CONTO

Promessa*



Meu pai vivia bêbado. Talentoso, no entanto não conseguia manter-se em nenhum serviço. Não nasci pra ser empregado de ninguém, revoltava-se. Acordava cedo, antes de todos, e saía, envergonhado, só aparecendo à noite, cambaleante, fedendo à cachaça, sombra se esgueirando no mundo. Minha mãe, com suas costuras, é quem sustentava a casa. As discussões, antes frequentes, já nem mais ocorriam – ele dormia num sofá velho, onde os gatos afiavam as garras, a pequinês entre as pernas. Nós éramos quatro meninas em escadinha, para desgosto dele: eu, Ju, a maior, doze anos; a Nem, onze; a Zô, nove; e a Bia, sete. Morávamos numa casa modesta, quintal pequeno, acimentado, uma jaboticabeira no centro que dava frutos quase que com raiva, expulsando os caroços negros que explodiam no chão, abertos em carnadura branca. No começo, gostava de jaboticaba, mas com o tempo enjoei, o cheiro me causava náuseas. Meu pai se prontificou a cortar a árvore, minha mãe se interpôs, e essa foi a última e pior briga entre eles, Você é amaldiçoada, Cinira, ele gritou, Dessa barriga só nasce mulher! E nunca mais se falaram. Eu passei a odiar meu pai que, por não colocar dinheiro em casa, obrigava minha mãe a se desdobrar na máquina de costura, dia e noite o entra e sai de gente que vinha encomendar um vestido, conferir um ajuste, aviar um modelo. Vivíamos escondidas entre retalhos, manequins e linhas esfiapadas, chafurdando em cores e texturas. Mas nós nos amparávamos: mamãe tomava conta de nós, e nós cuidávamos umas das outras, cidadela inconquistável contra as mazelas do mundo.

Uma sexta-feira, meu pai entrou em casa exultante, ligeiramente alto, Ganhei no jogo do bicho! Ganhei no jogo do bicho! Macaco na cabeça!, sobraçando um saco de pães quentinhos, mortadela fatiada e um litro de refrigerante. Era um fim de tarde, e minha mãe se apurava para terminar dois vestidos para um casamento no dia seguinte. Conciliador, meu pai falou, Para um pouco, Cinira, vem comemorar com a gente! Mas, ela, indignada, concentrou-se ainda mais no trabalho. Percebendo a decepção do meu pai, tentamos, eu e minhas irmãs, consolá-lo. Arrumei a mesa de fórmica da cozinha, e comemos, prazerosamente, o pão com mortadela, e nos fartamos de refrigerante. Ele não tocou em nada, limitando-se a observar, pensativo, talvez imaginando, naquela cena, a vida que poderia ter sido. Dia seguinte, acordou tarde, e saiu, dizendo que voltaria com uma surpresa. Como já estávamos acostumados com suas promessas nunca cumpridas, fomos para o quintal brincar de casinha. No começo da noite, minha mãe já havia despachado as últimas encomendas e assistíamos televisão na sala desarrumada, ele voltou, um pacote na mão, e, bafo de bebida ordinária, dirigiu-se à minha mãe, Olha, Cinira, o que eu trouxe pras meninas. E desembrulhou sobre a mesa, orgulhoso, quatro uniformes completos do seu time: camisa, calção, meias. Gastara todo o restante do prêmio com aquilo. Minha mãe levantou-se, aos berros, Você não tem juízo mesmo!, e fechou-se no quarto, chorando. Ele, desconcertado, mirou-nos, os olhos brilhando: Amanhã vamos ao estádio, eu vou comprar picolé, cachorro-quente, tudo que vocês quiserem, está bem?, tudo que vocês quiserem.

 

*Reproduzido de http://chuteirafc.cartacapital.com.br

ruffato

Luiz Ruffato é um dos mais gabaritados escritores brasileiros destes tempos

 


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