POEMA/PROSA

Cuidado com o que você deseja,*



exúrbio. O que é que você queria dizer (quando disse): Eu falava, de brincadeira, que minha profissão era aposentado. Está começando a nevar de novo. Não sei se eu devia sair. Como é que se pode dar ordens se ninguém está prestando atenção? Um amigo e dois garotos. Ali, onde o amor era silencioso, podia-se pensar de modo descontínuo nas dobras que havia pela frente, a fé montada num triciclo. Isso apenas. Ou então ela fez um furo no vestido. Dava para apostar que coisa boa não era. As janelas estremeciam quando passava o trem na hora do café da manhã.

Pense bem se não é melhor reconsiderar essa decisão. Os outros que se danem… Estava lá, no livro militar dele. Você também tinha oracular neve. Você sabia disso. Todo mundo sabia. Minha dinastia, confissões de um lírio no arame. Coisa horrível de se fazer puramente nu. Condições de humilhação aplicam-se ao caso, para não dar uma de tia aflita com você. Você não está preparado para isso. Nem você nem nenhum poeta, mas é que você já veio. A garça não sabe se as condições meteorológicas vão voltar. Eu não quero isso, não. Estou cagando e andando. Uns troço que ia cair… o pomar de batatas vem junto com uma cozinha oriental.

Ninguém pede por favor no céu. Todas as transações comerciais são feitas antes do meio-dia, havendo tempo livre para cochilos e reflexão. Esse é o tipo de vida que eu devia estar levando. O que aconteceu? você pergunta. A moça das tranças mandou lembranças. Quando o relógio anuncia a hora hipnótica do meio-dia, você fica como qualquer outro hóspede pagante, à espera do cheiro inebriante de hambúrguer subindo pelo vão da escada. Quando o Doc voltou a morar no nosso bairro ele percebeu os sorrisos miseráveis, legado de nosso deus anterior. Quem, ele se perguntava, pode gostar desse tipo de ambiência. E não deu outra: era o dia da Independência. E correu de boca em boca: dia certo, mês errado. Vão dormir. E foi o que eles fizeram (escrevendo na grama). O moço das escovas (de queixo rapado) passou por aqui. Vejo você por lá. Me dá um toque. Só porque o Scooby Doo acha que você devia…

As autoridades da sujeira implicaram uma pequenina BOMBA. E dormir, tentando encontrá-los. Pois eu sou a favor não apenas da iniciativa A-13 mas de toda essa panóplia idiota, tio Ralph. Põe meu nome na lista: engrinaldado. Dizem que ela foi vista pela última vez por um mero acaso, chorando à beira-lago.

Você sabia disso. Todo mundo sabia.

*Reproduzido de http://www.revistaserrote.com.br , com tradução de Paulo Henriques Britto

giovanni giovannetti

john

John Ashbery (1927-2017), poeta dos EUA, um dos principais representantes da poesia da chamada Escola de Nova Iorque


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