JORNALISMO LOCAL
Quanto mais pobre, menos informação*

Adriana Garcia no Observatório da Imprensa**

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Qual papel o jornalismo digital poderia desempenhar para preencher vazios informacionais em nosso país?

O Brasil tem quase 208 milhões de habitantes. Pouco mais da metade está conectada à internet. Quando olhamos para o mapa por regiões, no entanto, vemos uma paisagem virtual semelhante a da existência de jornais: territórios com mais renda têm populações mais conectadas e com mais acesso à fontes de informação verificada do que as regiões mais empobrecidas, como o Norte e o Nordeste.

Isso nos coloca uma questão: se os jornais estão diminuindo de tamanho em todo o território nacional devido à disrupção tecnológica e à crise econômica, qual papel o jornalismo digital poderia desempenhar para preencher vazios informacionais em nosso país?

Parece fácil imaginar que sim, que os novos empreendimentos em jornalismo, principalmente aqueles adaptados para o telefone celular, poderiam facilmente ocupar esse espaço. No entanto, basta olhar os principais novos empreendimentos digitais para verificar que a maioria ainda se encontra no abastado eixo Sul e Sudeste.

Cobrir um território continental com critérios jornalísticos claros que atendam funções cívicas básicas para manter os cidadãos bem informados — tais como seguir o andamento das sessões das câmaras municipais e ações das prefeituras e procurar entender como são gastas as receitas públicas — são funções básicas de qualquer repórter.

Além disso, conforme sucessivos relatórios do Comitê para Proteção de Jornalistas, muitos dos que estão nas trincheiras espalhados nos rincões mais remotos do país trabalham em meio a ameaças de morte e o risco de processos judiciais.

Se a transformação digital vai nos levar cada vez mais para o ambiente virtual, o que poderia ser feito para garantir que o jornalismo cívico local, feito para o cidadão em sua própria região, possa resistir e se fortalecer?

Como esse cenário não existe, aqui vão cinco exercícios imaginativos para o futuro:

1)  Fundações, ONGs e bilionários prestariam atenção à quantidade de desertos informacionais, financiando um grande programa de envio de jornalistas experientes, como correspondentes fixos nas capitais e nas principais cidades fora dos grandes centros que merecem ser acompanhadas.

2)  Um programa de residência jornalística seria criado em parceria com as universidades, ONGs e o poder público para que estudantes de jornalismo ou jovens jornalistas de todo o país pudessem conhecer esses rincões do país e aprender com os correspondentes ali alocados nos meses de férias. O mesmo seria feito para estimular jovens que habitam essas regiões a se engajarem em fazer reportagem logo no início da faculdade.

3)  Um consórcio entre governos, Sebrae e outras instituições ligadas à inovação e empreendedorismo criaria programas de formação para jornalistas empreendedores locais. Bolsas, capital-semente e orientação seriam concedidos durante a implantação dos novos veículos.

4)  O poder público criaria um fundo de financiamento para o jornalismo local, vantagens tributárias não seriam descartadas, para estimular a criação de novos veículos.

5)  Jornadas de investigação por meio do design trariam insights sobre a vida das pessoas em suas comunidades, instigando a comunidade brasileira dedicada ao jornalismo de dados a produzir mais material sobre essa regiões e devolver conteúdos aos grandes centros, onde é pouquíssima a informação de qualidade produzida pelo eixo regional; Parcerias com grandes veículos de comunicação dariam reforço institucional e divulgação ao material produzido.

As possibilidades são muitas, os desafios também. O importante é estar ciente de que por si só o jornalismo digital não vai dar conta dos vazios informacionais do país. É preciso que haja uma política — no sentido mais amplo do termo — de conectar o olhar do grande centro com a verdade que emana das comunidades mais longínquas.

A menos de um ano para as eleições presidenciais de 2018, cabe nos perguntar se a cobertura que teremos será falha ou não. Haveria um jeito de unir veículos tradicionais com locais para criar um protocolo comum de atuação? Haveria interesse dos veículos em cobrir mais territórios? Ou de criarem parcerias locais para oferecer um olhar mais aprofundado e complexo sobre uma região?

São perguntas em aberto que, esperemos, chamem a atenção de todos em busca de novos insights para alguns dos mais importantes temas da atualidade: a transformação digital e o que vem depois.

 

Acesse o Atlas da Notícia - https://www.atlas.jor.br/explore

 

*Reproduzido de http://observatoriodaimprensa.com.br

**Adriana Garcia é diretora de Operações do Projor – Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo


Fonte: Tyrannus Melancholicus
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