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Marx: 200 anos depois de seu nascimento



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Com mais de 800 páginas, transita da sua vida privada à pública

A alienação, a luta de classes, a mais-valia, o capital. O trabalho como valor, o materialismo histórico, o choque entre as forças produtivas e as relações de produção. A ditadura do proletariado, o comunismo. Essa salada de conceitos remete sobretudo a um pensador: Karl Marx (o outro, sempre em segundo plano, é seu amigo Friedrich Engels). Veio ao mundo em Trier, ao sudeste da Renânia, em 5 de maio de 1818, e duzentos anos depois de seu nascimento sua descomunal obra continua submetida a escrutínio. 

A biografia de Gareth Stedman Jones tem o enorme valor de livrar o personagem dos lastros que o transformaram no grande mito da revolução, devolvendo seu pensamento ao mundo onde surgiu. "Karl Marx. Grandeza e Ilusão" (Companhia das Letras; tradução de Berilo Vargas), com mais de 800 páginas, transita da sua vida privada à pública, dos seus estudos ao alarido da política, mergulha em suas referências, dá conta de seus desafios e mostra as contradições e os feitos daquele longínquo filósofo e homem de ação cujas ideias terminaram por transformar radicalmente o mundo numa direção que ele nem sequer chegou a imaginar.

Prússia, por volta de 1835. É a época em que Marx estuda em Bonn e Berlim e entra em contato com as ideias dos jovens hegelianos. “A crítica de todos esses pensadores radicais às limitações do cristianismo para transformar o mundo se acendem no jovem Marx”, diz Stedman Jones, catedrático de História das Ideias na Universidade de Londres.“Há também outros elementos que influem num ambiente carregado pelo interesse na questão social. Nem a revolução de 1830 na França, que não conduz a uma verdadeira república, e sim a uma monarquia que só oferece maiores direitos a uma minoria, nem as reformas na Inglaterra, que não conseguem ampliar o sufrágio a amplas camadas da população, produziram mudanças consideráveis.” De modo que os operários começam a se organizar. O jovem Marx passa a escrever em revistas.

Transformar o Estado prussiano em um Estado racional não chega a funcionar, as publicações radicais são fechadas, e Marx se muda para Paris. Ali irá forjar sua amizade com Friedrich Engels durante intensos dias do verão de 1844. Marx é o editor de uma publicação no exílio, os Anais Franco-Alemães, aonde chega um texto de Engels que questiona a economia política do capitalismo e onde menciona a crítica de Proudhon à propriedade. Suas ideias lhe interessam. Eles vão se conectar: é o momento não só de interpretar o mundo, mas também de transformá-lo. “São pessoas muito diferentes no que diz respeito à sua formação política e teórica. Engels se conecta com as inquietações sociais do socialista utópico Robert Owen e não sabe nada de Hegel, inspiração central de Marx. Mas ambos se interessam por Feuerbach, que mostrou as limitações do cristianismo e considera que é tarefa do movimento operário restaurar o verdadeiro humanismo”. Chegou a hora de emancipar a classe operária. Marx e Engels começam a trabalhar no Manifesto Comunista, que o primeiro conclui em janeiro de 1848.

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Karl Marx em 1861

Em fevereiro eclode a revolução na França, e pouco depois ela se projeta por outros lugares da Europa. “Não é tanto o que o proletariado gostaria de fazer, e sim o que lhe cabe fazer como classe, isso é o que defendem”, observa Stedman Jones. Mas outro pensador, Max Stirner, critica essa leitura: “Como que uma prioridade dos trabalhadores seria emancipar a humanidade? Isso soa a cristianismo. Marx se empenha demais em lhe responder, mas não chega a ser convincente. É coisa da luta de classes, acaba dizendo, mas não é senão um desejo. Não uma realidade, como pretende sua teoria”.

Fracasso e comuna

A revolução fracassa. “Os trabalhadores lutaram então pelo sufrágio universal e por ter emprego, aquilo não teve nada a ver com uma sublevação do proletariado contra a burguesia. O que pretendiam era serem reconhecidos como cidadãos da república”, diz Stedman Jones. Marx se transfere então para Bruxelas, começa a trabalhar em O Capital, continua vinculado aos movimentos operários. Com o tempo surge a Primeira Internacional, as lutas do proletariado começam a se canalizar através dos sociais-democratas. Marx se torna um mito quando defende, em 1870, a Comuna de Paris. Em 1883 morre em Londres, onde havia se instalado definitivamente em 1849.

“É Engels que defende que o capitalismo vai desmoronar por suas próprias contradições”, explica Stedman Jones.“Marx não acredita que a revolução será um acontecimento. Não é a tomada da Bastilha, e sim um processo, uma transição que se parece mais com a que ocorreu do feudalismo para o capitalismo”.

E como ele imaginava o comunismo? “Os que se chamavam comunistas, lá por 1840, eram os que acreditavam em compartilhar a propriedade. Engels era um deles. Marx, não. Ele pensava mais numa volta às origens da sociedade. Quando entre aqueles longínquos caçadores e coletores havia mais recursos que pessoas, uma certa abundância, não fazia sentido falar em propriedade, que é algo que só surge quando há escassez. Tudo isto é de Adam Smith. A fantasia de Marx era que a sociedade industrial geraria tantos recursos que já não seria necessária nem a propriedade, nem as leis, nem os Governos, nem o Estado”. Desse projeto decorreu todo o resto.

Uma vida difícil (e burguesa)

A família de Marx era judia, mas seu pai se batizou na Igreja evangélica da Prússia em algum momento entre 1816 e 1819. Karl se casou em 1843 com Jenny Westphalen, uma jovem de uma família aristocrática que depois também ingressou na Liga dos Comunistas. Tiveram sete filhos, dos quais quatro morreram ainda crianças, e só três mulheres sobreviveram, das quais duas posteriormente viriam a se suicidar. Desde muito cedo viveu com eles Lenchen, uma criada que herdaram da família Westphalen, e que teve um filho com Marx. A pobreza foi o grande pesadelo que os acompanhou durante longos momentos da sua vida. Sem a ajuda econômica de Engels, que procedia da família de um rico industrial, Marx não teria podido se dedicar à sua obra.

“Era um pai de família que queria controlar tudo”, conta Stedman Jones. “Uma das suas filhas se apaixonou por um communard francês, mas Karl e Jenny preferiam que se casasse com alguém mais respeitável. Então não lhe permitiam vê-lo. A moça teve que encontrar um trabalho em Brighton para manter a relação, mas até lá a mão da sua mãe chegou. E aquilo não prosperou. Quiseram sempre manter a imagem de uma família burguesa respeitável. Quando Lenchen ficou grávida, os Marx decidiram contar que o responsável era Engels. E este, em seu leito de morte, e como não podia falar porque tinha um câncer de língua, escreveu com giz em uma lousa: 'Eu não fui o pai, o pai foi Marx”.

 

*Reproduzido de https://brasil.elpais.com


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