CONTO

O amor morreu*



F oi encontrado hoje, pela manhã, em decúbito dorsal o cadáver de um jovem. Os curiosos chegaram antes da polícia. E a TV logo em seguida abriu caminho entre a multidão. Mexeram daqui; dali e, por fim, deram o nome Amor. O Amor estava ali estatelado, na frente de todos. Os policiais se olharam, o inspetor escreveu na caderneta: HOMÍCIDIO. O curioso que olhava por cima do ombro espalhou: assassinado, o Amor foi assassinado. A multidão aglomerada como um telefone sem fio passava a informação: assassinado. Nas orelhas só se repetia: assassinado.

A imprensa pressionava os policiais tentando encontrar algo mais palpável, qualquer tipo de especulação para o espetáculo da tarde chuvosa. Perguntado sobre as conclusões, o inspetor disse: “Entre traições como vingança, bala perdida, tanta gente que atira para todo lado, descasos, pode ser muito coisa”. A repórter insistiu. O detetive de homicídios olhou os olhos azuis da repórter e não resistiu, então disse baixinho no ouvido dela: “Envenenamento”, e se foi. A multidão continuava suas apostas: fome. É muitas vezes ainda menino que se morre de fome. O Amor em tempos de ódio morreu de depressão, por estar fora de moda. Da própria multidão apareceu a resposta. Alguém havia dito, que alguém havia ouvido, que alguém havia visto, o inspetor falar em “suicídio”. Não havia dúvidas, depois de semanas de posts depressivos, e frases de autoajuda, o Amor suicidou-se. Como? Era a próxima pergunta repetida pela multidão, entre selfies e a busca por melhores ângulos.

Frágil, o pequeno corpo foi retirado. A multidão se dissipou. Em seus celulares, acompanhando a matéria, souberam: era envenenamento. O Amor toma um copo de cólera em casa, em desespero saiu pela rua já cambaleando e sofrendo a queimação das borboletas que morriam no estômago. Uma testemunha havia visto ele checar o WhatsApp e o Facebook, e então cair. O Amor é mais uma vítima do egoísmo sem tréguas dos novos tempos.

 

*Reproduzido de http://www.candido.bpp.pr.gov.br

anderson coelho

edra

Edra Moraes nasceu e vive em Londrina (PR). É ficcionista, poeta, produtora e curadora cultural

 

 

 


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