Terça, 01 de dezembro de 2020, 19h00
PROSA
O corpo de Luzia e o corpo do texto*

Luiz Renato Souza Pinto

Tenho observado uma movimentação interessante na literatura escrita por mulheres. Primeiro foi com Aline Bei, depois Calí Boreaz, após, Letícia Bassit e também com Susana Fuentes; são atrizes. Em um tempo em que a palavra não sustenta sozinha o espaço cênico, essas mulheres avançam a página com suas performatizações. O resultado são obras em prosa e verso que diversificam a temática inerente ao corpo. E o corpo do texto é quem ganha. E os leitores desnudam seus livros em busca dos  significados recônditos que se escondem na cochia de cada sintagma. E, ao pé do ouvido, ouço uma voz que me sopra uma atribuição conceitual que me perpassa:

No uso mais geral, performance se refere de modo imediato a um
acontecimento oral e gestual. Daí certas consequências metodológicas para
nós, quando empregamos o termo nesses casos em que a própria noção de
oralidade tende a se diluir e a gestualidade parece desaparecer. (ZUMTHOR,
2018, p. 36).

 

Susana está de livro novo, mas vou falar de “Luzia”, de 2011, publicado pela 7letras. Estou sempre atrasado, pois insisto em escrever sobre os livros que me atraem, e necessariamente não são os mais recentes, os de agora, mesmo que os tenha em mãos. Embora nunca saiba quando serão lidos, a vontade é inconteste. Aprendo com “Luzia” que “Não é a página em branco que me assusta, é tudo que virá nela” (FUENTES, 2011, p. 13). E o leitor em que me transformei aceita as transformações de quem narra, que por sua vez assume a vida do narrado; no caso, Luzia. “Quando terminar eu lhe deixo para ser outra” (idem, p. 14).

Entre caixas e gavetas se percorre o interdito da escrita. E do Maraberto sopram ventos uivantes. “Luzia avança na chuva enquanto alcança a noite, apaga a lembrança da colina, da gruta, da mãe no quarto e volta àquele dia, quando o pé doía ao tocar o chão, queria subir na árvore, voltar à árvore arrancada, partida, e agora caminha para frente sem parar” (idem, p. 48). O maraberto parece despejar suas águas nas ruas de Esperança.

As analogias com a vida e a obra, com a realidade do cotidiano e a da ficção, permitem a Luzia que interpenetre em outras cavidades da atividade cerebral. É como se voltasse para dentro do corpo o que dele saiu em forma de pensar. Susana Fuentes manuseia a escrita como quem planta árvore, semeia em cada cova o futuro vegetal. Aduba o terreno para que se erija o caule; suculento, seu escrito envia e recebe nutrientes nessa via de mão dupla; esse contato com o leitor que sorve e retroalimenta o objeto, pois, sabe que “Há que se plantar de volta a raiz. Fincar o lápis no livro, no caderno” (idem, p. 49).

Imagens delicadas de uma violência urbana se despregam de cada página. “As águas atravessam o Leblon da Lagoa ao mar, na viagem lenta do lixo arremessado” (idem, p. 51). E com ela, após a tempestade, viajam nas águas urbanas as percepções do leitor, para quem

Da performance à leitura, muda a estrutura do sentido. A primeira não pode
ser reduzida ao estatuto de objeto semiótico; sempre alguma coisa dela
transborda, recusa-se a funcionar como signo... e todavia exige interpretação:
elementos marginais, que se relacionam à linguagem e raramente codificados
(o gesto, a entonação), ou situacionais, que se referem à enunciação (tempo,
lugar, cenário). Salvo em caso de ritualização forte, nada disso pode ser
considerado como signo propriamente dito – no entanto, tudo aí faz sentido.
(idem, p. 69).

 

Luzia parece ser vários em uma; um corpo refém de personalidades furtivas. O que talvez me lembre do fenômeno da heteronímia de Fernando Pessoa. Em texto de 1910 publicado em sua obra completa em prosa, o vate reflete sobre a capacidade de enxergar para além de si quando o assunto era a poesia. E que não se pense aqui em gênero, mas em linguagem, ora, pois, pois.

 

A poesia encontra-se em todas as coisas – na terra e no mar, no lago e na
margem do rio. Encontra-se também na cidade – não o neguemos – é
evidente para mim, aqui, enquanto estou sentado, há poesia nesta mesa, neste
papel, neste tinteiro; há poesia no barulho dos carros nas ruas, em cada
movimento diminuto, comum, ridículo de um operário, que do outro lado da
rua está pintando a tabuleta de um açougue. (PESSOA, 1986, p. 36-37).

 

É este o convite que a prosa de Fuentes traz para o leitor. Um mergulho em si e do qual não sairá o mesmo após a imersão. “Luzia, à parte disso, tinha todos os sonhos do mundo. E toda a ternura. Mas reparou que para amar há que se nomear as coisas”. (FUENTES, 2011, p. 68). Mulher, bicicleta, varal e navio: quatro palavras que absorvem o universo de Luzia. O feminino, as rodas, a linha e as quilhas cortando as águas, meadas de uma tessitura que me remete a Clarice, para quem “O que me consola é a frase de Fernando Pessoa, que li citada: ‘Falar é o modo mais simples de nos tornarmos desconhecidos’”. (LISPECTOR, 2018, p. 147).

Susana Fuentes é atriz, como se sabe, mas não se contenta com o palco e vem para o branco da página ocupar os seus vazios; para preencher as lacunas com o que tem de melhor. E a palavra acontece como seus movimentos em cena. “Assistir a uma representação teatral emblematiza – todo ato de leitura. É no ruído da arquipalavra teatral que se desenrola esse ato, quaisquer que sejam os condicionamentos culturais. (ZUMTHOR, 2018, p. 58).

 

“Luzia” é um romance que traz para além do corpo o trauma do estupro; mas, sem o estupor do excesso, apenas a chaga exposta a confiar no leitor a expectação. O corpo é um templo, portanto, sagrado. Daí compreende-se que “Um deus ficou sem casa. Luzia vê o sangue no lençol. Vai até a porta, ele a deixa ir. Ela vira a chave, torce a maçaneta, olha a chuva aqui” (FUENTES, 2011, p. 131). Não faço resenhas, gosto de trazer à luz algumas percepções para que o leitor se sinta curiosamente convidado ao mergulho pessoal.

 

REFERÊNCIAS

FUENTES, Susana. Luzia. Rio de Janeiro: 7Letras, 2011.
PESSOA, Fernando. Predomínio do sentido interior. In: Fernando Pessoa. Obras em
prosa. BERARNDINELLI, Cleonice (org.) Rio de Janeiro: Nova Aguillar, 1986.
ZUMTHOR, Paul. Performance, Recepção, Leitura. São Paulo: Ubu, 2018. 

 

*Texto de Luiz Renato Souza Pinto, poeta, escritor, ator e professor. Colabora mensalmente com o tyrannus, através da coluna LETRAS DELAS, onde envereda por literaturas escritas por mulheres

susana fuentes

A carioca Susana Fuentes estreou nas letras com o conto "Sumaúma e reco-reco", em 2004, na revista Ficções. Seu primeiro romance "Luzia" (2011), obra finalista do Prêmio São Paulo de Literatura (categoria autor estreante), é o objeto desta resenha/crônica, assinada pelo colaborador do tyrannus, Luiz Renato Souza Pinto. Susana é doutora em literatura comparada (UERJ), e também tradutora. Verteu para o português, do russo, obras dos autores Tchekhov e Gogol


Fonte: Tyrannus Melancholicus
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