HOMEM ALGODÃO

Exposição inspirada em livro homônimo



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"Começo a preparar o barro, ainda não sei o que vou fazer. Os pensamentos e o barro se misturam e personagens indígenas começam a nascer”. Assim narra Nice Aretê, artista que abre exposição na sexta (30), a partir das 19h30, na Casa do Parque. 

"Homem Algodão" é o nome da mostra. As primeiras insformações sobre essa iniciativa me chegaram através da Marília Beatriz de Figueiredo Leite, multiartista, nascida carioca, mas mato-grossense, parece que desde sempre. Cabe ressaltar que Marília, pra variar (e acrescentar), prepara uma surpresinha cênica para a abertura do evento.

Garimpando mais informações sobre o lance, descubro dois nomes acusados para a curadoria: Anna Maria Ribeiro Costa, historiadora e indigenista; e Flávia Salem, empreendedora cultural e idealizadora da Casa do Parque.

Telefono para Anna e, meio em tom de brincadeira, indago: "Posso colocar vocês duas como `curandeiras´?". Ela aquiesce e diz ter gostado da palavra. E tem a ver. A mostra é inspirada no livro "O Homem Algodão", de Anna, o Yalawaialosu, um guerreiro xamã Kithãulhu, da etnia Nambiquara, que recebeu seu nome de Dauasununsu, o Deus Supremo, por usar adornos elaborados com algodão nativo.

Sobre sua inspiração para as peças que criou, explica Nice: "Adentrar nesse universo indígena por intermédio da leitura da obra `O Homem Algodão´, de Anna Maria Ribeiro F. Moreira da Costa, me levou a descobrir um universo encantador, cheio de simbolismos e ressignificações para as coisas mais simples do cotidiano. Um mundo real e contemporâneo atrelado às lendas e mitos de seus ancestrais que são respeitados e transmitidos de geração a geração; uma sociedade onde a generosidade não é uma virtude, mas sim algo inerente, natural ao ser Nambiquara. Minha profunda reverência."

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A criadora e suas criaturas

Nice Aretê

Nice Aretê nasceu cuiabana, mas seu pezinho paterno vem do Maranhão. Sua figura humana tribal, portanto, é andarilha. Reside no Jardim Ubirajara, bairro que evoca o senhor da lança, protagonista de um dos romances indianistas de José de Alencar.  

Em seu local de trabalho, a chama silenciosa e invisível de um forno, a arder a mil graus, acalora os artefatos moldados com barros de diferentes texturas e colorações que chegam do quilombo Mata Cavalo, de São Paulo, de Cuiabá. 

Sua arte oleira também tem se mostrado andarilha. Já expôs em cidades como Chapada dos Guimarães, São Paulo, Belo Horizonte; e em países como Inglaterra e Austrália. 

Os “Guerreiros do Xingu”, três de seus andarilhos, guardiães de saberes ancestrais, fincaram o pé no Centro Brasileiro Britânico, na Contemporary Ceramic Exhibition Brazil and England. “Xamã” esteve na 1ª Bienal da Cerâmica, na Galeria Olido, São Paulo, na lendária Avenida São João, que reuniu ceramistas de diversas partes do Brasil, para difundir o artesanato em argila, estimado como um saber que começa a ser esquecido.   

Artesã há mais de vinte anos, sobre seu processo criativo, é bonito frisar que, ao contrário das suas mãos, que necessitam do material memória para dar liga ao barro a evitar rachaduras, as pegadas de suas figuras humanas têm vontade própria. Têm seu próprio caminhar, a fazer lembrar, como uma advertência, a imensidão da diversidade cultural indígena brasileira. 

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Yalawaialosu

A personagem Yalawaialosu, Homem Algodão, está envolta em um manto mítico de brotos de palhas de buriti que ornam as veredas do cerrado Nambiquara. Nasceu na aldeia Serra Azul, no interior da Terra Indígena Nambiquara, a Oeste de Mato Grosso. Casou-se com Anita, uma Sawentesu, com quem teve cinco filhos: Brazilina, Renato, Ademir, Milton e Célio.

O xamã Homem Algodão foi um Kithãulhu, um dos grupos formadores da etnia Nambiquara. Vem de tempos longínquos a designação Kithãulhu, fruto do marmelo, inspirada em uma característica do corpo de seu primeiro líder, permanecendo até os dias de hoje.  

Esse personagem tão real quanto mítico, sempre se mostrou indignado como a invasão dos não indígenas, os kwajantisu, comedores de feijão, a ocupar o território imemorial Nambiquara, quando expressava-se à maneira agressiva para confirmar sua autoridade. Acreditou que se seus preceitos religiosos passassem da oralidade à escrita, à semelhança dos ocidentais, alcançariam o tão almejado reconhecimento e respeito.  Queria que seu povo tivesse sua própria Bíblia. À dinâmica de seus dias estava a cura de doenças trazidas pelos não índios e espíritos malfeitores.

O Homem Algodão morreu em 2005.  Seu corpo encontra-se sepultado no pátio da aldeia Central, em frente à sua última morada, ao lado do túmulo de sua filha mais velha. Mas, ainda hoje, se faz presente no ritual masculino da flauta sagrada, direcionado ao cultivo de plantas comestíveis e utilitárias necessárias à sobrevivência de seu povo; nos rituais de cura; nas festividades da menina-moça a comemorar sua menarca. (*a partir de textos de Anna Maria Ribeiro da Costa)

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