CONTO

O sino*



Samartha precisa ser tomada. O caso é chegar lá. Não existem caminhos no mapa. Não os há no sentido dos que conhecemos. A vila está em algum lugar entre a Planície Indygestha e o rio Eucrates, sem margens, que é o ideal do peixe. Soubemos que nessa aldeia só se entra saindo. Ela tem uma curiosidade: a sua igreja matriz é um templo ortodoxo. Digamos bizantino. No meio do nada, a presença do cristianismo do rito oriental. Ninguém sabe por quê.

— Mas, se não há caminhos para Samartha, então como se pode sair de lá?

— Capitão! Que eu saiba todas as saídas dão para um denso aguaceiro extra-muros. O próprio portão principal dizem ser feito de uma nuvem.

— Vários caminhos do mapa levam a ela, mas a vila tem o benefício de ser sagrada; uma cidade “invisível”. Ela tem a volubilidade feminina de seu nome. Ela está e não está, como disse Calvino em Cidades invisíveis. Rumina seus mistérios sempre ao entardecer; por alguns momentos ficam visíveis. Mas logo, o lençol alvo da ilusão cobre tudo e todos.

— Capitão Mormanto! Por isso, ela só pode ser vista pelos que não a procuram.

— Basta, Tenente! Temos que entrar lá e prender o único açougueiro do lugar que matou um dos nossos e o desossou com a perícia de seu labor. Deixou a carcaça na praça. A cabeça foi espetada na espada alçada do Gal. Termindo Gonçalves, “O Libertador”, na Guerra das Sombras, de 1927.

— Não foi essa a guerra sem vencedores, pois os dois exércitos não conseguiram se ver, perdidos na Névoa Primordial?

— Foi!

— O Sr. esteve lá?

— Estive, mas havia uma bruma espessa; não sei.

Enfim, no amiudar da chuva e do vento, vemos o início de três caminhos que vão para o leste, oeste e sul. Nas duas primeiras há placas com letras de peles humanas. Um dedo cortado e mumificado indica as direções.

— E agora?... Chamem o sargento Chamusco, que sabe de mapas e de rotas inúteis, sem destinos.

— Chamou-me, senhor? Às suas ordens. O que é?

— Estamos em uma enrascada; não sabemos qual a estrada adequada.

— Senhor! As três podem ir até a aldeia bizantina ou a lugar nenhum. Vai depender da cerração e do olho vazado do soldado Clistério, que, achado o caminho, derrama uma lágrima negra da órbita vazia do olho esquerdo.

— Chama-o!

— Chamou-me, senhor?

— Clistério! Olhe para as três trilhas. Observe bem!

(pequena pausa para que o vidente militar se concentre)

— Senhor capitão! Para cada via que o Clistério viu, saiu a mesma lágrima negra e pastosa — disse o ordenança do Capitão. Não adiantou nada.

— E agora?

Voltamos ao início: Samartha só pode ser localizada se não se pensar em achá-la. Viajar somente de noite, sem ver nada à frente. As patas dos equinos farão o resto. Elas sofrem da compulsão do movimento e da direção, segundo o que disse o cabo enfermeiro. Retomamos a viagem. À frente não vai o comandante, mas um matuto que monta um jumento raquítico e nos guia. Vistos de certa distância, ambos se fundem, formando um espantalho, plantado ao lado de uns pés de xiquexique e outras cactáceas. O tenente grita: “Vamos! Feixe de ossos! Assustaremos até o fantasma de Dom Quixote, que, dizem, dorme no fundo do Grotão da Imolação”. Fomos vagando por ermas plagas e vagas de solidão. Uma seca braba baba cuspe no solo empedernido. As ferraduras dos muares escrevem frases rascantes pelo chão sem carne. Nossos olhos estão entupidos de escuridão. Bocas argamassadas pelo silêncio de trevas fabricadas pela desolação. Enfim, vemos as muralhas, com as seteiras e o portão. Este portão de prata maciça foi roubado pelos Tártaros. Mais ao fundo, desponta a ogiva maior de Samartha (há outras menores parecidas com bulbos de tulipas); de sua igreja bizantina e ortodoxa. Passamos pela porta principal da muralha retangular. Essa porta sem moldura e vazia... maldição! Dá para fora. Entramos de novo de ré. A carcaça ainda está lá. O cheiro podre é tão repulsivo que até os abutres ficam nauseados e se afastam para a carniça de um búfalo que um dragão (de Comodo) matou. Aí sim, demos de cara com a Praça do Libertador. A cabeça decepada continua lá. Dois velhos encarquilhados e desdentados cospem no troféu macabro, mas a saliva amarelada não o alcança” e cai no ombro do general de bronze, sério como deve ser uma estátua. Crianças sujas, quase sem rosto, perambulam pelo arraial. Mulheres, com a cabeça coberta pelo veu do Islão, passam como desenhos vagueando pela paisagem. Dois cães sarnentos lambem a perna em carne viva do nosso soldado. Fizemos alguns furos na carcaça para os vermes vomitarem. O cheiro pestilento tem cor e volume. A cor desse cheiro é roxo-amarelada. Empalamos os cães amaldiçoados. A cidade acorda. A muralha está no plural (em nossa visão). O medo se espalha pelo espaço semântico desta narração. O povo vai se juntando para ouvir a declaração do capitão: 

— Que alguém diga onde está o açougueiro assassino. Queremos descarná-lo vivo. Ou coisa pior. Mexam-se! (um popular, sem falar, aponta, projetando o queixo para a frente, indica a direção do templo. O som da fala é gutural)

Um silêncio redondo se espalha em ondas concêntricas. Entramos no recinto sagrado bizantino. Nas paredes vários ícones se agarram a vitrais multicoloridos. No primeiro, acima do altar-mor, voltado para os fieis, conforme o rito oriental, sobressai um Cristo. Jesus tem a mão direita pousada no ombro do Imperador Constantino; a divina mão parece um pássaro migrante que descansa da longa jornada. Uma avoante talvez. A esquerda segura a mão do grande Justiniano, o imperador, que rascunha em um livro, dentro de um mosaico em degradés da cor verde, o código legal da legislação da cristandade: as Pandectas e as Digestas. Os rostos e o talhes são tristes e caem alongados, meio torcidos dentro do vitral, preso na armação de chumbo. Pela fisionomia, os imperadores devem sofrer de depressão bi-polar e endógena, além da melancolia do Purgatório e do tédio eterno do Hades. Ou se esforçam secretamente para sair da prisão dos vitrais. Os mantos são melancólicos, porque descem até os pés das figuras como se estivessem sentindo uma solidão vertical, as rugas são as pregas e vincos das túnicas. Devido à idade avançada. Lembrem que as cabeças estão envoltas em halos ou aureolas tripartites. Acima, no teto, ainda por sobre a superfície das diminutas pastilhas, mosaicos coloridos, está plasmada a figura da imperatriz Teodósia, (em meio a belas donzelas, anjos de todas legiões angelicais; nuvens imóveis nas pedrinhas multicores; um sol amarelo ao fundo). A Virgem Maria bizantina — a outra é hebraica e romana — lê para Teodósia os textos sagrados. Apurando-se o ouvido, dá para captar um som leve e difuso que emana dos ícones, querendo soltar-se da prisão dos vitrais e se evadirem para longe e viver suas vidas naturais. Há ainda outras imagens de pessoas do povo e mandatários, ambos sem santidade. Olhando para todo o interior, o teto abobadado, as paredes, a visão se turva e todas as imagens se deslocam de seus lugares. Deve ser ó ódio que afeta a visão. Bem acima, a vista dá para o interior da cúpula, dentro da qual, pende um sino de 300 quilos. O capitão, a pé e sem o elmo, grita:

— Há alguém aqui? Onde está o Patriarca? Digo... o sacerdote?

A resposta é uma bala vinda do alto, da cúpula. Vem com a força e o ímpeto do dejeto endurecido de um pombo revoltado. O projétil, não bizantino, penetra no alto da cabeça de um soldado raso e sai pela planta do pé esquerdo. Nem tem tempo de morrer, pois, rapidamente é endereçado para o inferno, o Hades; depois a alma dele vai beber a água do rio Letes para apagar as memórias desta vida. É a água do esquecimento. O castigo neste inferno da mitologia pagã é viver a eternidade nas névoas em um tédio sem fim. Alguns ícones estão assustados, porque as marcas de expressão no rosto se acentuaram. Olhos mais abertos dão a entender que eles estão atentos. Alguns apertam a visão, com uma certa sofreguidão, em especial os santos com os halos de três partes. O açougueiro que viemos matar é um guerrilheiro que resiste a nossa ocupação. Ele esta lá, ó! (e levanto o dedo indicador esquerdo para o alto, onde plange o enorme sino). Nossas balas estão compondo uma melodia sinistra de ricochetes em todos os objetos metálicos da ogiva e campanário. É uma canção maldita, feita na base do improviso. O rebelde não cede.

— Vamos subir e tirá-lo de lá no braço —, diz o sargento Repulso de Souza.

Subimos pela escada helicoidal. Pelas paredes há vitrais de apóstolos que escrevem suas epístolas e os evangelistas os evangelhos. (Dá para perceber que São Paulo não escreve: Ele está ao lado de São Lucas, apenas debruçado e observa o grande evangelista revisar o texto, especialmente a pontuação). São Pedro, em outro vitral, puxa uma rede de pesca cheia de peixes, no Mar da Galileia, da qual vai tirando os maiores, usados depois para possibilitar ao divino Rabi, ao Mestre dos Mestres, realizar o milagre da multiplicação dos pães e peixes. O fato ocorreu durante o “sermão da montanha”, um morro que falava e dava recados aos que subiam por ele. No topo, o Messias prega com eloquência o famoso sermão que durou dias. Algumas habitações rústicas de pau a pique iam surgindo em suas encostas sobre arbustos chamados “favela”, duros de arrancar. (as autoridades vieram e destruíram o casario paupérrimo). Não houve manifestações de protesto, porque o papel era caro. Apenas alguns campesinos hebreus proferiam palavras de protestos. Os megafones eram as mãos fechadas em arco, à frente da boca. Jesus observava e registrava tudo em seu diário, nunca encontrado.

Ah! Sim! No vitral de Judas Escariotes, o famoso sacripanta, vê-se sua figura humana enforcada no galho de uma oliveira do horto. De uma mão entreaberta, caem algumas azeitonas verdes. Trinta moedas antigas, talvez “dracmas”, despencam de sua bolsa e formam um montículo no solo. Os pés e pernas ainda apresentam os últimos espasmos da agonia final. Logo os espasmos e contorções cessam; o traidor do messias ruma sem bagagem para os mármores do inferno do Islão, sem a companhia das sete virgens, as houris, onde é pago por um centurião romano e um Sumo Pontífice hebreu. Meio a meio, foi o trato. Vários apóstolos são atingidos pela saraivada de balas. Seus vitrais se estilhaçam. Fica acuado, o renegado. Também está sem munição. Tenta se defender com uma alfanje muçulmana. O capitão ordena que não seja morto. Por isso, é desmaiado a coronhadas. Fica ferido, mas ainda vivo. Seu destino é traçado pelo capitão, que proclama:

— Tirem o badalo do sino maior. Vamos colocar o facínora no seu lugar. (Há outros sinos menores). Vejam bem! Pendurem-no de cabeça para baixo. Os pés devem ser amarrados onde está preso o badalo; depois repiquem o sino. Vamos embora! As muralhas podem se fechar e as trilhas não nos levar a lugar algum.

Saímos. Já longe do templo ortodoxo, o sino “bimbalha” um som estranho, pouco metálico e menos brônzeo. Há pelo meio da estranha sinfonia, vogais e consoantes destas palavras: gggemiiiidos, bbberrooos, maaaldddições iiimmmprecccações, etc. O sofrimento do bandido até morrer foi desmesurado. O crânio bate de um lado para o outro nas abas do sino; para lá e para cá; pra cá e pra lá... O som é meio surdo, abafado pela cabeleira. O comandante deixa um sujeito do lugar encarregado de puxar a corda do sino, até o bandido morrer. Em meia hora, o som bizarro cessa. Dizem que a alma do infeliz foi recebida no inferno cristão: (caldeirões de azeite fervente; espetos quentes; tumbas de fogo e um lago de fezes humanas na entrada). Além disso, a recepção ainda contou com um majestoso repicar de sinos de carvão mineral, cal, amalgamados com cinzas vulcânicas, o concreto dos romanos. Ao sairmos da muralha, nos deparamos com três trilhas. Qual seguir?

Escolhemos uma por votação. Já distantes, a nossa trilha envereda pelo desfiladeiro do Angustiado, cujo relevo é acidentado. As paredes laterais verticais e simétricas são tão altas que se perdem nas nuvens mais baixas. Ficamos assustados: o som cavo do sino virara um eco que se estende à nossa frente como se nos estivesse esperando de tocaia. O eco gira pelo canion e pelos vales abaulados. É horripilante, bem diverso do que ouvimos ainda na aldeia bizantina. Como algo vivo, ele se debate pelas escarpas da chapada. O eco sinistro nos emboscara e se repetia sem parar. Alguns soldados caíram mortos com os tímpanos perfurados de lado a lado. Deixamos os corpos insepultos. O terror é mais que um horror. Enfim... temos que fugir por medo e remorso. Agora, galopando, a poeira da cavalhada penetra na paisagem. Demos de olhos abertos no vulto de uma capela em ruínas plantada sobre um platô rochoso. Ali,outra surpresa: ouvimos o soluço de um exíguo sino de aço, entre os paredões de granito e rochas sedimentares e outras magmáticas da Era Mesozoica. Uma águia, em voo rasante, pia. Pássaros migrantes vão beber nas cacimbas, abaixo, em uma depressão, por onde havia corrido há séculos um ribeiro, hoje efêmero. Um soldado diz: “Aí vai um falcão peregrino. Como nós”. Parte do destacamento some, por encanto, na nuvem de areia. Há cactos e variada vegetação xerófila por todo o lado. De repente, o som do sino retine metálico e claro, bem atrás. O desfiladeiro se estreita. As rochas meditam pesadamente nas encostas. A tropa vai virando uma pasta de sombras cinza-claro. A solidão sorve os primeiros pingos do orvalho. O destacamento, a cavalo, emudece. A tropa de vanguarda, antecipa o pesadelo e desaparece nas entranhas de um “fiord” profundo entre duas chapadas menores. Nunca mais foram vistos. Um deles, o comandante Sebastião, já foi flagrado vagando pela região. É esperado até hoje. O ruído da cavalhada some no horizonte. Uma cruz desponta ao longe sobre o campanário de Rotunda do Sul, nossa vila. Eis ali o quartel do regimento.

Muito perto, entre aflorações gnaissicas, o som do sino vai se aveludando, até parecer o ronronar de um felino. E sucumbe para sempre. Um condor solitário plana suavemente no ar encardido, entre paredões de arenito vermelho. A majestosa ave carniceira contempla a tropa com indiferença e mergulha na lua cheia, ainda alta, com outras sombras. É hora do “Ângelus”; 18h, ...ainda bem. Rezamos: “Ave Maria cheia de graça, o Senhor é convosco, bendita sois vós entre as mulheres, bendito o fruto de vosso ventre, Jesus ...”

A tarde se empanturra com as trevas espessas da noite. Os viventes adormecem e se aquecem. “Fecham-se as mandíbulas selvagens da guerra”. Por enquanto.

*Reproduzido de http://www.candido.bpp.pr.gov.br/

carlos a sanches

Carlos Alberto Sanches é linguista, filólogo, escritor, poeta, gramático. Tem dupla cidadania. Nasceu em Portugal em 1941, mas vive no Brasil desde 1952

 


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