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"Besta Fera", título que tem a ver



leo aversa

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Foto de divulgação de "Besta Fera", álbum novo de Macalé

Jards Macalé, carioca da Tijuca, figura que idolatro. Artista raro, em síntese, pode ser definido como ator, compositor e cantor. Nasceu numa beirada de morro (Morro do Formiga) e, desde cedo, ambientou-se com os batuques e outros sons e trejeitos, como as coisas que vinham de Vicente Celestino, Gilda Abreu, Orlando Silva, Emilinha Borba e por aí vai.

No aconchego do lar, foi amparado pela mãe, que tocava piano e cantava, pelo pai, que tocava acordeom. Estudou música com grandes nomes, como Guerra Peixe (piano e orquestração), Peter Dauelsberg (violoncelo), Turíbio Santos (violão) e Esther Scliar (análise musical).

Enturmou-se totalmente com nomes que representam o melhor da música brasileira, especialmente, a popular. Falar de suas parcerias e das coisas bonitas e audazes que criou, seria algo para uma outra matéria, que não esta. Vou, portanto, citar apenas "Movimento dos Barcos", parceria entre ele e José Carlos Capinam, linda canção com letra arrebatadora, composta em 1971.

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Macalé e Bethânia... anos 1960

Certa vez, assisti um documentário em torno dele e o entrevistador foi logo associando-o ao rótulo de maldito. Macalé deu uma senhora respostada, através de sonoro palavrão. 

E o artista - maldito é o caralho, por uma dessas injustiças do destino, nunca recebeu o devido valor. Mas é assim mesmo... Fazer o que? Ora ora, depois de 20 anos numa espécie de limbo, sem lançar discos com inéditas e em plena recessão cultural, ancorada no atual governo brasileiro, eis que chega "Besta Fera".   

Após vinte anos sem lançar um trabalho de composições inéditas (o último foi "O q faço é música", de 1998), Jards Macalé apresenta em seu novo disco a expressão exata de sua atualidade provocadora.  "Besta Fera" é projeto patrocinado pela Natura Musical e aprofunda a excelência de sua discografia, iniciada em 1972 pelo mitológico long-play gravado ao lado de Lanny Gordin e Tuti Moreno. Ao mesmo tempo, ele é um convite irrecusável para que novos ouvintes adentrem um universo sonoro único chamado Jards Macalé. Em tempos de audições fragmentadas em múltiplas frentes e plataformas, "Besta Fera" é um disco que apresenta, simultaneamente, canções que funcionam tanto em sua força única quanto no conjunto de uma verdadeira obra.

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Macalé com camiseta/slogan do amigo Hélio Oiticica (1937-1980)

 

As levadas de diferentes caminhos, forças, tons e timbres, fazem com que Macalé explore todas suas vertentes – do sussurro em voz e violão ao rock rasgado, do clima agônico de Lupicínio Rodrigues e Jamelão ao baile de orquestras como a sua dileta Tabajara, da batida bossa nova redonda ao reggae com rabeca, do samba levado por cavaco, percussão (com Ariane Molina e Thai Halfed) e coro (da Velha guarda musical da Nenê de Vila Matilde, composto por Laurinha, Clara e Irene) ao experimentalismo em sonoplastias, fitas cassetes e samples. Sempre inquieto e em movimento dentre as várias artes que convive, Macalé nunca perdeu de vista o caráter ampliado da canção popular brasileira. Cinema, poesia, teatro, performance, artes visuais, crime, filosofia, literatura, botequins, matas, mares e muitas outras frentes se fazem presentes na obra de Macalé, o que não seria diferente em "Besta Fera".

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Macalé conheceu o emblemático músico estadunidense, John Cage (1912-1992), nos anos 1980. E aplicou um xeque-mate no gringo

Essa sonoridade, impactante já em sua primeira audição, é fruto do encontro entre velhos e novos amigos do músico carioca. Na sua bagagem de cinquenta anos de estrada com a canção popular, Macalé assume a direção musical do disco para costurar referências como Gregório de Mattos (cuja presença ecoa o parceiro Waly Salomão) e Ezra Pound (que, se o primeiro poema gravado por Macalé foi “Luz”, presente no disco "Let’s Play That", gravado em 1983, agora, afinado com os tempos que atravessamos, surge com “Trevas”), parcerias históricas como José Carlos Capinam e homenagens como a Renô, amigo do tempo de andanças com Hélio Oiticica. Tais nomes, fazem a síntese, que só um artista como Macalé é capaz, entre a formação crítica de sua geração e a formação noturna, malandra, lírica e violenta do Rio de Janeiro.

acervo pessoal

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Foto histórica: Lygia Clark (1920-1988), expoente da arte contemporânea universal, beijando Jards Macalé

Esses velhos companheiros de estrada batem papo com os novos parceiros, cujas trajetórias sólidas nos últimos anos casam perfeitamente com a caminhada de Jards e acrescentam a presença da cena musical contemporânea de São Paulo. A banda é formada por Kiko Dinucci (violão e sintetizadores) e Thomas Harres (bateria e percussão), responsáveis pela produção musical, além de Pedro Dantas (baixo) e Guilherme Held (guitarra). Os quatro foram colaboradores de Jards nos arranjos ao lado de Romulo Fróes (diretor artístico do disco) e Thiago França (responsável pelo arranjo orquestral da música “Buraco da Consolação”). Rodrigo Campos, Juçara Marçal, Ava Rocha, Clima e Tim Bernardes também têm participações brilhantes, seja como músicos, seja como compositores (ou ambos, no caso de Tim).

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Macalé tocando para Vinicius de Moraes, em foto onde também estão Caetano e uma amiga

Vale também ressaltar que o grupo reunido ao redor de Jards Macalé para a gravação de seu novo disco é praticamente o mesmo que, recentemente, revolucionou a obra de Elza Soares em seus trabalhos "Mulher do fim do mundo" (2015) e "Deus é Mulher" (2018). A informação, aqui, serve para lembrarmos que esses músicos escutaram com a máxima atenção a obra dos mestres. No caso de "Besta Fera", essa fidelidade com a obra está registrada justamente ao encararem todos os desafios de um trabalho em estúdio com Macalé e colaborarem para um resultado contundente de um criador em seu auge. Exigente, experimental e rigoroso, Macalé tem como marca em sua carreira tirar o máximo possível do estúdio, principalmente quando mergulha em um trabalho de canções inéditas, podendo desenvolver suas ideias durante o processo de gravação.

Por ser um artista contemporâneo de todos os tempos, Macalé faz de "Besta Fera" um comentário preciso, lírico e feroz na justa medida sobre o Brasil de hoje. Prepare-se para adentrar um mundo entre trevas, bombas Hs, túneis de cidades más, águas fundas, olhos de sangue, ignorâncias dos homens, beiras e obstáculos. Temas cuja força crítica é iluminada por arranjos e vozes certeiras. Aqui, não há margens, e sim um centro irradiador de canções feitas no calor de quem está sempre pronto para novos combates. "Besta Fera" é a prova de que Jards Macalé está vivíssimo, quente, iluminado e bem acompanhado. Um disco que diz, com todas as letras, os delírios e belezas de um faquir da dor. Eis sua versão sobre nossos tempos – e, principalmente, contratempos. (*com assessoria da Natura Cosméticos)

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Macalé e Caetano, em Londres... tempos tão obscuros quanto os atuais

 


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