CONTO

Sem açúcar*



Primeiro foram as pequenas. Quase invisíveis. Daquelas que, se a gente apertar, desaparecem. 

Pegava sem que ninguém percebesse. Vivas. Punha a mão, assim, ao lado dos móveis e deixava que elas subissem pelas unhas e falanges. Depois as enfiava na boca. E engolia rápido, acreditando que chegariam vivas até o estômago. 

Foi o jeito que achou para diminuir o choro que a consumia. 

Mas notou logo que as representantes dessa espécie não eram suficientes. Tão frágeis, não podiam sobreviver até seu destino. Expiravam antes que a saliva as carregasse até a garganta. Buscou uma alternativa: saúvas. Sim, saúvas. É costume entre gente do sítio comer saúvas torradas. Igual amendoim. As pessoas não iam estranhar caso alguém percebesse o que ela andava fazendo. 

Decidiu então: todo dia, quando saía do trabalho, corria para o canteiro de trás da banca de jornais. Enfiava os saltos na terra e se esparramava no chão, sujando de marrom toda a saia de linho claro. Descascando o esmalte vermelho, revirava a grama, os trevos, as folhas das rosas. Catava as tanajuras grandes, que iam, esperneando, parar na sua boca. Aos montes. 

Com o tempo, descobriu novas espécies. Louca, faraó, fantasma, cabeçuda. Devorou todas. Cada vez mais. Encontrou novos lugares. Buscava jardins, canteiros, vasos. Não tinha mais hora. Acordava no meio da madrugada e sentava na terra procurando formigas. De camisola. E comia até saciar a vontade. 

Foi demitida, pois não conseguia mais trabalhar durante todo o expediente. Abandonava o serviço para sair em busca de suas presas. 

O choro estancou. 

Acabada a água, ela começou a secar. Murchou. Como se os bichos não só engolissem as lágrimas represadas, mas também a devorassem por dentro. O rosto, pernas e braços foram enrugando como roupa torcida no varal. 

Aí veio a amargura. E não teve mais como esconder o vício. 

Levaram ao médico. 

Endoscopia, tomografia, ressonância. Reviraram cérebro, estômago e coração. Com o cérebro, tudo bem. No estômago, algumas perfurações, feito úlcera, causadas pelas mordidas dos insetos. Mas o coração, este estava totalmente endurecido. 

— Não é a primeira vez que eu vejo um caso desses – disse o médico – falta de hidratação e doçura. Para curar isso, só cápsulas de glicose. Ingeridas com muito líquido. 

Começou o tratamento, que de nada adiantou. Cada vez mais seca e amarga, não conseguiu deixar as formigas de lado. O açúcar e a água, mal caíam no estômago, já eram consumidos. Não tinham tempo de chegar ao coração. 

Sugeriram uma benzedeira. 

— Quando a pessoa começa a comer formiga, é desilusão muito grande. Açúcar não cura o problema. A doçura vem de dentro da gente, e essa moça precisa é de outra coisa. Eu sei de um remédio pra esse mal. Todos os dias, logo que amanhecer, ela vai recolher o orvalho de um bem-me-quer e tomar cinco gotas. 

Seguiu as recomendações. Abandonou as cápsulas de glicose e parou de comer formigas. 

Mas dor de amor não se cura de repente. Tem que ser aos poucos. 

Se a gente prestar bem atenção, a pele do rosto já começou a desenrugar. E ontem ela sorriu. 

 

*Reproduzido da coletânea de contos da autora "Sem açúcar", publicada no final do ano passado

flavia

Flávia Helena é escritora e professora e crítica de literatura


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