CONTO

Buraco quente



“Sou neto de espanhol. Meu avô veio de Málaga”, disse Pedro Gutierrez exibindo o RG. Moro na rua porque gosto. "É o meu estilo. Se até o Sadam Hussein morava num buraco por que eu não posso morar? Só saio daqui se os americanos vierem me buscar. De manhãzinha a gente acorda, leva as crianças pra creche e eu saio com a Gleide pra catar lata, papelão, o que encontrar. Gleide é a minha mulher. Gleide da Silva Gutierrez. No fim do dia a gente vende o que juntou pra cooperativa, pega as crianças na creche e volta pra casa. Aí eu pulo pra dentro do buraco, encaixo a escada pra Gleide descer com as crianças e a gente janta. Aqui ninguém passa fome. Mendigo que vive no centro pode reclamar de tudo, menos de fome. Frio também não. De dia o viaduto toma sol, de noite isso vira um forno. Agora me diz: onde eu teria uma vida boa como essa, sem horário nem patrão, se não fosse aqui, no buraco quente?”. Antes de dormir, Pedro ainda dá uma passada num albergue de homens de rua para dar uma mãozinha. Eu o acompanho. Ele se sente todo importante com uma jornalista andando atrás dele o dia inteiro. O neto de espanhol organiza a fila do banho e ajuda a servir a sopa para mendigos iguais a ele. Terminado o expediente, eu lhe ofereço carona mas ele recusa. “Prefiro ir a pé. Ainda tenho que dar uma passadinha num outro lugar”, ele me diz numa piscada malandra. “Agora é coisa minha mesmo”. “Você tem ânimo pra farra numa hora dessa?”, pergunto caindo pelas tabelas. “Vou dizer uma coisa: não existe homem no mundo que se contente com um buraco só. Eu tenho três”.


*Reproduzido de https://doidivana.wordpress.com . Neste blog (da autora), há o registro de que este conto foi inspirado numa notícia que tem como manchete "Excluído revela estratégia de sobrevivência"

ivana

Ivana Arruda Leite nasceu em Araçatuba (SP). É socióloga e escritora, autora de diversas obras


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