Sábado, 14 de abril de 2018, 18h04
ESCRITORA ÚNICA
Autora é homenageada na Flip 2018

Claudia Nina no JB

hilda

Hilda Hilst (1930-2004) foi uma poeta, ficcionista, cronista e dramaturga brasileira. É considerada pela crítica especializada como uma das maiores escritoras em língua portuguesa do século XX

Imaginar como Hilda Hilst se movimentaria diante das performáticas encenações de empoderamento feminino (palavra que provavelmente ela não usaria, em troca de outra menos infeliz) é também um trabalho de repensar o espaço (estreito) da literatura escrita por mulheres, tanto no mercado editorial quanto no que se refere à conquista dos leitores. Qual o espaço que hoje se reserva a uma autora que clamava o desejo de ser lida, absorvida, vivida, e que fez da linguagem literária, em todos os gêneros, seu grito de libertação, ousadia e confronto? 

“Você bagunça o coreto total, choca completamente a paróquia, empreende a derrubada de toda uma estrutura já histórica de mal-entendidos literários. (...) Isso é genial, muié”, escrevia Caio Fernando Abreu à amiga, em uma longa carta, publicada em “Cadernos de literatura brasileira” (Instituto Moreira Salles). 

Esta “bagunça” se dá não somente no incômodo proposital da trilogia obscena (“O caderno rosa de Lori Lamby”, “Contos d’escárnio” e “Cartas de um sedutor”), ou outros textos pornográficos (“Bufólicas” e “Berta & Isabô”). A atmosfera erótica como uma espécie de estado febril está em grande parte de sua vasta obra poética, por exemplo. “O primeiro verso surge como um fluxo sanguíneo, e é sempre um espanto”, disse ao JB em 1989, em entrevista reproduzida na edição da poesia completa, pela Companhia das Letras, de 2017. Em junho, a editora vai lançar a prosa reunida, com textos como “Não te moves de ti”, “Com meus olhos de cão e outras novelas” e “A obscena Senhora D”. 

O espanto é o de quem não suportava “o estado normal das coisas” e parecia mover suas retinas diante de realidades diversas, como a morte, o sagrado, o amor. “Nós, poetas e amantes/o que sabemos do amor?/Temos o espanto na retina/diante damorte e da beleza/Somos humanos e frágeis/mas antes de tudo, sós”. Solidão e isolamento foram a opção de Hilda quando se enfurnou em uma fazenda, a Casa do Sol, nas vizinhanças de Campinas. E, nos anos 1990, viveu em seu exílio particular a dedicação às “adoráveis bandalheiras”, as tais obras pornográficas, com o objetivo de chocar e de ser consumida, na tentativa de romper a névoa que encobria seu nome por décadas. Nem a poesia, poderosa e belíssima, que soava como “a hora dos trombones”, como dizia, nem os outros textos em prosa, foram suficientes para que um maior número de leitores a buscasse. Foi preciso que produzisse uma forma de expressão (indigesta para muitos), a fim de que sua literatura gritasse. Se o mergulho no pornográfico agiu como ela desejava, não cabe aqui avaliar. Só a ressalva: Hilda Hilst só se completa em sua personalidade literária tendo em perspectiva esta “bandalha”. 

A reflexão de hoje: qual é o espaço de Hilda Hilst no gosto das novas gerações? A escolha da autora como homenageada na Flip 2018 vai ajudar a definir isso, sobretudo em um tempo em que se intensificam as discussões em torno da luta das mulheres em busca de espaços no sistema literário que muitas vezes (incontornável) privilegia homens. 

Outra pergunta fundamental é como se aproximar de Hilda em um primeiro contato - em que porta, dentre tantas, bater para começar a conhecer as perplexidades de uma autora inclassificável? Uma dica: ‘A obscena Senhora D’ é para mim um dos romances (gênero importa?) mais intensos e corajosos da literatura contemporânea. 

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“Você bagunça o coreto total, choca completamente a paróquia, empreende a derrubada de toda uma estrutura já histórica de mal-entendidos literários. (...) Isso é genial, muié” (Caio Fernando Abreu para Hilda)

Hilda dizia que neste texto a prosa havia nascido com o ímpeto da poesia. Fato. A obra, pequena em extensão, mas vastíssima em sentidos múltiplos, conta a história da mulher viúva de 60 anos que decide morar no vão de uma escada. Este é o fiapo do enredo. O texto é gigante; a linguagem, devastadora. Tudo é tocado sem concessões, nenhum pudor. Isso é que é empoderamento – voz às invisibilidades, no caso a uma senhora atormentada que estaria na penumbra, não fosse a autora dar-lhe contornos líricos, soturnos, dramáticos, eróticos, filosóficos.

“(...) abro a janela nuns urros compassados, espalho roucos palavrões, giro as órbitas atrás da máscara, não lhes falei que recorto uns ovais feitos de estopa, ajusto-os na cara e desenho sobrancelhas negras, olhos, bocas abertas? (...) há uma desastrada lembrança de mim mesma, alguém-mulher querendo compreender a penumbra (...) alguém-mulher caminhando levíssima entre as gentes, olhando fixamente as caras, detendo-as no aquoso das córneas, no maldito brilho”. 

Nenhum assunto deve ser temido ou evitado nesta revista ao pensamento e ao corpo. E também ao corpo dos outros. “Se a gente mastigasse a carne um do outro, que gosto?” Quantos leitores se encantarão por tudo o que Hilda desassombradamente criou é uma interrogação. É uma obra a ser descoberta. Há muito pela frente. O obsceno profundo desta senhora é uma imensidão. Como escreveu em um verso: “Se viveres em mim, vereis até onde me estendo”.

*Reproduzido de http://www.jb.com.br . Claudia Nina é jornalista e escritora 

 


Fonte: Tyrannus Melancholicus
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