Sábado, 12 de maio de 2018, 18h00
ENTREVISTA
Julián Fuks, filho de psicanalistas

Felipe Sánchez, no El País-Brasil*

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"Não costumava chorar com notícias, agora choro. Ainda procuro, na solidão das madrugadas, os sem-teto, sem-rosto, soterrados na foto do jornal"

Julián Fuks (São Paulo, 1981) é filho de um casal argentino que chegou ao Brasil fugindo da ditadura militar que governou a Argentina entre 1976 e 1983. Seus pais são psicanalistas, ou seja, lhe “ensinaram a desconfiar dos conselhos, a olhar com suspeita cada mísera frase”. Um interessante treinamento para alguém que iria acabar se tornando um escritor e que vai muito além da obsessão pela palavra precisa de Flaubert. Fuks publicou em 2015 "A Resistência", um romance sobre o exílio e a identidade que lhe rendeu vários dos mais prestigiados prêmios da língua portuguesa e outros reconhecimentos no exterior.

O que queria ser quando criança?
Escritor. Só adulto fui descobrir que devia ter sido jogador de futebol.

Bem, Maradona ou Pelé?
Maradona. O futebol em si é mero detalhe; Maradona é um personagem muito mais vivo, mais profundo, mais complexo. Pergunte agora sobre Messi e Neymar.

Qual seleção quer ver campeã na Copa da Rússia?
Difícil dizer. Torcer para o Brasil é inescapável. Mas há tantas vitórias possíveis mais bonitas do que a nossa. Quem sabe a vitória do Uruguai, só para ver o sorriso do Mujica.

Qual é o último livro que te fez rir às gargalhadas?
"A Viagem do Elefante", de José Saramago. Acho que Saramago é o único autor que já me fez rir alto e chorar envergonhado.

Quem seria seu leitor perfeito?
Alguém que viva este tempo, que pense este tempo, e se importe com a dor e com a beleza. Queria ser eu mesmo esse leitor.

Que livros você tem em sua cabeceira?
Neste momento, "Fuerzas especiales", de Diamela Eltit. Todos deveriam ter em sua cabeceira, em algum momento, a presença desconfortável de Diamela Eltit.

Que livro mudou a sua vida?
"Ulisses", de James Joyce. Mas minha vida particular é o de menos. "Ulisses" mudou a vida inteira da literatura.

Qual é sua rotina diária para escrever?
Acordo, cuido da minha filha, cuido de todo o resto e então finalmente demoro. Deixo que as horas passem, angustiado. Quando já não me sobra tempo, escrevo enfim, movido pela culpa.

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"Todos deveriam ter em sua cabeceira, em algum momento, a presença desconfortável de Diamela Eltit"

Que música ouve para escrever?
No ato da escrita, só o silêncio. Pouco antes da escrita, alguns versos bons, feitos de pura cadência.

Que esportista, personagem literário ou cinematográfico se parece com você?
Sou o típico personagem do romance moderno: nada mais que um comum imerso em seus dramas comuns.

Com quem gostaria de sentar-se em uma festa?
Com aqueles com quem me sento quase sempre, minha mulher, meus amigos próximos. A intimidade é a melhor das festas.

O que significa ser um escritor?
É o que tento descobrir já há uns quantos anos, mas acho que ainda me faltam décadas.

Que livro presentearia a uma criança para introduzi-la na literatura?
"Chapeuzinho amarelo", de Chico Buarque. Para que perdesse o medo do lobo escondido em cada palavra.

Qual é seu lugar favorito no mundo?
Minha própria casa, a rede da sala, minha filha no colo.

Que livro gostaria de ter escrito?
"Bartleby, o Escrivão", de Herman Melville. Mas prefiro não escrevê-lo.

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"Enxergar o passado, próprio ou alheio, como se de fato existisse em algum lugar"

Quando foi a última vez que chorou?
O mundo anda triste. Não costumava chorar com notícias, agora choro. Ainda procuro, na solidão das madrugadas, os sem-teto, sem-rosto, soterrados na foto do jornal.

Com quem gostaria de ficar preso em um elevador?
Com alguém capaz de consertá-lo. MacGyver?

Qual é o melhor presente que recebeu?
Minha mulher me deu, há muitos anos, "A Rosa do Povo", de Carlos Drummond de Andrade. Tudo o que pude fazer começou ali.

Que superpoder gostaria de ter?
Enxergar o passado, próprio ou alheio, como se de fato existisse em algum lugar.

Onde não gostaria de viver?
Nesse passado que eu enxergasse, em qualquer passado.

O que diria ao presidente Michel Temer?
Diria: isto não é um presidente, você não é um presidente. Já se deu conta do papel nefasto que ocupará em nossa história?

*Reproduzido de https://brasil.elpais.com

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Fonte: Tyrannus Melancholicus
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