ENTREVISTA

Lançamento na próxima terça, no Arsenal



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Nicolas com seu irmão e sua mãe na infância em Diamantino, onde se tornou um menino que nunca mais deixou de ser

Na terça (16), a partir das 17h30, no Sesc Arsenal, o poeta cuiabano Nicolas Behr, exportado para Brasília quando adolescente, pontifica o seu eterno retorno à cidade e ao Estado onde nasceu. Está na terra pra lançar o seu "Nicolas Behr: o menino do mato que engoliu Brasília" (Editora Entrelinhas). Um trabalho primoroso de edição que, em cerca de 300 páginas, compila um catatau de poemas escritos por ele ao longo de sua trajetória.

Tem muita coisa inédita, especialmente poemas mais recentes que escreveu evocando sua cidade tricentenária, mas tem uma criteriosa seleta de versos representativos de suas fases como poeta. 

Na obra que chega, há um texto do jornalista e romancista Carlos Marcelo Carvalho, que escreveu a biografia de Renato Russo, conhecedor da biografia de Nicolas. A apresentação do livro é assinada pelo escritor, professor e tradutor amazonense Milton Hatoum, um dos mais prestigiados e premiados escritores brasileiros da atualidade.

“A vida e a obra deste poeta extraordinário que publicou mais de 50 livros – incluindo seus livrinhos mimeografados –, a maioria independente, que foi criativo e ousado ao driblar as regras engessadas de sua época, se traduzem em estímulo e possibilidades para dias melhores”, destaca a editora Maria Teresa Carrión Carracedo, da Entrelinhas. 

Nicolas é velho camarada do tyrannus. Conheço-o desde a adolescência, antes de optarmos pelo ingresso da poesia em nossas vidas. Temos a mesma idade e nos últimos 15 anos, por conta do destino poesia, nos tornamos grandes amigos. Todas as vezes que vem a Cuiabá, ou quando passo por Brasília, nos encontramos e conversamos muito.

Quando em Cuiabá, invariavelmente, peixadas regram nossas conversações. Na terça estarei no Sesc Arsenal, para prestigiar o amigo e celebrar a chegada do emblemático livro. Mais do que isso, com o Coral Municipal de Cuiabá, que integro, estaremos cantando músicas cuiabanas. Afinal, não é todo dia que uma cidade tão importante para nós completa 300 anos.

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Nicolas (ao centro) em peixada cuiabana, escoltado por Fochesatto e Lorenzo, esse povo da literatura de MT

Abaixo, uma entrevista que fiz com o cara... 

Quando e como foi que você se descobriu poeta?
Me desobri poeta em Brasília. Queria mesmo tocar rock, mas não tenho talento musical. E pra ser poeta você só precisa de lápis, papel e imaginação. 

O seu verso tem como uma das principais características a simplicidade. Mas, poetas costumam ser sabedores de que não é tão simples fazer poesia. Fale sobre isso.
A poesia simples é a mais difícil. Simples não é superficial. Cito sempre o exemplo de Mário Quintana... "Eu sacrifico tudo na minha poesia pelo entendimento. É importante pra mim que o leitor tenha alguma resposta, imediata até, ao poema". 

Você se considera um poeta engajado? Já parou pra pensar sobre isso? Ou a espontaneidade, independente do seu modo de ver o mundo e desgostar de algumas coisas que vê, é mais preponderante?
Acho que todo poeta é engajado, fazendo arte, incomodando, intervindo, compartilhando. 

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"É o livro mais completo sobre minha obra". Assim você se refere a "Nicolas Behr: o menino do mato que engoliu Brasília", que será lançado na terça (16). Defina seu conceito particular de completude.
Boa pergunta. (Pensando) É o mais completo no sentido de contemplar as três fases da minha vida. Infância em Diamantino, adolescência em Cuiabá e fase adulta em Brasília. Claro que nunca estamos satisfeitos, isso seria o fim. A completude não deve ser um objetivo a ser atingido, se não perde a graça. 

Você costuma escrever um poema a partir de uma ideia, de algo que quer dizer, ou ele surge por uma ou outra palavra ou frase que brota em seu cotidiano e daí a coisa (o verso) vai se engendrando?
Ninguém sabe de onde vem o poema e que assim seja. A gente desconfia. Acho que o poema vem de uma demanda psíquica, uma encomenda do inconsciente, em busca da resolução de algum conflito interno, que o poeta muitas vezes nem sabe direito como é. O poema é um mosaico, que voce vai montando, de coisas que o poeta sente, vê, lê... ou escuta. Mas é a poesia que escolhe o momento de vir... Você a chama e ela nao vem... e aí, sem mais nem menos, ela aparece. E você tem que aproveitar esse momento, porque nao sabe quando ela vai dar as graças de novo. 

Quando você se inaugurou como poeta, logo em seguida, caiu nos braços da ditadura e namorou com o DOPS. Como você lidou (e ainda lida? dói?) com isso?
Ditadura nunca mais. Temos que estar sempre muito, muito atentos. Existe, na sociedade, uma tentação autoritária, de entregar seus destinos a um grupo pequeno, a um ditador. Não podemos abrir mão da nossa participação política, que não se resume só em votar. Temos que cobrar e não demonizar a atividade política, pois precisamos de representantes, precisamos de intermediários entre a sociedade e o Estado. 

Te conheço a muitos anos e um dos fatos mais engraçados que você me contou, sobre sua trajetória como poeta, foi a "espinafrada" que levou do Drummond - o Carlos. Relembre isso pros leitores do tyrannus. 
A coisa mais importante para o poeta é a porrada. Porque a porrada é sempre sincera. Claro, somos movidos a elogios, mas a porrada faz o poeta crescer. Eu levei algumas, boas. Em 1980, aos 22 anos, liguei para o grande Drummond ( grande como pessoa, grande como poeta, o que é raro de acontecer) e disse a ele que estava preparando um livro "Drummond brasiliensis" reunindo paródias de seus poemas, trasnpondo-os para Brasília. Ele ouviu alguns, atentamente, e no final disse: "Cuida da sua poesia, deixa a minha em paz". Agradeço todos os dias por essa "porrada". 

Certa vez, entrevistando o Caetano Veloso, perguntei-lhe qual a música dele era a que ele mais gostava. Ele respondeu na bucha: "Coração vagabundo". Você poderia mencionar um ou alguns dos seus poemas preferidos? É só pra checar se você tem bom gosto...
Boa pergunta. Mas eu tenho vários "clássicos", que já foram parar em muitas camisetas. " nem tudo o que é torto / é errado / veja as pernas do garrincha / e as árvores do cerrado". Uma quadrinha. Mas que caiu no gosto popular ( pelo menos essa). Mas eu não tenho "um" poema preferido, mas sei quando acerto a mão, quando há invenção e linguagem. 

Faz aí, pra finalizar, o convite pro povo ir ao lançamento do seu livro... E pode até dizer mais alguma coisinha, se quiser...
Povo de Cuiabá! Vamos prestigiar um poeta que aqui nasceu e que também ama esta cidade! Passei uma fase boa, muito boa da minha vida aqui. E se não houvesse Cuiabá, onde fui moleque de rua, nao viraria poeta em Brasília, pois foi desse impacto que nasceu minha vida. Sai do mato pra cair na maquete. Espero voces dia 16, terça-feira, no Sesc Arsenal, das 17:30 as 21:30. Abreijos. 


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2 Comentário(s).
Então, e chegou o lançamento e foi aquela coisa toda... Eu, tu, ele... acho que nós todos gostamos. Grato por participar do tyrannus Valverde
enviada por: lorenzo    Data: 16/04/2019 23:11:51
Muito interessante este passeio pela história do Nicolas! Que venha o lançamento.
enviada por: Carlos Valverde    Data: 16/04/2019 17:05:26

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