CRÔNICA

Data paterna



Esses dias diferenciados que se repetem ano a ano cansam a gente. Parece que já são datas que chegam sem grandes possibilidades de imprevistos, improvisos, surpresas e mais coisas que impossibilitam acontecimentos não rotineiros. Sim, por que não há nada mais chato do que a rotina.

E eis que chega/chegou o Dia dos Pais de 2017. Cai, como sempre no mês de agosto, um mês que não goza de nenhuma fama espetacular. E, ainda por cima, cai bem num dia 13. E eu aqui, solitário, na rua Falcão, no Recanto dos Pássaros.

Me passa pela cabeça a Maysa Matarazzo cantando "ai, a solidão vai acabar comigo". Acho que é da Dolores Duran a música. Mas eu me lembro é da Maysa, com aqueles lindos olhos, aos quais, Manuel Bandeira versejou como "dois oceanos não pacíficos".

Qual nada, a solidão não vai acabar comigo, já que preciso dela enquanto poeta, escritor, jornalista ou qualquer outro que lide com a palavra. Mas, sim, dói um pouco a solidão. "A solidão é o mais precioso de todos os bens. Ela é intransferível", definiu Clarice Lispector.

Nos anos 90, como editor de cultura de um jornal, entre as minhas atribuições estava escrever notas para uma coluna famigerada, na qual, ninguém gostava de ser citado. Foi nessa época que vi em outdoors espalhados pela cidade uma frase assim: "Dia dos paiz, dia de Lupo". Ora, acho muito difícil que pais quarentões, cinquentões e daí pra frente, nunca tenham ganhado de presente um par de meias. Acho que a Lupo fatura bem no mês de agosto.

E escrevi uma nota, sobre o tal outdoor, sugerindo que o erro poderia ser proposital, uma vez que a publicidade, apesar de tender quase sempre pra caretice, é uma coisa muito louca, ô meu...

Passaram-se uns dez ou quinze dias e eis que recebo uma ligação de São Paulo, na redação. Era uma assessora da Lupo. Ela havia ligado apenas para explicar que, na verdade, o erro tinha sido mesmo um erro. E, timidamente, indagou se eu gostaria de receber dez cuecas e dez pares de meias. Bom, acho que esse foi o Dia dos Pais, apesar de ter sido presenteado com a data já vencida, mais gordo que já tive.

Duvido muito que neste treze de agosto eu receba muitos presentes e já me conformo com telefonemas. Meus filhos estão ambos no Rio de Janeiro e é bem possível que me liguem. Ou uma mensagem de whattsapp. E registro aqui, com orgulho, que faço parte de um percentual mínimo da população do mundo (menos de 0,5%): estou quase chegando aos 60 anos e ainda tenho pai e mãe vivos.

Envelhecer e continuar contando com a presença dos pais é maravilhoso. Pois envelhecer tem que servir pra alguma coisa, como por exemplo, o amadurecimento. E nunca é tarde para lapidar as relações com os entes queridos.

Um beijo a todos. Feliz Dia dos Pais!!!

maysa

Maysa Matarazzo (1936-1977)


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