CONTO

Lúcia, a cortesã



Lúcia era seu nome de guerra. Na pia batismal chamaram-lhe Maria da Glória, nome que usou até os dezessete anos, época em que as circunstâncias de sua vida forçaram-na a esquecer sua madrinha, a Nossa Senhora da Glória.

Até aquela idade, teve uma vida comum, de menina que estuda apenas o suficiente enquanto espera o amadurecimento para tornar-se esposa e mãe, uma dona de casa para ser acrescentada como um número nas estatísticas demográficas. Na escola, durante o Ensino Médio, experimentou cigarro e sentiu a boca muito amarga, ficou duas ou três vezes com meninos da classe, conhecendo alguns amassos masculinos em exercício de maturidade. Repetiu, até então, o que via e ouvia em sua volta. Nunca tivera vocação para rebeldias além daquelas de ficar um almoço sem comer, para a aflição da mãe, por não lhe terem permitido passar o fim de semana em excursão com os colegas de classe.

O pai foi sempre um homem trabalhador, taciturno mas honesto, cumpridor, sem mancha alguma em sua ficha. Enfim, trabalhar pouco mais de vinte anos na mesma empresa era façanha  admirada por parentes e amigos. Um dia, entretanto, a empresa teve de enxugar-se e enxugou-se nas costas de alguns de seus empregados com toalha infelizmente muito áspera. Pairava sobre os lares uma fumaça ameaçando crise mundial e o pai de Maria da Glória inchou o dedo médio batendo em portas fechadas.

Há vários meses a tristeza gania pelos arredores da casa de Maria da Glória, onde o pai desempregado começava a perder a esperança e a mãe não saía mais da cama, sem que algum médico descobrisse o que era aquilo. Seu irmão, com idade orçando aí pelos dez anos, era ainda considerado economicamente inútil, a não ser pelo fato de continuar sendo, por absoluta necessidade, um consumidor. Sua irmã, a caçula, estava na idade da coqueluche e ainda não sentia vergonha de andar nua por dentro de casa.

O dinheiro, contado por dedos trêmulos, tinha sido repartido em duas metades: uma para comida e a outra para remédio. Aos poucos, foram-se esvaindo as duas metades,  de modo lento, mas irreversível. Até o dia em que não tiveram mais nada sobre a mesa, e os remédios da mãe acabaram-se antes do fim do tratamento.

Maria da Glória teve uma explosão de desespero, como toda a família, só que ela resolveu reagir e saiu para a rua com uma bolsinha na mão. Tinha acabado de anoitecer e seu jantar, como o de toda a família, tinha sido uma sopa de couve, com as últimas folhas de um pé que descobriram escondido no meio do mato no fundo do quintal.

Sinceramente preocupados, os membros da família perguntaram, Aonde você vai? , Aonde você vai?, aonde você vai? Todos eles gritaram atrás de Lúcia enquanto suas costas sumiam no escuro da rua pobre.

Tarde da noite, quando Maria da Glória voltou, trazia comida e remédios, um sorriso cansado, olheiras escuras e um olhar medonho de quem tinha visto o mundo.

Meia hora depois, todos se sentaram à mesa, menos a mãe, que ainda não conseguia levantar-se, apesar de um pouco melhor. O pai, no exercício de sua paternidade, dividiu a comida equitativamente entre ele e os filhos. Mas havia uma sacola cheia e o homem desistiu de racionar o alimento. Todos comeram como se estivessem passando fome nos últimos tempos. Era uma alegria, ver a mesa farta, uma sacola ainda cheia, e a mãe tomando seus remédios.

Saciada a fome da família, o pai cobriu a filha mais velha com seu olhar mais severo.

— E você, pode me dizer onde foi que arranjou dinheiro pra comprar tudo isso?

Os irmãos mais novos continuaram sentados à mesa apenas por imitação. Agradava-lhes repetir tudo o que os mais velhos fizessem. Nenhum dos dois menores tinha condições de pensar sobre a origem daquela comida ou com que dinheiro ela fora comprada. Ficaram, contudo assustados, quando a irmã mais velha começou a chorar, prevendo o que estava por acontecer.

— Fora desta casa, vagabunda! Não podem viver sob o mesmo teto um homem honrado e uma vagabunda como você.

Meia hora mais tarde, as duas crianças chorando no quarto, Maria da Glória saiu pela porta da frente com uma trouxa pequena com tudo que era seu. Ao chegar à calçada Maria da Glória deixou de existir. Quem faria, dali pra frente, verdadeiro furor nas ruas e avenidas centrais, era Lúcia, uma bela garota de dezessete anos, que ninguém sabia de onde aparecera.

Meses mais tarde, quase matou de susto um antigo colega de classe, quando foi abordada e virou-se.

— Mas todos dizem que você morreu, Maria da Glória.

— Sim, a Maria da Glória morreu. Agora sou Lúcia, a cortesã. Te interessa?

O garoto ficou muito atrapalhado, porque ver sua ex-colega naquela situação causava prejuízo enorme a sua libido.

— Claro que não. Mas como acreditar que você está vendendo seu corpo, Maria da Glória?!

Ela estava escorada em um poste de luz, na frente de um posto de combustível. Era uma esquina movimentada e muitos automóveis entravam no posto para examinar melhor aquela garota linda escorada num poste. Muitos deles tornavam-se fregueses — não só do posto.

— Bem, primeiro, que Maria da Glória não existe mais. Eu sou a Lúcia, entendeu? Segundo, você está muito enganado porque eu não vendo coisa nenhuma. Vocês não pagam pra gozar? Eu só faço o contrário: pra gozar eu cobro.

O ex-colega ficou escandalizado com o cinismo de Lúcia, por quem já sofrera algumas horas de insônia, e despediu-se  despeitado, o coração cheio de ressentimento.

Milhares de motoristas conheciam o poste da Lúcia, bem na esquina do posto, local que ela escolhera para seu ponto.

Quando completou um ano como Lúcia, a família estava bem. A mãe curada, os irmãos bem nutridos frequentando a escola, o pai novamente empregado. Ela sempre dava um jeito de enfiar algum dinheiro nas mãos da mãe, que sofria apertos no peito de tanta saudade e bendizia aquela filha que tinha caído para levantar a mãe.

Mesmo quando o dinheiro começou a escassear, a mãe continuou bendizendo sua Maria da Glória e sentindo muita saudade, preferindo pensar que a filha estava no céu.

E o dinheiro começou a escassear quando ao cabo de dois anos já não era mais possível gozar, e Lúcia sentia dores, sofria febres, tratava de corrimentos, e já passara por algumas doenças venéreas. Com tudo isso, a não ser nos dias de chuva, lá estava Lúcia escorada no mesmo poste, esperando fregueses cada vez mais raros.

Suas roupas envelheceram, sua pintura borrava o rosto, manchas de feridas  se espalhavam por braços e pernas. Aviltada, como estava, seu preço despencava sem parar.

Já fazia uma semana que não recebera um só cliente, e a fome começava a trotar pra cima e pra baixo pela frente do barraco onde morava. Uma noite, mesmo com chuva Lúcia assumiu seu posto no poste. Ela teve uma explosão de desespero e enfrentou o aguaceiro. As horas passaram, os motoristas passaram e a noite passou. Na manhã seguinte, os funcionários do posto disseram ao gerente que havia uma mulher grudada naquele poste da esquina. Receberam ordem de chamar a polícia, que horas mais tarde tentou, sem sucesso, arrancá-la dali. Por fim, desistiram, e o poste está lá até hoje esperando por algum cliente.


*Reproduzido de http://acervo.revistabula.com

prefeitura de cubatão

braff

Menalton Braff, contista, romancista e novelista gaúcho

 


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