EM SÃO PAULO

"Mundos Possíveis", de Hilma af Klint



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As obras da artista oferecem várias e poderosas visualizações do que poderia ser uma noção holística do mundo

O mundo não estava preparado para Hilma af Klint. Durante todo o século 20, a crítica, o mercado e a história da arte não estiveram capacitados para a leitura e a absorção de uma obra de complexidade semiótica como a criada pela artista sueca, nascida em 1862. Quando aos 80 anos ela determinou que sua obra ficaria guardada pelas próximas duas décadas, ela não imaginava que a civilização moderna precisasse ainda de meio século para ganhar a maturidade necessária para um primeiro contato. 

“A arte de Hilma af Klint aborda a incapacidade dos meios existentes em descrever o sistema do qual fazemos parte. Suas obras nos oferecem várias e poderosas visualizações do que poderia ser uma noção holística do mundo”, afirma Jochen Volz, diretor geral da Pinacoteca e curador de “Hilma af Klint: Mundos Possíveis”, ao lado de Daniel Birnbaum, diretor do Moderna Museet, de Estocolmo.

Para “aprender a ler” as mensagens que Hilma af Klint escreveu para o futuro, é preciso despir-se de (quase) tudo o que o século 20 ensinou sobre prática e teoria da arte. Não servem leituras formalistas nem conceitualistas. Entram no jogo questões filosóficas, espirituais e botânicas – bases que ela deixou anotadas em cerca de 26 mil páginas de cadernos manuscritos. Mas embora esses guias não sejam de fácil acesso aos públicos das exposições que nos últimos cinco anos rodaram Alemanha, Espanha, Dinamarca, Noruega, Estonia e Estados Unidos, sua pintura hoje tem, por si só, o poder da comunicação.

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Para aprender a ler as mensagens que Hilma escreveu para o futuro, dispa-se de (quase) tudo o que o século 20 ensinou sobre prática e teoria da arte

A série “As Dez Maiores” (1907) tem uma qualidade quase didática de introdução aos conceitos gestados em toda uma vida dedicada a estudos espirituais e às filosofias místicas, como a Ordem Rosa-Cruz, a Teosofia e a Antroposofia, do contemporâneo Rudolf Steiner, que por muitos anos foi único espectador de sua obra abstrata. A divisão do conjunto em infância, juventude, idade adulta e maturidade (velhice) aponta para a importância que os processos evolutivos e os ciclos temporais tiveram no discurso da artista. A totalidade da série, exposta nas duas primeiras salas da exposição na Pinacoteca, sugere as fases de crescimento do corpo humano. Mas esse corpo pode ser interpretado como a própria totalidade da obra de Hilma af Klint. “As dez maiores” são um espelho de seu pensamento.

Desnecessário ler o glossário de símbolos para compreender, por exemplo, as referencias a fertilidade e aos processos de crescimento (físico, mental e espiritual) implícitos nessas grandes telas. Da ilegibilidade das caligrafias das telas do nascimento – que indicariam a linguagem em fase embrionária –, até a progressiva geometrização das formas na idade adulta e na velhice, af Klint revela seus processos de organização e síntese.

É na série de desenhos automáticos produzidos no grupo As Cinco, nesta exposição exibida na íntegra por primeira vez, que a simbologia da semente e do embrião, como núcleos formadores de toda sua poética, ganha clareza. Nestes desenhos, realizados quando a artista passava por anos de treinamento espiritual na companhia de quatro amigas, evidenciam-se como seus trabalhos são nutridos pelas formas esféricas, orgânicas e espirais. Formas que, segundo a curadoria, fecundariam outros “mundos possíveis”, em resposta às demandas de um tempo que não era o seu.

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A exposição fica em cartaz na Pinacoteca, em São Paulo, até 16 de julho

A exposição concentra-se na produção abstrata que, a partir de 1906, coexistiu com a produção naturalista. Da pintura naturalista, a Pinacoteca optou por apresentar um conjunto de aquarelas botânicas, realizadas entre 1890 e 1919, posicionadas bem no centro da mostra, como um coração de onde tudo irradia, criando diálogos com suas pesquisas sobre os planos energéticos da natureza.

Mas por que só hoje, em um tempo de incertezas, de mudanças climáticas, de esgotamento de ideologias e da governança política tradicional, é que damos atenção ao trabalho de Hilma af Klint? “O mais provável é que af Klint tenha conseguido, através de sua obra, imaginar e descrever visualmente um mundo que corresponde à nossa busca contemporânea por sentidos novos e alternativos”, diz Jochen Volz.

Entre as mensagens cifradas que a artista encapsulou de maneira pioneira em sua obra, antes de todas as pesquisas de interatividade com o espectador, vem a revelação de que a relação com a arte não é meramente contemplativa – mas fundamentalmente física, astral ou etérea.

 

*Reproduzido de https://www.select.art.br

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À esquerda, "As Dez Maiores Nº 6" e à direita "As Dez Maiores Nº 7", obras criadas em 1907

 

 


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