefonei: “Aqui é do Paiol Bar. Achamos uma medalha, com o nome do Araucária Futebol Clube. A senhora sabe se a medalha é de seu Teotônio?”  Ela respondeu que o marido tinha uma medalha desse clube, mas ignorava que a tivesse perdido. Ia consultá-lo.

A modéstia de Fulco foi traída por um leve sorriso, acrescido de uma também leve nota de superioridade, como o do atirador que acaba de acertar no alvo.

─ Muito bem, Fulco. Bom trabalho. Paciência e tanto. Há quanto tempo você falou com ela?

─ O tempo de vir até aqui: uns três quartos de hora.

─ Então mande seguir Teotônio. A mulher, fatalmente, falará ao marido do telefonema recebido. E ele irá, na certa, diretamente ao “Paiol”, para apurar a coisa. Vai saber que de lá ninguém telefonou. E... é pena!  Ficará de sobreaviso.

O sorriso de Fulco recolheu-se, puxado pela ideia da falta cometida.

A desenvoltura com que Teotônio Draga entrou na sala não penalizou o velho Leite e os companheiros Fulco e Galeno. Nem mesmo a naturalidade com que se sentou na cadeira, ao lado da mesa do delegado. Nem mesmo a calma com que falou:

─ Recebi o seu chamado. Aqui estou para prestar as informações que desejar. Aliás disse tudo que sabia.

O velho Leite falou a Teotônio sem parecer um delegado arrancando confissões, mas como alguém que inicia um diálogo com lealdade:

─ Senhor Teotônio Draga: depois de muito trabalho, chegamos à conclusão de que o assassino de sua Tia Belina mandou reproduzir, em qualquer chaveiro da cidade, as chaves da porta da rua e do apartamento em que ela morava. Temos fortes razões para ir adiante: o assassino, ao buscar as chaves encomendadas, esqueceu no balcão uma medalha de prata.

O velho Leite abriu a gaveta, apanhou um pequeno objeto, depositou-o na mão já aberta para recebê-lo.

─ Essa medalha é sua?

Depois de rápido exame, veio a resposta:

─ Não senhor. Não é minha.

─ Não é sua?

─ Não senhor. Tenho uma igual, mas essa não é minha.

Retirou o molho de chaves do bolso traseiro da calça, segurou a medalha que pendia da presilha e, repetindo o gesto do delegado, entregou-lhe o chaveiro. As medalhas eram idênticas.

O velho Leite encarou Teotônio com seriedade, como se fosse falar-lhe e, repentinamente, ordenou a Galeno:

─ Mande entrar o rapaz.

Galeno saiu por segundos, voltando acompanhado de um homem repassado de timidez.

─ Senhor Ferraz, por obséquio: conte o que aconteceu ontem em sua casa, com referência a este senhor.

─ O Teotônio, a quem não via há muito tempo, procurou-me em minha casa. Disse que tinha perdido a medalha do Araucária Esporte Clube e pediu a minha emprestada. Queria mandar fazer outra igualzinho. Não sei por que...

─ Muito obrigado pela sua colaboração. Boa noite.

Volveram-se todos os olhos para Teotônio. Não encontraram os dele. Haviam capitulado, com o pender da cabeça.


*Reproduzido de http://escritablog.blogspot.com.br/


arquivo estado

coe

Luiz Lopes Coelho (1911-1975), escritor brasileiro, pioneiro do conto policial. Escreveu, entre outros, o conto acima, publicado originalmente em seis de fevereiro. Foi o segundo texto mais acessado, nesta seção do Tyrannus, ao longo de 2017


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