LANÇAMENTO

Dia 13 de julho, na UFMT



cruzadas

 

Há mais de mil anos, os bispos tinham funções que, por vezes, eram distintas entre si. Ao mesmo tempo em que propagam a fé cristã, pegavam em armas e iam para os campos de batalhas. As nuances deste momento e como relações tão antigas ainda reverberam no cotidiano estão presentes em “Bispos Guerreiros: violência e fé antes das Cruzadas”. A obra, publicada pela Editora Vozes, é de autoria do professor Leandro Rust, docente do curso de História da UFMT. O lançamento do livro, em Mato Grosso, acontece no dia 13, a partir das 19h, no auditório do Instituto de Geografia, História e Documentação (IGHD).

Segundo o docente, a obra é o resultado de uma pesquisa que dura três anos e, mesmo com sua publicação, não foi encerrada. O início foi durante uma investigação no pós-doutorado, realizada na Catholic University of America, em Washington (EUA), e financiada pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). “No ano seguinte, continuei a desbravar o tema aqui em Cuiabá, como um projeto de pesquisa acolhido pela UFMT”, relata. 

Apesar da distância cronológica entre a publicação e a ocorrência dos fatos, o docente explica que material para a pesquisa não é de difícil acesso. “A era dos ‘Bispos guerreiros’ deixou-nos uma generosa trilha de evidências: epístolas, diplomas, atas conciliares, opúsculos e, principalmente, crônicas. Registros de próprio punho são raros: aquele que busca a perspectiva dos bispos guerreiros sobre o mundo, quem busca ouvir sua voz e sua versão dos fatos se depara com um silêncio espesso e pesado. Mas, essas figuras polêmicas, controversas, atraíram a atenção de muitos contemporâneos. Os registros deixados por essas testemunhas formam o material pesquisado”, expõe.

A nossa história e a dos outros

O professor Leandro Rust explica que há muitas razões pelas quais temas distantes no tempo soam como alheios à realidade o que torna, consequentemente, a questão complexa. “Uma das causas mais frequentes para isso é o hábito de medir a história pela régua do nacionalismo. Se a história não reflete a pátria, não é ‘nossa’; se o tema estudado não serve ao engrandecimento direto da nação e do Estado atuais, não nos diz respeito – acredita-se. Esse raciocínio ganha cores ainda mais fortes quando se trata da história medieval europeia. Supostamente, por implicar em acontecimentos anteriores à emergência do ‘Brasil’ e separados do chão sob nossos pés por distâncias atlânticas, essa seria uma história “do outro”, “estrangeira”, “velha” e “empoeirada”. Pensar assim é abrir mão da história, é abandoná-la”, explica. “Compreender a história é pensar com o devir, não com efemérides e com o culto a biografias; é tornar a mente sensível para uma constatação inquietante: porque é feita de tempo, a natureza humana nunca está pronta, acabada, determinada; ela muda sem cessar, é feita e refeita pelas eras, transcorre por meio de possibilidades inesgotáveis e sempre abertas”, acrescenta.

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"Uma das teses fundamentais do livro é que as experiências dos bispos guerreiros interferiram, significativamente, nos comportamentos cristãos a respeito do sagrado" (Leandro Rust)

Neste sentido, “Bispos Guerreiros”, de algum modo, aborda questões presentes na atualidade e, segundo seu autor, sobretudo em relações entre religião, violência e poderes públicos. “O livro mostra como essas três faces da vida em sociedade se entrelaçam, assumindo formas surpreendentes. O faz, especialmente, ao tratar de usos socialmente justificados da força e do derramamento de sangue em uma sociedade onde o Cristianismo era a cultura hegemônica. “Bispos Guerreiros” revela como esses usos marcaram as lutas sociais e as estratégias de dominação, a recriação do imaginário e da lei; como afetaram a capacidade de se adaptar ao imprevisto e controlar os fatos; como tais usos estavam em jogo no afrouxamento da obediência e na negociação da autoridade, e ainda como a fé e a violência demarcaram as fronteiras entre privilégio e marginalização. Muitas dessas questões tocam diretamente alguns dos dilemas mais cruciais das atuais sociedades democráticas, que vivem dias de polarização ideológica, de ressentimentos coletivos, de acirramento de disputas, de verdadeiras disputas de fronteira entre a laicidade, a religião e a cidadania”, afirma o docente, acrescentando que entre as muitas experiências que o livro provocou como “laboratório humano no tempo”, a, talvez, mais cara foi a de não poder subestimar a relação humana como a violência. “Ela nada tem de simples, tampouco se resume a um problema moral ou exclusivamente jurídico”, define. 

As “novas armas”

Para o docente, os bispos, atualmente, enfrentam novas guerras. “Se por ‘Bispos guerreiros’ entendermos homens implicados em eventos pontuais, em ocorrências que mal duravam um dia, episódios de campo de batalha, nos arriscamos a simplificar aqueles homens e sua época. Ao se embrenhar no mundo das espadas e dos guerreiros, uma parcela do episcopado passou a fazer parte de uma cultura tão vasta quanto específica. Essa vida que transcorria em meio a tramas de carne, sangue e aço foi complexa e multifacetada. As ações desses clérigos afetaram o imaginário, o direito, a formação das instituições, os rumos do enriquecimento e da exploração social: até mesmo a maneira de se conceber Deus, a liberdade e o amor”, observa. 

“E mesmo que os ‘bispos guerreiros’ tenham se tornado figuras raras, em muitos casos, escândalos ambulantes – especialmente na medida em que as proibições do direito canônico ao porte clerical de armas saltaram do papel para o cotidiano –, esse vasto universo vivido por eles passou adiante na história ocidental. Quando participavam da guerra, aqueles bispos desembainhavam muitas armas além da espada e da voz de comando. Essas outras armas ocupam um lugar muito importante na história – mas pouco estudado. Eles ajudam a compor um quadro mais completo de processos de grande alcance, como a ascensão política do Papado, a eclosão das cruzadas e a diversificação das relações de repressão nos espaços urbanos ocidentais”, acrescenta. 

O docente explica que há ainda as consequências da sua existência para o sagrado. “Uma das teses fundamentais do livro é que as experiências dos bispos guerreiros interferiram, significativamente, nos comportamentos cristãos a respeito do sagrado. Muito ficou nas maneiras como homens e mulheres passaram a conceber, participar e engajar-se por ideias sagradas. Neste sentido, ainda que as guerras e as armas sejam outras hoje em dia, as maneiras de militar pelo Cristianismo carregam muito da história daqueles personagens”, finaliza. (*com assessoria)


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