CONTO

Duas bocas e um ouvido



De Antirésio dizia-se que sabia ouvir. Fosse qual fosse a confidência, o povo de Quetatá logo recomendava: “Diga a Antirésio, pois ele, sim, entende o que a gente fala”. E, sem demora, ávidos por alguém que ouvisse suas longuíssimas lamúrias com ouvidos de quem sabe o que fazer, partiam em direção à casa que ficava no pequeno vale, a poucos quilômetros da cidade. Seu Antirésio, como era respeitosamente chamado, era um sujeito reservado, de pouca prosa e avesso a futilidades. Pelo menos era o que comentavam as senhoras, do alto de suas janelas, vigiando sem o menor constrangimento a rotina das pessoas. Nunca fora visto desperdiçando palavras entre uma jogada e outra de dominó, na praça central. Limitava-se a prestar atenção ao adversário, esse tão voltado a si mesmo que invariavelmente perdia o jogo. Outros incautos, que mal sabiam as regras do jogo de tranca, aventuravam-se à mesa somente para ter a oportunidade de estar ao seu lado.

A filha estava grávida e o pai era desconhecido: “Vá ter com Antirésio!”. O gado subitamente adoecia: “Não demore a contar a Antirésio”. Um menino viu descer do céu uma nave brilhante que desapareceu à chegada dos pais: “Esperem só até seu Antirésio saber!”.

O pároco, injuriado, percebeu seu rebanho cada vez mais pastando em torno do velho Antirésio e decretou confissão obrigatória toda semana. Com as espiãs sempre a postos nas janelas, ai de quem desobedecesse ao pedido de Deus e evitasse o confessionário. Aconteceu que os métodos do pároco não agradaram à população de Quetatá. Quando as histórias de suas aventuras rotineiras e de seus comemorados pecados chegavam àquele ponto em que os olhos brilham pelo simples ato de rememorar, lá vinha o padre, presença inoportuna, perguntar se estavam arrependidos e recomendar algumas ave-marias ou alguns pais-nosso. Insatisfeitos pelas interrupções, os fiéis corriam para a casa de Antirésio e não saíam antes de a escuridão se derramar sobre o vale.

O próprio padre, desesperado com a ineficácia de suas palavras, rendeu-se. Se era Antirésio quem eles ouviam, iria ouvi-lo também, para saber o que fazer. Nessa noite, Antirésio, bombardeado com palavras santas, apenas curvava levemente a cabeça, concordando cada vez mais e sempre com o vigário. Ele encantou-se de tal modo com a própria confissão que, desde então, multiplicaram-se em Quetatá os boatos de que uma alma penada de capa preta e crucifixo é vista rondando a pequena estradinha de terra, todas as noites.

Os ouvidos que aguentavam choro de pobre também toleravam desalento de rico. O prefeito de Quetatá envolveu-se em um escândalo e, acuado, decidiu recorrer aos ouvidos de Antirésio. Sua esposa, preocupada com a reputação dos filhos na escola, questionou: e se ele contasse a alguém? Estariam acabados. O prefeito sorriu de orelha a orelha e bradou: “Pois saiba você que eu mais de mil vezes estive naquela casa e nunca ouvi uma palavra sequer da boca do velho! Ele é um túmulo”. E era. Assim que chegava à praça, aglomeravam-se à sua volta os desocupados em busca de conselhos. O primeiro a falar, quer por ter gritado mais alto, quer por ameaça física, quando se calava e se preparava para escutar o comentário final e definitivo, ouvia do meio da multidão uma segunda voz, que logo iniciava sua história e que, ao término, também era surpreendida por um terceiro falante; e assim seguiam-se, até que seu Antirésio se espreguiçasse, levantasse e fosse embora.

Na ânsia de serem ajudadas, as pessoas passavam o dia a contar pormenores e, no fim do invariavelmente longo monólogo, insistiam para que o velho esperasse até o dia seguinte para aconselhar, pois amanhã lhe explicariam melhor os pontos obscuros e trariam novos detalhes importantes. No dia seguinte, ao verem mais uma tarde findando, lembravam-se de nuances que levariam a outra fala e outra e outra e outra.

E outra e outra, até que certa tarde, com centenas de histórias ainda incompletas, seu Antirésio sentiu-se mal e subitamente fechou os ouvidos para sempre. A comoção foi geral, o prefeito decretou feriado e o padre fez um discurso emocionado, que terminava solenemente assim: “Quetatá perde seu mais ilustre e sábio cidadão, que com suas iluminadas palavras fez de nós o que somos hoje. Que elas não sejam jamais esquecidas. Amém.”

*Reproduzido de http://www.candido.bpp.pr.gov.br/

EST

Estevão Azevedo é escritor brasileiro premiado e traduzido na Alemanha e na Itália


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