CONTO

Carta de um louco*



Meu caro doutor, eu me coloco nas suas mãos. Faça de mim o que o senhor achar melhor.

Vou descrever-lhe, de maneira bem franca, o meu estranho estado de espírito, e o senhor julgará se não seria melhor que tratassem de mim durante algum tempo em uma casa de saúde, em vez de me deixar sujeito às alucinações e sofrimentos que me perseguem.

Eis a história, longa e exata, do mal singular da minha alma.

                                                          *        *        *

Eu vivia como todo mundo, contemplando a vida com os olhos abertos e cegos do homem, sem me espantar e sem compreender. Vivia como vivem os animais, como vivemos todos, executando as funções da existência, examinando e acreditando ver, acreditando saber, acreditando conhecer o que me cercava, quando, um dia, percebi que tudo é falso.

Foi uma frase de Montesquieu que, bruscamente, iluminou meu pensamento. Ei-la: “Um órgão a mais ou a menos em nossa máquina teria feito de nós uma outra inteligência.

“... Enfim, todas as leis estabelecidas sobre o que é nossa máquina que de um certo modo seriam diferentes se nossa máquina não fosse dessa maneira”.

Refleti sobre isso durante meses e meses e, pouco a pouco, uma estranha clareza penetrou em mim.

Com efeito – nossos órgãos são os únicos intermediários entre o mundo exterior e nós. Quer dizer que o ser interior, que constitui o 'eu', encontra-se em contato, por meio de alguns filetes nervosos, com o ser exterior que constitui o mundo.

Ora, não só este mundo exterior nos escapa por suas proporções, sua duração, suas propriedades infinitas e impenetráveis, suas origens, seu porvir ou seus fins, suas formas longínquas e suas manifestações infinitas, como nossos órgãos só nos fornecem informações incertas e pouco numerosas sobre parte dele que nos é acessível.

Incertas, porque são apenas as propriedades de nossos órgãos que determinam para nós as propriedades aparentes da matéria.

Pouco numerosas, porque sendo nossos sentidos apenas em número de cinco, o campo de suas investigações e a natureza de suas revelações se acham muito restritas.

Explico-me. - O olho nos indica as dimensões, as formas e as cores. “Ele nos engana sobre esses três pontos”.

Só pode nos revelar objetos e seres de dimensão média, proporcionais ao talhe humano, que nos levou a aplicar a palavra grande a certas coisas e a palavra pequeno a outras, somente porque sua fraqueza não lhe permite conhecer o que é muito grande ou pequeno para ele. De onde resulta que ele não conhece e não vê quase nada, que o Universo quase todo lhe permanece oculto, a estrela que habita o espaço e o animálculo que habita a gota d'água.

Ainda que tivesse cem milhões de vezes a sua potência normal, se percebesse no ar que respiramos todas as espécies de seres invisíveis, como os habitantes dos planetas vizinhos, ainda existiriam um número infinito de raças de animais menores e de mundos tão longínquos que ele não os atingiria.

Portanto, todas as nossas idéias de proporção são falsas, já que não há limite possível, nem para a grandeza nem para a pequenez.

Nossa apreciação sobre as dimensões e as formas não tem nenhum valor absoluto, sendo determinada unicamente pela potência de um órgão e por uma comparação constante com nós mesmos.

Acrescentemos que o olho é, ainda, incapaz de ver o transparente. Um copo sem defeito o ilude. Ele o confunde com o ar que também não vê.

Passemos à cor.

A cor existe porque nosso olho é constituído de tal modo que transmite ao cérebro, sob forma de cor, as diversas maneiras como os corpos absorvem e decompõem, segundo sua constituição química, os raios luminosos que o atingem.

Todas as proporções dessa absorção e dessa decomposição constituem os matizes.

Este órgão, portanto, impõe ao espírito a sua maneira de ver, ou melhor, a sua forma arbitrária de constatar as dimensões e de apreciar as relações da luz e da matéria.

Examinemos o ouvido.

Mais ainda do que com o olho, nós somos as vítimas ingênuas deste órgão fantasista.

Dois corpos que se chocam produzem um certo tremor da atmosfera. Esse movimento faz vibrar em nossa orelha uma certa película que transforma imediatamente em ruído o que, na realidade, é apenas uma vibração.

A natureza é muda. Mas o tímpano possui a propriedade miraculosa de transmitir-nos sob a forma de sensações, e de sensações diferentes segundo o número de vibrações, todos os rumores das ondas invisíveis do espaço.

Esta metamorfose executada pelo nervo auditivo no curto trajeto do ouvido ao cérebro permitiu-nos criar uma arte estranha, a música, a mais poética e a mais precisa das artes, vaga como um sonho e exata como a álgebra.

E o que dizer do gosto e do cheiro? Conheceríamos os perfumes e as qualidades dos alimentos sem as estranhas propriedades do nosso nariz e do nosso paladar?

Entretanto, a humanidade poderia existir sem a audição, sem o paladar e sem o olfato, quer dizer, sem nenhuma noção do ruído, do sabor e do odor.

Se tivéssemos, portanto, alguns órgãos a menos, ignoraríamos coisas admiráveis e singulares, mas, se tivéssemos alguns órgãos a mais, descobriríamos em torno de nós uma infinidade de outras coisas de que nunca suspeitaremos por falta de meios de constatá-las.

Enganamo-nos, pois, julgando o Conhecido, e estamos cercados pelo Desconhecido inexplorado.

Logo, tudo é incerto e apreciável de maneiras diferentes.

Tudo é falso, tudo é possível, tudo é duvidoso.

Formulemos esta certeza servindo-nos do velho ditado: “Verdade deste lado dos Pirineus, erro do outro”.

E digamos: verdade em nosso órgão, erro ao lado.

Dois e dois não devem mais ser quatro fora da nossa atmosfera.

Verdade sobre a Terra, erro mais além, donde concluo que os mistérios entrevistos como a eletricidade, o sono hipnótico, a transmissão da vontade, a sugestão, todos os fenômenos magnéticos, só nos permanecem ocultos porque a Natureza não nos forneceu o órgão ou os órgãos necessários para compreendê-los.

Depois de me convencer de que tudo o que os meus sentidos me revelam só existe para mim tal como o percebo o que seria totalmente diferente para outro ser organizado de outra maneira, depois de concluir que uma humanidade concebida de uma maneira diversa teria sobre o mundo, sobre a vida, sobre tudo ideias completamente opostas às nossas, pois o acordo das crenças resulta apenas da similitude dos órgãos humanos e as divergências de opinião provêm somente de ligeiras diferenças de funcionamento dos nossos filetes nervosos, fiz um esforço sobre-humano para conjecturar o insondável que me cerca.

 Enlouqueci?

 Disse a mim mesmo: “Estou cercado de coisas desconhecidas.” Imaginei o homem sem ouvidos, conjeturando o som como conjeturamos tantos mistérios ocultos, constatando fenômenos acústicos dos quais não poderia determinar, nem a natureza nem a procedência. E tive medo de tudo à minha volta, medo do ar, medo da noite. Já que não podemos conhecer quase nada, já que tudo é ilimitado, o que resta? O vazio não existe? O que há no aparente vazio?

 E esse terror confuso do sobrenatural que habita o homem desde o nascimento do mundo é legítimo, pois não é outra coisa senão aquilo que nos permanece oculto.

 Então compreendi o medo. Pareceu-me que tocava, continuamente, na descoberta de um segredo do Universo.

 Tentei estimular meus órgãos, excitá-los, fazê-los perceber por momentos o invisível.

 Disse a mim mesmo: “Tudo é um ser. O grito que atravessa o ar é um ser comparável ao animal, porque nasce, produz um movimento e transforma-se novamente para morrer. Ora, o espírito receoso que acredita em seres incorporais não está enganado, então. Quem são eles?”

 Quantos homens os pressentem, estremecem à sua chegada, tremem ao seu misterioso contato? Sentem-nos perto de si, em torno de si, mas não conseguem distingui-los, porque não possuímos o olho que os veria, ou melhor, o órgão desconhecido que poderia descobrí-los.

 Nesse caso, mais do que ninguém, eu os sentia, esses passageiros sobrenaturais. Seres ou mistérios? Será que sei? Não poderia dizer o que são, mas poderia assinalar a sua presença. E eu vi – vi um ser invisível -, tanto quanto se podem ver esses seres.

 Passava noites inteiras imóvel, sentado diante da mesa, a cabeça entre as mãos, pensando neles. Muitas vezes pensei que uma mão intangível, ou melhor, um corpo imperceptível roçava-me levemente os cabelos. Não me tocava, pois não era de essência carnal, mas de essência imponderável, desconhecida.

 Ora, uma noite, ouvi o assoalho estalar atrás de mim. Ele estalou de um modo singular. Estremeci. Voltei-me. Nada vi. E não pensei mais nisso.

 Mas no dia seguinte, na mesma hora, o mesmo ruído se produziu. Tive tanto medo que me levantei, certo, certo de que não estava sozinho no meu quarto. Entretanto, não se via nada. O ar estava límpido, transparente por toda parte. Meus dois candeeiros iluminavam todos os cantos.

 O ruído não recomeçou, e eu acalmei-me pouco a pouco; no entanto, permanecia inquieto e me virava muitas vezes.

 No dia seguinte tranquei-me cedo, imaginando como poderia chegar a ver o Invisível que me visitava.

 Eu o vi. Quase morri de terror.

(Tinha acendido minha lareira e todas as velas do meu lustre. O aposento estava iluminado como para uma festa. Meus dois candeeiros ardiam sobre a mesa)

Diante de mim, a minha cama, uma velha cama de carvalho com colunas. À direita, a lareira. À esquerda, a porta cuidadosamente fechada. Atrás de mim, um armário muito alto com um espelho. Estava diante dele. Tinha olhos estranhos e as pupilas muito dilatadas.

Depois sentei-me, como todos os dias.

O ruído se produzira, na véspera e na antevéspera, às nove horas e vinte e dois minutos. Esperei. Quando chegou o momento preciso, senti algo indescritível, como se um fluido, um fluido irresistível tivesse penetrado em mim por todas as partes do meu corpo, mergulhando a minha alma num terror atroz. E o estalo ocorreu, bem perto de mim.

Levantei-me, virando-me tão depressa que quase cai. Enxergava-se como em pleno dia, e eu não me vi no espelho!Ele estava vazio, claro, cheio de luz. Minha imagem não estava lá, e eu estava diante dele. Olhava-o com um olhar alucinado. E não ousava mais avançar, sentindo que ele estava entre nós, ele, o Invisível que me ocultava.

Oh! Como tive medo! Depois, subitamente comecei a avistar-me numa bruma no fundo do espelho, numa bruma como que através da água; e me parecia que essa água deslizava da esquerda para a direita, lentamente, tornando a minha imagem mais precisa a cada segundo. Era como o fim de um eclipse. O que me ocultava não possuía contornos, mas uma espécie de transparência opaca que ia clareando pouco a pouco.

Pude, enfim, distinguir-me completamente, assim como faço todos os dias ao olhar-me.

  Eu o tinha visto!

  E não o vi de novo.

 Mas eu o aguardo a todo momento, e sinto que minha cabeça se perde nessa espera.

 Fico diante do espelho durante horas, noites, dias, semanas, para esperá-lo! Ele não vem mais.

 Percebeu que eu o vira. Mas sinto que o esperarei sempre, até a morte, que o esperarei sem descanso, diante desse espelho, como um caçador à espreita.

 E, nesse espelho, começo a ver imagens loucas, monstros, cadáveres horrendos, todas as espécies de animais horripilantes, de seres atrozes, todas as visões inverossímeis que devem habitar o espírito dos loucos.

                                                                *       *       *

 Eis a minha confissão, meu caro doutor. Diga-me, o que devo fazer?


*Reproduzido de http://pedrolusodcarvalho.blogspot.com.br . Tradução de José Thomaz Brum

gu

Guy de Maupassant (1850-1893), escritor e poeta francês com predileção para situações psicológicas e a crítica social


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