CONTO

Socorro*



Eu morreria hoje.
Se fosse pela minha vontade.
Hoje.
Mas você não me ouve.
Vive me dizendo.
Deixa tudo para amanhã.
E eu deixo.
Atraso.
Procuro então o que fazer.
Para esquecer você.
Navego na internet.
Levo o macarrão ao forno.
A sardinha.
Ligo a TV.
Telefono para você e dá ocupado.
Nada.
Estou desesperada.
Deve ser de propósito.
Você não atende.
Vou ao banheiro.
Choro.
Ligo o chuveiro.
Eu não estou bem.
Vou ficando pior.
O médico receitou uns chás.
Eu não tomo.
Deixo recados no seu celular.
Amor.
A minha vontade era sumir.
Ir à janela.
Fazer barulho.
Sonhei em cortar um dos braços.
Atirar à avenida um dos pulsos.
Depois as outras partes.
É isto.
A ideia é original.
Aguentarei?
Você demora demais.
Contra a vontade diz que virá.
Rápido.
Eu preciso de você.
Mas você quer deixar para amanhã.
Tudo você deixa para amanhã.
Como se tivéssemos tempo.
Tem de ser hoje.
Insisto.
E peço que você traga um sorvete de creme.
Se você não vier arrancarei os cabelos.
Ligarei para o bombeiro.
Atirarei a minha mão ao trânsito.
Você nunca me viu assim.
Você gosta de mim.
Repete.
Pede minha calma.
E promete que vem.
E vem.
Você chega e já estou de banho tomado.
Nem pareço a mesma pessoa fúnebre.
Esquece.
Por favor.
Esse meu dramalhão.
Fiz.
Ó.
Nosso macarrão.
O molho de tomate que tanto você gosta.
Ora.
Relaxa.
Vamos ser felizes.
Trouxe o sorvete?
Você faz uma fala doce.
Mansa.
Nossa amizade será para sempre.
Você me diz.
Eternamente.
Difícil de engolir essa desculpa.
Só me passam males pela cabeça.
Vermes.
Vejo luzes tão apagadas.
Devem ser os chás.
Mas eu juro que não tomei nada.
Vou ficando tonta.
Sabe como se chama isto?
Abandono.
Você diz que vai dormir comigo.
Mas não hoje.
Amanhã.
Tudo para você fica para amanhã.
Para outro dia.
Essa sua mania me irrita.
Eu quero me matar hoje.
Grito.
Primeiro quebro os pratos.
Destruo a TV.
Jogo facas em você.
A gente se joga na cama.
Não sei se a gente luta.
Ou se ama.
Pela última vez.
De hoje não passa.
Mas não adianta.
Vejo você indo embora.
Primeiro um braço.
Depois o outro.
Um olho.
Outro olho.
Não me deixa.
Eu choro.
Eu imploro.
Amor.
Hoje não.
Que tal amanhã?
Se você for de vez eu morro.
Pela janela eu grito.
Com as forças do meu corpo todo.
Mas você não me ouve.
Socorro.

*Reproduzido de https://forademim.com.br

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freire

Marcelino nasceu em Pernambuco. Já faturou um Jabuti (2006), categoria contos; e bateu na trave em 2014, como romancista




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