SANTIAGO VILLELA

Professor dedicado, autor inspirado



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Me dá prazer escrever para um público inteligente, não importa a idade. Mas é preciso reconhecer que hoje em dia talvez a inteligência seja mais facilmente encontrada entre os pequenos, que ainda não foram doutrinados pelo controle remoto

Santiago Villela Marques, nome robusto das letras contemporâneas de MT, impactou todo o meio literário do nosso Estado no começo da noite de sábado. Quando as redes sociais alardearam a sua partida para o andar de cima. Ainda não havia sequer galgado os sessenta anos, mas, mesmo assim, um acidente cardíaco tirou-o de cena.

Vai-se o escritor, mas fica o seu legado. Fonte inesgotável para que pesquisadores e amantes da literatura se debrucem, aprendam e apreendam mais sobre o mistério das letras. Para que as certezas, normalmente falsas, cedam às dúvidas nas quais suas lides literárias hão de nos chafurdar.

Radicado em Sinop, Norte de MT, desde 1975, ele nasceu paulistano em meados dos anos 1960. Graduado inicialmente em comunicação, fez o mesmo em letras logo depois. Nessa seara fez mestrado e doutorado. Enveredou por áreas como estética e semiótica, crítica e história da arte, literatura e cinema, teorias do imaginário e do mito, além de experiência em literatura comparada e ensino de literaturas clássicas ocidentais.

Em prosa e verso deixou várias obras. Nunca o li como gostaria, mas, gentes letradas deste MT que merecem toda a minha confiança, asseguram a qualidade incrível dos seus escritos. No acervo poético do tyrannus, iniciado em 2012 (e que já conta com mais de 1.400 poetas, sem repetições), Santiago foi o vigésimo a ser publicado. Mas, nesta edição, não é sobre sua obra que vamos discorrer.

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Recorte na capa de "Correspondências", publicado em 2012 com os contos de Santiago, pela Carlini & Caniato

Vamos, sim, pelo chamado "túnel do tempo". Em 2009, quando editava cultura num jornal cuiabano, entrevistei-o, atentando ao fato de que ele tinha vencido um concurso literário nacional prestigiado. E eis que dois anos depois, novamente, ele venceu esse mesmo concurso em três categorias. Coube nova entrevista. Telefonei pra ele em Sinop, tivemos uma conversa super cordial e espontânea, que se desdobrou com essas mesmas características numa entrevista via e-mail.

E é esse bate papo que reproduzimos hoje. Apesar de alguns trechinhos, digamos, "vencidos", cá está a entrevista na íntegra. Na época ficou muito bacana e quero crer que seu prazo de validade ainda está ok, embora seja necessário dar um desconto...

A ENTREVISTA

Fale um pouco sobre como foi o exato momento e o que você sentiu quando ficou sabendo desses últimos prêmios que ganhou. 
Não posso dizer que não tenha ficado muito surpreso. Certamente, participamos de prêmios como os do Sesc na intenção de obter alguma colocação, principalmente pela oportunidade de publicação e divulgação de nosso trabalho em âmbito nacional. Entretanto, não esperava ter textos selecionados e publicados nas três coletâneas, para as três categorias, de conto, poesia e conto infantil. Esse é que foi o grande susto. 

Você participa muito de concursos literários? 
Raramente. Tenho participado dos prêmios Sesc-DF, desde 2008, sempre com a alegria de ver meus textos publicados nas coletâneas ou até premiados, como ocorreu em 2009 e 2010. Antes disso, participei do XI Prêmio Nacional de Contos Ignácio de Loyola Brandão, em 2007, quando tive um conto – “Aula de biologia” - premiado em 4º lugar e gratamente publicado ao lado da obra de autores de indiscutível talento e de diversas regiões do país. 

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Recorte na capa do livro de contos "Sósias", publicado em 2015, pela Carlini & Caniato

Morando aí em Sinop, uma cidade mais afastada e com uma pegada cultural que talvez não lhe satisfaça tanto, escrever, talvez, possa parecer uma válvula de escape. Uma espécie de vingança contra esse relativo vazio cultural. Será que eu estou viajando? 
Parece que você conhece bastante bem a cultura local. De fato, não vivemos em um dos lugares mais benfazejos para a produção artística de qualidade. Sinop nasceu no auge da cultura de massas e não pôde evitar crescer sob a banalização da medíocre indústria cultural. É certo que ninguém está livre desta, mas cidades mais antigas gozam de maior diversidade e oferta de mais alternativas à massificação. Aqui, diversidade é coisa de uma resistência heroica. Júlio, um amigo e exceção inteligente por estas bandas, tem um nome muito apropriado para Sinop: ele a descreve como uma “cosmoprovíncia”. A alcunha é feliz em reunir nossas contradições: temos gente de todas as etnias, sob uma cultura pretensamente metropolitana. Mas entenda que “metropolitano”, aqui, é apenas sinônimo de “globalizado”. 

Prova de nosso provincianismo é que, mais uma vez, meu trabalho, como o de outros colegas resistentes, é sempre melhor reconhecido e divulgado em Cuiabá ou até em outros Estados, como São Paulo, do que em Sinop e região. Como sempre, é na imprensa cuiabana que encontramos espaço para a divulgação do nosso trabalho. (Mas talvez seja também prova da sabedoria popular, que bem reconhece que santo de casa não faz milagre e ninguém é profeta na própria terra). Entretanto, preciso dizer que aqui encontro reconhecimento da parte das pessoas que me interessam, ou seja, daquelas que se preocupam com arte e literatura e reconhecem a diferença entre produto artístico e produto kitsch. Para mim, já está de bom tamanho. Afinal, tenho aprovação de quem entende: os que conhecem boa literatura e os que a julgam e selecionam, como no caso dos artistas e intelectuais que avaliam os prêmios nacionais. Que mais posso querer? Não seria pior notar que meus textos encontrassem leitores entre os consumidores de best-sellers? Confesso que isso me agradaria muito menos... 

Você é professor aí em Sinop. Seus prêmios e sua carreira literária bem sucedida, imagino e torço para isso, devem incentivar pelo menos alguns de seus alunos a trilharem pelas letras. Isso acontece? 
Também só torço (rs). Na verdade, o que tenho, hoje, é o reconhecimento de prêmios nacionais e alguma penetração em meios literários fora de Sinop. Isso não me faz aceitar sequer o “apelido” de “escritor” sem um certo constrangimento, menos ainda incluir-me entre os bem sucedidos. Confesso, por outro lado, que não costumo envolver minhas atividades literárias com a sala de aula. Poucos alunos sabem que escrevo; raríssimos sabem que tenho algum reconhecimento fora de Sinop. Não costumo divulgar meu trabalho ficcional, sou meio bicho do mato quando se trata de me autopromover. Para meus alunos, acho que sou apenas um professor - um bom professor, espero. Além disso, não trabalho mais com alunos do curso de Letras, os mais diretamente sensíveis para o trabalho poético e literário. Meu currículo foi recusado porque sou apenas doutor em Estudos Literários, mas não sou graduado em Letras. Alguma de nossas instituições universitárias sinopenses prefere ter professores graduados a doutores, outra anomalia da cultura local. 

Na entrevista anterior, você disse que, quando se mudou para aí com seus pais, assistir a televisão (aquela mesma que matou a janela) não fazia parte de seus hábitos e isso te ajudou na literatura. Pode rememorar isso? 
Na sala de aula, minha aversão à mídia eletrônica e meus conselhos para que desliguem os aparelhos de televisão já viraram folclore. De fato, a passividade em que a televisão e outros meios de comunicação de massa colocaram o indivíduo contemporâneo não colabora para a fruição da arte, que exige atividade e torna-se incômoda para os preguiçosos telespectadores, sempre mais dispostos a receber sentidos, ideias e opiniões prontas do que usar a cuca para criar os seus próprios. Eu sempre falo para meus alunos: sejam livres; desliguem a tevê e liguem o cérebro. Como você recordou, fui feliz por ter crescido em um mundo que me obrigou a procurar os sentidos das coisas em outros lugares. Na janela (risos). E na literatura, que foi um espaço privilegiado para essa procura. Tenho de reconhecer: sou um raro privilegiado e felizardo. 

Hoje nós temos a internet. Ao contrário da televisão, acho que a web é útil pra literatura. Concorda? 
Concordo. Existe uma polêmica, na teoria da comunicação, a respeito de ser ou não ser a internet um novo medium, justamente por ela constituir, antes, um depósito de mensagens de diversos graus e naturezas do que um meio criador de um tipo específico de mensagem. Por isso, ali, você pode encontrar desde a porcaria kitsch própria da indústria cultural até a boa literatura. Na internet, parece que temos mais diversidade e, consequentemente, mais liberdade para escolher. Só que ser livre implica em ser bem informado. O problema é que o consumidor de massas não foi educado para distinguir entre coisa boa e coisa ruim. Desgraça dos tempos: escolher é uma arte que poucos, hoje, sabem exercitar. 

Pelo telefone, você me disse que escrever para o público infantil foi algo que entrou meio de surpresa em sua vida. Explique-se melhor. 
Não tenho filhos; nunca trabalhei com crianças. Minha familiaridade com a literatura se deu como leitor adulto de obras para adultos. Uma única vez me arrisquei a escrever texto infantil, para um concurso local. A intenção era pouco nobre: eu acabara de chegar a Sinop e, para me livrar da tevê, queria ganhar o aparelho de vídeo que o concurso anunciava. Ganhei o prêmio e me animei. Dez anos mais tarde, conheci o Prêmio Sesc Monteiro Lobato de Contos Infantis e enviei o mesmo conto para o concurso. Alcançar o primeiro lugar em nível nacional me inspirou a continuar o trabalho e, em 2010, escrevi “Aujé, presidente do Brasil”, na intenção de levar às crianças algumas das preocupações ambientais que me tomam a atenção, como criatura amazônica. Hoje, escrever para o público infantil é uma atividade extremamente prazerosa e que mantenho ao lado de outras produções ficcionais. 

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Santiago e Lucinda Persona

Te dá mais prazer escrever para o público adulto? Isso chega a ser um objetivo maior e que signifique algo mais especial? 
Me dá prazer escrever para um público inteligente, não importa a idade. Mas é preciso reconhecer que hoje em dia talvez a inteligência seja mais facilmente encontrada entre os pequenos, que ainda não foram doutrinados pelo controle remoto. 

E a distinção entre escrever prosa e escrever poesia. Há grandes diferenças entre esses processos criativos? 
No meu caso, sinto diferenças. A poesia é, antes, uma atividade lúdica e quase meditativa. É no trabalho com a prosa que sinto mais presente a “transpiração”, o ofício de escritor. Acho que a instantaneidade da imagem poética exige do artista uma prontidão para ouvir e sentir o mundo, uma postura parecida com a do místico religioso, de pureza para receber a “graça”; a mediação da prosa exige mais de minhas habilidades sintéticas e analíticas, é aqui que me sinto mais ativo e que noto que a palavra precisa mais da minha intervenção. 

Nem todos os escritores e poetas conseguem rastrear a inspiração. Essa danada da inspiração, no seu caso, chega espontaneamente ou você costuma provocá-la? 
Acontecem as duas coisas. Às vezes o poema ou o conto vem prontinho - costumo, aliás, sonhar com eles e só tenho o trabalho de anotar, quando acordo, e depois fazer um ou outro ajuste, porque o inconsciente nem sempre conhece regra sintática. Por outro lado, procuro estabelecer uma rotina de trabalho com a ficção. Ora, rotinas não podem acontecer se você ficar esperando o flatus voci do gênio inspirador. Então, às vezes, preciso provocar essa “inspiração”. 

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Recorte em capa de livro com poemas do autor, publicado em 2013 pela Carlini & Caniato

Você se autodefiniu como um sujeito meio bicho do mato. Com alguns prêmios literários de projeção na bagagem e uma carreira acadêmica que, certamente, lhe permitiria flexibilidade em relação a viagens, não lhe passa pela cabeça estabelecer-se numa cidade maior como São Paulo ou Rio de Janeiro? 
Metade de mim ainda é paulistana. Penso nisso toda hora e, na verdade, vivo ainda hoje esse conflito. Gosto do respeito de que gozo fora daqui e isso é sedutor. Por outro lado, como bom bicho do mato, amo o mato (rs). Mas eu tenho um método, infalível – ainda que meio torto - para sair dos meus impasses: em vez de, como todo mundo, perguntar quais os resultados de uma ou outra escolha, para saber, daí, qual seria minha melhor opção, pergunto pelas causas delas. Quando noto que só tenho vontade de sair daqui por uma questão de vaidade pessoal e vontade de reconhecimento, descubro, então, que a melhor opção é continuar em Sinop ou, ao menos, em Mato Grosso. 

Voltemos a Sinop. O que você mais gosta e o que menos gosta da cidade que escolheu para viver? 
Adoro estar na pontinha da Amazônia, gosto demais dos poucos e nobres amigos que fazem resistência à cultura massificante e exploradora e tenho grande prazer de estar entre eles, em projetos como a Associação de Educação e Cultura Zumbis e o Cineclube Zumbis, um dos poucos cineclubes ativos no norte do Estado. Gosto de bicho e de planta (quando criança, queria ser biólogo) e gosto de sol. A geografia do lugar abençoa os poetas, se o povo não abençoa. Por outro lado, a ação de uma gente só preocupada com acumular mais dinheiro pra consumir mais porcaria de massas está destruindo a paisagem, como todos sabem. Detesto, portanto, o materialismo burro, a falta de percepção artística, a mesquinhez cultural, a ausência quase que absoluta de atividade filosófica e intelectual, principalmente a precariedade do pensamento e da atitude de parte de nossos universitários, professores ou alunos. Sinto falta, especialmente, disso: de mais alunos e professores universitários pensantes. Fui criado sob a cultura universitária e fico penalizado em ver no que ela se transformou deste lado dos trópicos: músicas de qualidade duvidosa para incentivar bebedeiras e blecautes cerebrais. Mas tenho esperança de que isso vá mudar, com o crescimento da cidade, a chegada de gente menos alienada e o despertar de alguns mais sensíveis. 

Leitores interessados em conhecer seu trabalho e seus livros devem fazer o quê? 
Vixi! E agora? A maior parte da minha produção é independente ou está em coletâneas. Estas podem ser adquiridas em contato com o próprio Sesc-DF. No caso das produções independentes, estão todas empilhadas nas prateleiras aqui de casa. Se interessar a alguém conhecer um pouco do trabalho, o melhor é entrar em contato por e-mail: santiagovillelamarques@gmail.com. Mantenho também um blog com alguns trabalhos (poacatu.blogspot.com), mas - bicho do mato - quase nunca uso a internet e ele vive abandonado (rs). 

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Marta Cocco e Santiago

 


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