Terça, 13 de fevereiro de 2018, 17h30
EXPOSIÇÃO
"Hipervisão", na Galeria Marilia Razuk

Sergio Romagnolo e Tyrannus

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"Tarde rosa e branca" (2018 - 200 x 260), óleo sobre tela de Sandra Mazzini

Inaugurada no dia sete passado, "Hipervisão" permanece aberta para visitação, na galeria paulistana Marilia Razuk,  até o dia 17 de março. Apresenta trabalhos de quatro artistas visuais que se utilizam de diferentes técnicas e suportes para mostrar suas respectivas criações. 

A curadoria é assinada por Sergio Romagnolo, escultor, pintor, desenhista, artista intermídia e professor, com expressivo currículo acadêmico e boa experiência profissional. Sua atuação como ativista das artes sexuais está sempre a propor uma reflexão sobre o contemporâneo. 

Abaixo, o Tyrannus reproduz o texto conceitual de "Hipervisão", assinado por Romagnolo.

Não existe razão para os artistas não utilizarem toda a tecnologia à sua volta. Uma cena provavelmente deve ter ocorrido. Um pintor, em 1872, chegando à beira do rio com sua tela e suas tintas, prepara todo o material e depois de umas duas horas começa a pintar. Ao mesmo tempo chega um fotógrafo, com seu equipamento precário, tripés pesados e negativos de vidro e em 30 minutos capta a imagem com todos os detalhes e vai embora. O pintor ainda está no esboço. Nesse momento é bem provável que o pintor comece a questionar se essa fotografia é mesmo boa. Pensa em fazer uma pintura impossível de se fotografar, um sol nascendo, com pouca luz e muita cor. Pensa em fazer uma imagem como se fosse uma máquina fotográfica melhor do que a máquina fotográfica. Claude Monet fez a “Impressão, Nascer do Sol”, 1872, de modo que nenhuma fotografia pudesse ser feita e se tentassem o sol se transformaria numa linha cinza no céu. Provavelmente Monet deve ter em algum momento usado alguma fotografia, mas também deve ter pensado em melhorar a fotografia.

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Xilogravura sem título (2016 - 66 x 72) de Luisa Almeida

Da mesma forma coma digitalização da imagem alguns artistas procuram fazer pinturas melhores do que os computadores e as máquinas digitais são capazes de produzir, mesmo fazendo uso de toda essa tecnologia se quiserem. Usam a tecnologia e questionam a tecnologia.

Esta exposição mostra quatro artistas que procuram enxergar mais longe do que as máquinas, querem pensar a imagem, analisar seus limites, olhar para o interior das formas. Querem trabalhar com uma visão melhorada, instrumentalizada, ampliada, como se fossem, eles mesmos, parte dessa engenharia da visão. Procuram ampliar o alcance ótico e retiniano, ao mesmo tempo que realizam analises conceituais da imagem. É uma pintura  mediada por tecnologia tanto física como mental, tanto digital como sociológica.

Sandra Mazzini e Felipe Morelatto se valem de processos de desmembramento da visualidade. Por outro lado, Luisa Almeida e Lourdes Colombo analisam de uma certa forma social a figura da mulher do ponto de vista da sua subjetividade.

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"Mulher de blusa branca" (2017 - 140 x 100), óleo sobre tela de Lourdes Colombo

Pinturas coloridas, de certa forma até tradicionais, mas quando se olha melhor elas apresentam uma grade geométrica desencontrada, com falhas nas emendas, assim são as pinturas de Sandra Mazzini. Parecem recortadas e remontadas. São paisagens melancólicas, sem sol, sem extremos. Claramente a pintora quer analisar e entender a imagem, quer que a pintura seja um filtro racional sobre a visão. Do mesmo modo, Felipe Morelatto procura desmontar as suas formas urbanas com carros, pessoas e estações de metro. A diferença aqui é que essas figuras desmontadas não são remontadas, permanecem em pedaços caídos na tela, mas esse processo também é calculado e mediado pela separação das cores, como se a pintura fosse uma serigrafia com muitas matrizes.

De outra forma a figura feminina aparece nas pinturas de Lourdes Colombo, sem filtros óticos, mas com olhar inquisitivo e questionador. As mulheres inicialmente sensuais se deformam com o olhar continuado do observador. Elas olham de volta com olhar medusante, como diz Hubert Damisch em seu livro “A Origem da Perspectiva”, esse olhar congelado quando se olha para os próprios olhos no espelho. Esses corpos esticados como bonecas de pano desafiam e atraem pelo mistério que eles contêm. As mulheres também são fortes, podem ser soldados, podem usar armas e fazer revoluções. Assim são as xilogravuras de Luisa Almeida. Podem ser de grande formato, mas sem perder os detalhes, executadas incansavelmente, mostram força no tema da luta política e muita delicadeza nos detalhes das estampas geométricas e composição das cenas. São linhas limpas, nítidas, mostrando a precisão e a técnica do corte da madeira raramente vista nessa linguagem.

Cada inovação tecnológica parece estimular os artistas a ampliarem os limites da arte, indo mais além do que a tecnologia ou indo na direção oposta, virando as costas para ela, ou a visão ampliada ou a opacidade ampliada. 

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"Proximidade" (2017 - 100 x 120), acrílica sobre tela de Felipe Morelatto

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"Impressão, Nascer do Sol", trabalho de Claude Monet (1840-1926), datado de 1872. Tudo a ver com o conceito de "Hipervisão"



ATENÇÃO: na quinta-feira (15) o tyrannus vai publicar o milésimo poema, sem repetição de versos ou poetas. 

 


Fonte: Tyrannus Melancholicus
Visite o website: http://www.tyrannusmelancholicus.com.br/