CRÔNICA

My name is Job



Hoje, 30 de junho de 2017. Metade do ano se foi. E com ele alguns amigos e amigas queridos que, ao invés de nascerem para semente, deixam saudades no chão em que pisaram. É tempo de colher o que se planta, de plantar o que se quer que floresça. O dia é de greve e muitos se juntarão para pedir a saída desse que se uniu aos que pediam a saída dela. Não se trata de questões de gênero, número, mas de grau, queridxs. Histórias da carochinha, do executivo ao judiciário, e legisladores que, em causa própria, continuam saqueando as riquezas do país. My name is job.

Tenho um bom trabalho, concursado, posso me considerar privilegiado neste cenário sombrio que se desenha aos nossos olhos. Mas vejo o tempo passar com preocupação de quem tem filhos e que herdarão esse presente de grego em tampo de mármore falsificado, repleto de migalhas que foram significativas até então. Tenho um trabalho, I have a job.

Quase não tenho saído de casa, salvo para assistir a teatros e cinemas, tomar um sorvete, visitar aos filhos e ao pai. Mas ontem senti vontade de visitar um amigo em trânsito que se faria presente com voz e violão em um buteco longe de casa. De antemão imaginei encontrar alguns amigos de longa data, mesmo sem saber quais seriam. E fui. Colegas de trabalho, de noitadas, de antigamente. Conhecidos de batalhas políticas de causas perdidas, outras sonhadas, esperanças divididas. Não falo de Steve, but I have a job.

Pensava nos que se foram, enquanto dirigia meu sedan 2011 comprado em sessenta meses sem entrada. Ainda bem que faz um ano que terminei de pagar. Ufa! Com a crise e o aperto na cintura, é um alívio de verdade. Cheguei ao local e fui encontrando conhecidos. A música soava alegre aos ouvidos enquanto comentava com Antonio que as pessoas gostam de fundo musical para bate papo. E de repente eis que surgem à minha frente Ana Amélia e Glória Albués. Outro pedaço de minha história se fazia presente. Fui até elas para um cumprimento e lembrei-me de uma frase de Lorenzo quando do passamento de outro Antonio, o velho poeta, o guerreiro de la transmutación. “A gente tem encontrado os amigos em velórios atualmente”.

A última passageira de minha lembrança eterna foi Fátima Sonoda, e por força dessa imagem já nem lembro mais se a tal frase foi mesmo proferida por Lorenzo. Estive no velório antes das seis da madrugada. Estava apenas ele e uma de suas cunhadas a refletir sobre aquela ausência. Conversamos sobre muitas coisas, por uma hora e meia, aproximadamente. Depois segui para meus compromissos, afinal I have a job.  Abraçando Gloria e Ana lembrei-me da nova ausência. Estávamos em um bar bem próximo à residência do casal amigo. E o violão embalava nossas breves recordações, extraía de cada um dos presentes sorrisos largos pela presença que revelava muito do que vivemos há 30 anos, mais ou menos. Yes, I have.

Não pude deixar de abraçar o camarada antes de me ausentar. O encontro com Daniel de Paula também marcou essa noite. E trouxe para casa seu CD que ouvi logo cedo, nesta manhã em que as centrais sindicais se organizam para celebrar um dia de luta. I have a job. Gosto muito de Job. Dei aulas para seu filho, que já foi Macaco Bong e que agora brilha junto ao Bogarins. Abraços, Job Menezes. Que venha mais vezes do Espírito Santo e Amém!

lr

Luiz Renato de Souza Pinto é professor e fazedor de letras, com longa ficha criminal na cena cultural cuiabana. Esta crônica foi publicada originalmente no dia primeiro de julho e foi o texto mais lido do Tyrannus, ao longo de 2017, no espaço dedicado aos contos e crônicas


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