PROESIA

Dois poemas em prosa*



O pão

A superfície do pão é maravilhosa primeiro por causa desta impressão quase panorâmica que dá: como se tivesse ao dispor, sob a mão, os Alpes, o Taurus ou a Cordilheira dos Andes.

Assim pois uma massa amorfa enquanto arrota foi introduzida para nós no forno estelar, onde, endurecendo, se afeiçoou em vales, cumes, ondulações, ravinas… E todos esses planos desde então tão nitidamente articulados, essas lajes finas em que a luz aplicadamente deita os seus lumes, – sem um olhar sequer para a flacidez ignóbil subjacente.

Esse lasso e frio subsolo que se chama o miolo tem o seu tecido semelhante ao das esponjas: folhas ou flores são aí como irmãs siamesas soldadas por todos os cotovelos ao mesmo tempo.

Logo que o pão endurece essas flores murcham murcham e contraem-se: destacam-se então umas das outras e a massa torna-se por isso friável.

Mas quebremo-la, calemo-nos: porque o pão deve ser a nossa boca menos objecto de respeito do que de refeição.



À sonhadora matéria

Provavelmente, tudo e todos – e nós mesmos – não somos senão sonhos imediatos da divina Matéria:

Os produtos textuais da sua prodigiosa imaginação.

E assim, num certo sentido, poder-se-is dizer que a natureza inteira, nela incluindo os homens, não é senão uma escrita; mas uma escrita de uma certa espécie; uma escrita não-significativa, pelo facto de que não se refere a nenhum sistema de significação; de que se trata de um universo indefinido: propriamente imenso, sem medidas.

Enquanto que o mundo das palavras é um universo finito.

Mas pelo facto de ser composto por esses objectos muito particulares e particularmente comoventes, os sons significativos e articulados de que somos capazes, que nos servem ao mesmo tempo para nomear os objectos da natureza e para exprimir os nossos sentimentos,

Basta sem dúvida nomear o que quer que seja – de uma certa maneira – para exprimir tudo do homem e, no mesmo lance, glorificar a matéria, exemplo para a escrita e providência do espírito.


*Reproduzidos de www.revistaprosaversoearte.com , com tradução de Manuel Gusmão, no livro "Alguns Poemas" (Editora Cotovia - Portugal)

ponge

Francis Ponge (1899-1988) escrevia sua prosa poética explorando, quase sempre com humor, suas atividades criativas e críticas


Voltar  

Confira também nesta seção:
20.10.17 17h00 » O amor morreu*
18.10.17 19h00 » O Silêncio das Sereias*
16.10.17 18h24 » O Perfume*
14.10.17 19h00 » Telefones*
12.10.17 19h00 » Sem açúcar*
10.10.17 19h00 » Promessa*
08.10.17 19h30 » Receita de bolo
06.10.17 19h00 » Cão que ladra não morde?*
04.10.17 20h00 » Buraco quente
02.10.17 22h00 » A Tintinjoss de Irlanda
29.09.17 18h00 » O baile do colibri nu*
27.09.17 17h30 » Lúcia, a cortesã
25.09.17 17h30 » Dois poemas em prosa*
23.09.17 17h30 » Caso os tigres não me reconheçam*
21.09.17 17h30 » O ateu
19.09.17 18h00 » Em nome do pai*
17.09.17 17h30 » Quanto custa um conto?*
15.09.17 18h11 » Amar e Ser Livre ao mesmo Tempo*
13.09.17 18h22 » Circuito fechado*
11.09.17 18h50 » Quem morre descansa

Agenda Cultural

Veja Mais

Últimas Notícias

Mais Notícias

Newsletter

Preencha o formulário abaixo para receber nossa newsletter:

  • Nome:

  • Email:

  • assinar

  • cancelar


Copyright © 2012 Tyrannus Melancholicus - Todos os direitos reservadosTrinix Internet