CRÔNICA

Jorge Bastos Moreno



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A pior coisa do envelhecimento talvez seja o fardo emocional que significa dar adeus às pessoas com as quais convivemos e que, de uma forma ou de outra, marcaram a nossa vida. Essa gente que sai de fininho antes de subirmos para o andar de cima.

Beirando os sessenta, cronologia que só vai me acometer em 2018 - no finalzinho do ano, conforme convém a um capricorniano, tenho reparado - e sentido - com a sucessão de perdas que se acumulam no meu viver enquanto o tempo passa. E ele, o tempo, não passa em vão. Passa no desvão, eu diria.

Nesta semana foi-se o Jorge. Um cuiabano que se projetou na esfera jornalística e saiu de cena gozando de imenso prestígio, com méritos. Escrevinhador talentoso e enfronhadíssimo na seara política, foi um cara importante na minha formação, graças à proximidade que tive com ele em certos períodos da minha vida.

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Conheci-o em meados dos anos 1970. Éramos vizinhos. Morávamos ali pelas bandas da esquina das ruas Presidente Marques com a Corsino do Amarante, aqui mesmo em Cuiabá. Jorge era amigo da minha família, e eu amigo da família dele. Frequentávamos um a casa do outro.

Eu gostava muito dos pais dele, dona Alzira e seu Juca. Alzira temperava, em alguns dias, as conversas vespertinas que envolviam eu, Jorge e outra rapaziada que por ali residia, com uma deliciosa limonada suíça e pão com manteiga.

Juca era taxista. Demais de bom pra qualquer conversa, alma e coração abertos. Ali pertinho das nossas casas era também o salão do Dudu, cabeleireiro irmão de Jorge, que várias vezes tratou do meu visual.

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Meu irremediável saudosismo faz-me lembrar de como a vida era magnífica em Cuiabá naqueles anos 1970. Ser adolescente nesta cidade era a plenitude libertária para fazer-se de um tudo. E, pra quem já era meio metido a ser intelectual e iniciado na literatura (que nem eu), ter um amigo como Jorge era bastante útil. Além da sua bonomia no trato com as pessoas amigas.

Com ele aprendi a gostar mais e mais de literatura e seu entendimento de autores do modernismo me contaminou. Entender as vicissitudes políticas e sociais, abrir a cabeça para essa coisarada, o que não é descomplicado para adolescentes, também foi uma contribuição de Moreno pra este aqui.

De repente, não mais que de repente, Jorge sumiu e ficou famoso como jornalista em Brasília. Dizem que se projetou sendo o primeiro jornalista a noticiar que Figueiredo seria o presidente do Brasil. Continuávamos amigos, embora separados pela geografia.

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Atordoado com um curso de engenharia que eu não conseguia continuar e com outro curso em stand by (educação física), no começo dos anos 1980, fui parar em Brasília no apartamento de Jorge, que me acolheu fraternalmente.

Foram apenas uns seis meses convivendo com ele diariamente. Moreno era muito polido, muito ansioso e sempre se esforçando para não constranger quem quer que fosse. O caráter hospitaleiro, marca registrada dos cuiabanos, era abundante nele. Éramos brincalhões e sacanas um com o outro. Mas ele sempre preocupado comigo e, como se fosse meu pai ou mãe, querendo me ajudar a superar incertezas e inseguranças que estorvam as nossas mocidades.

E depois persistem e nos perseguem também pelo resto da vida. Assim como essas incertezas e inseguranças, algumas amizades também jamais abandonam nossas vidas.

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Jorge Moreno me surpreendeu com a sua partida prematura há poucos dias. Eu sabia, desde há muito, que ele tinha problemas cardíacos. Certa vez, quando eu morava no Rio de Janeiro, ele internou-se num hospital em Botafogo, perto da minha casa. Eu costumava visitá-lo em sua convalescença. E ele sempre me aporrinhando nessas visitas, sempre me pedindo um cigarro...

Um belo dia, numa dessas visitas, dei-lhe o maldito cigarro. Ele deu uma tragada gostosa, olhou-me e depois fixou o olhar no cigarro. Era um continental sem filtro. "Porra, você quer me matar???", disse. 

Todas as vezes que me lembro dele, estava sempre apaixonado ou encantado com alguma mulher. Ainda em Cuiabá, teve uma vez, que totalmente inebriado por uma mulher e umas cervejas, rasgou uma foto dela em pedacinhos e os mandou goela adentro.

Vez em quando, uma vez ou outra, andei trocando e-mails e telefonemas com Jorge. Ao longo da maturidade desenvolvemos diferenças, mas estas foram sempre insuficientes para interromper nossa relação. Sempre gostei do Moreno e seus nhenhenhéns... Ultimamente, tencionava, inclusive, pedir seu apoio e/ou apadrinhamento para um emprego na área da comunicação - e de preferência, com pegada cultural.

Não deu certo... Acho que demorei demais pra pedir.

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Nos últimos anos, conversávamos mais por e-mail e por telefone. Em 2013 ele esteve por aqui lançando seu livro sobre Ulysses Guimarães. Lembro-me que fiz o possível pra atrapalhar ele, com toda a sua polidez, na hora de autografar os livros.

Ano passado esteve aqui em Cuiabá a jornalista Mara Luquet companheira de empresa de Jorge. Tratei logo de aporrinhá-lo. Mandei e-mail fazendo o possível para aplicar-lhe uma saia justa, mas, desta vez, ele tirou de letra minha provocação.

Entonces, é isso... Jorginho se mandou e mais pra frente, como reza a lenda, hei de reencontrá-lo.

Vou me lembrar pra sempre da sua capacidade de comunicação, da sua vontade de comunicar. Uma pessoa tão geniosa, quanto ponderada. Capaz de andar na corda bamba batendo duro e sem desagradar por completo a ninguém. Conversar com ele era sempre divertido.

E agora me lembro do que me contou, certa vez, dona Alzira: “Jorge demorou muito pra falar... só foi conversar mesmo lá pelos quatro ou cinco anos...”

Custou pra soltar o verbo, portanto, mas depois foi longe demais enquanto esteve conosco.

OBS: as fotos aqui publicadas foram reproduzidas do facebook do Jorge


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