LANÇAMENTO

“O filósofo do deserto”



filosofo

 

"O medo do esquecimento apavora, por isso todos querem deixar suas pegadas.” “O mundo não me intimida só porque é violento ou caótico. Inquieta-me o que nele há de pequeno e silencioso, e a sua sedução fabricada.” Esses dois trechos são do romance “O filósofo do deserto” (Ed. Multifoco, 330 páginas), do escritor Márcio Salgado. O livro narra a história do filósofo Antônio Brás, refugiado e vivendo uma situação-limite.  

Não há personagens caudalosos ou trágicos. Brás, talvez seu alter ego, empreende uma viagem para consagrar sua inquietação. A literatura está nos autores de forma variada, e, quem sabe, isso seja seu grande logro. Nem sempre o leitor é surpreendido com grandiloquência ou tramas e desfechos encantadores. Há outros espaços. 

No caso deste livro, Antônio Brás, o livreiro Agostinho e Dolores são despistes para a escrita prosseguir seu caminho, entre dúvidas e comentários breves. Estamos falando de quase um relato, uma crônica filosófica, um texto que não deseja agarrar o leitor, impor-lhe uma avaliação, e, menos ainda, suscitar nele sinais de acomodação. “Então sigo tranquilo, no mesmo passo, pois é dessa forma que se percorrem os grandes desertos que separam os homens.” 

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António Manuel de Assunção Braz Teixeira (Lisboa, 21 de Julho de 1936) é um escritor, ensaísta, historiador, filósofo, docente universitário e tradutor português.

A narrativa de “O filósofo do deserto” leva o leitor a uma cumplicidade amorosa e divertida, sem a obrigatoriedade de gostar. Como se observa no prólogo do romance: “Escrevo com temor estas linhas, o ofício de escritor está fora do meu escopo. O leitor perguntará porque o faço. Logo direi, para que não se perca tempo e oportunidade: faço-o por um dever de consciência.” Sabe-se que as narrativas são multitudinárias, estão por toda parte, embalando romances, contos, tragédias, comédias e até mesmo bilhetes e cartas. Onde houver uma frase a narrativa está presente. 

Mas em “O filósofo do deserto”, a narrativa prescinde da história. Antônio Brás tece os seus comentários a partir das experiências vividas, mas de uma forma muito particular, sem se deter a aspectos comuns a outras ficções, como a obediência a um enredo preestabelecido. E o que dizer da mathesis encarnada nos personagens de um romance? Descartes defendia uma razão comum a todos os seres humanos, mas percebeu que o modo de usá-la diferia de pessoa para pessoa. Mas a razão aqui vem recheada de conflitos e paradoxos. Tomamos conhecimento de Dolores na sua rotunda afirmação: “Ah! Gosto de comparar coisas incomparáveis.” Estamos diante de uma escrita que prepara sua consciência, sem enunciar certezas, talvez um ioiô de gestos. “Admiro os que procuram o sentido da vida nos pequenos atos, os que riem dos seus dramas, glosam as suas tragédias. Quando digo tchau anuncio o começo de uma nova aventura, não determino como será o percurso. O viajante sabe que o desapego ilustra a paisagem.”

A narrativa – embora com séculos de afastamento – de alguma forma se encontra com a de Montaigne, que não empreendia caminho para dele voltar: “empreendo-o apenas para me mexer, enquanto o movimento me agradar.”

Segundo Marcio Salgado, o romance filosófico apresenta numa linguagem ficcional questões de natureza filosófica. “A filosofia produz conceitos e baseia-se na argumentação a fim de encontrar a verdade. A ficção produz metáforas, e não conceitos. Não busca a verdade, senão aquela que se depreende da sua própria invenção.” Márcio Salgado é baiano e mora no Rio há muitos anos. Publicou o romance “O domador” e a coletânea de poemas “O indizível”, entre outros livros. Graduado em Jornalismo, tem especialização em Teoria da Literatura, e doutorado em Comunicação Social (ECO/UFRJ).

*Texto do jornalista Gerson Brasil, reproduzido de http://www.jb.com.br

 


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