DAMAS DE OURO

Tramas femininas nas linhas do tempo



marli

 

Em comemoração aos vinte anos de atividades em Mato Grosso, a Editora Carlini & Caniato reuniu em box dez títulos com textos de autores mato-grossenses que inauguram as Coleções literárias Carandá (prosa), e Olho d’água (poesia). Os leitores brindam e agradecem. Quero sublinhar, apenas a título de registro, que o conjunto com dez títulos traz apenas três assinaturas femininas. Nada de novo numa história antiga. A mulher sempre foi minoria também na literatura e como tal tem sido lida, pesquisada e vista. Vivemos tempos sombrios em que as marcas de exclusão são ainda várias e múltiplas. Resistamos, pois. 

Este texto vale pelo que desejo destacar: a marca feminina deste jogo literário, cuja trinca de Damas de Ouro faz valer a demarcação do espaço. A busca pelo lugar de fala e reconhecimento da escrita da mulher em Mato Grosso não foge à regra ao que ocorreu em todo o Brasil e no resto do mundo. Resto que, no caso, foi vanguarda em estudos e pesquisas de resgate e revisionismo décadas antes de nós. De lá pra cá, alguma coisa mudou. 

Há quem diga que o que vale é a qualidade literária/estética do texto. Há quem diga que o valor está na obra e não no sexo/gênero de quem a produz. Há quem diga muita coisa sem ter estudado ou lido patavinas a respeito. Há quem tente colocar panos quentes. Eu não. Eu digo que o processo foi exclusionário, permanece delicado e que as condições de criação, publicação e veiculação foram e ainda são mais complicadas e difíceis para a mulher. Isso para não mencionar a mulher pobre, a mulher negra, a mulher indígena, a mulher lésbica e por aí afora. 

A transposição da mulher como objeto das narrativas literárias para a mulher sujeito que escreve, narra, versifica é história recente para ser contada em muitas páginas. Não é esse o desejo aqui. Aqui sou desejante de festejar a literatura das três mulheres que compõem a coleção comemorativa da Carlini & Caniato. Vamos a elas.

Icléia Rodrigues de Lima, Marília Beatriz de Figueiredo Leite e Lucinda Nogueira Persona tramam com fios de seda os bordados do tempo, tecido que aproxima pelo viés da memória as obras das três escritoras. Elas entretecem e arrematam a trama, cada uma a seu modo. Icléia empresta agulhas e fios de Mnemosine para compor memórias por vezes suaves, por outras irônicas e debochadas, mas sempre arrematadas pelo estilo do ponto enxuto que a crônica exige. Marília Beatriz desenrola o novelo de um tempo escasso, cujas cores são matizadas pelos fios de cá e de lá, de tempos presentes e ausentes que se cruzam na superfície do bordado. Lucinda entretece a impermanência de todas as horas e de todas as coisas, emendando os fios da fugacidade de um dia a outro. 

Com esses movimentos, as três enlaçam o tempo e com ele e nele enlaçam a todos nós. Aquele tempo que amarra, urde, junta e disjunta, aperta e solta sem chuleios, remendos ou alinhavos o que supomos ou sabemos ser. O laço cede aos olhos do leitor que, reparado, reconstrói-se e consegue remendar a si, restaurar suas próprias memórias, seu próprio tempo e divisar para seu redor os limites do possível.

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Icléia Rodrigues de Lima: "Passado a limpo"

Seleciono os textos com absoluta liberdade, guiada apenas pela linha dos olhos que me enfia crônicas e poemas adentro. Em Icléia encontro Mnemosine bordando as lembranças, esticando bem o tecido no bastidor para deixar o “Passado a limpo”. A memória traz “As cores e os cheiros do tempo” numa crônica que avança sobre todos os meses do ano para trespassar o tecido especial do mês de dezembro. 

A narradora caprichosa permeia o tecido com lembranças visuais e olfativas, invertendo o movimento da agulha para atingir o estágio do retorno ao sagrado. De uma linha a outra, o leitor está diante da paisagem da infância, onde a menina tecia as primeiras e definitivas impressões sobre descobertas, afetos, e estranhamentos. A paleta de cores salta à retina num instante: “Elas, as cores, estavam nos flamboyants próximos do colégio, nos galhos de jasmim-estrela debruçado nos muros cobertos de musgo próprio das Águas, das dálias do jardim da vó Preta, no almeirão florido que meu avô Fiico separava na horta para sementeiro, na trepadeira de 'azulzinhas' do alpendre da minha avó Maria Abadia”.  

E o que dizer quando a memória mistura cores e perfumes como o “das rosas da minha mãe, do patchuli que ela punha no sabão caseiro de tacho, da canela posta no doce de figos em calda”? O leitor é conduzido por entre tons e notas especiais “para Fim de ano” e não há interferência ou ruído exterior a esse tempo que o retire da atmosfera festiva e embriagante que as memórias bordadas reproduzem. “Nos dezembros da minha vida”, diz a narradora, havia uma flor que me seguiu Brasil afora. A zínia, assim batizada pelos botânicos, era a “moça-e-velha”, colhida a braçadas em meio a capoeiras, cuja “beleza era feita de inumeráveis encarnados, roxos, corais, lilases, raros brancos”. Icléia tece em sua crônica o ramalhete das florezinhas e o oferece ao leitor como um bordado colorido e aromático. Assim, com o tempo apaziguado, Passado a limpo, o buquê é mesmo um presente de fim de ano. 

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Marília Beatriz de Figueiredo Leite: "Viver de véspera ou antes mesmo"

Marília Beatriz é tecedeira de um outro tempo em que Viver de véspera ou antes mesmo parece ser a contingência possível. O movimento da poeta é circular como o bastidor, os aros são firmes e esticam o tecido do tempo, vigiando ponto a ponto sua circularidade. A pontualidade ardilosa é agulha implacável, ladra que tece ao redor da voz lírica a consciência da jornada cíclica que a enlaça a um futuro certo: o reencontro com seus mortos.  

Tantas vezes, no local adormecido
Entra na noite a vigília
Que em meu redor tece,
Como ladra, a sorrateira pontualidade
Os meus mortos sabem que sou deles.

Viver é conjugar o tempo antes mesmo que o imperativo das vésperas ajuste a ordem natural do círculo da vida. A poeta sabe, talvez mais que os seus mortos, que a vigília noturna é mera distração diante dos ponteiros da pontualidade. Por isso concorda e assente, com profunda consciência poética, e se rende à espera, sem rodeios. Rende-se ao tempo. Anuncia o que já se sabe e sobre o que nada pode palavra alguma. É com esse movimento que Marília Beatriz reverte a linha do tempo. Tece ao seu redor e em seu favor, ela mesma, o bordado simétrico da condição humana irreversível. A vigília perde toda a potência apavorante diante do verso final, /Os meus mortos sabem que sou deles./. Aí a força do poema, pois o bordado do tempo se mostra pelo avesso. O desejo de infinitude é transmutado em consciência de uma nova temporalidade. A poeta se concede aos seus mortos e assim encontra um tempo de descanso e paz, sem receios e sem vigílias. 

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Lucinda Nogueira Persona: "Por imenso gosto"

 

Lucinda canta o tempo impermanente de todos os tempos com Imenso gosto. Assim ela o faz com a demarcação temporal de horas, dias, semanas, meses e séculos. Nessa gradação o eu lírico descobre (inventa?), /na folhinha atrás da porta/, o tempo de um /calendário só de saudades/.

De domingo a domingo
viver
a realidade não concreta das horas
minutos, segundos
Demarcar dias, semanas, meses,
anos e séculos
Dividir um tempo indivisível
de ventos e horizontes indeterminados
inventar
entre auroras e crepúsculos
um calendário que é só de saudades
para descobrir (na folhinha atrás da porta)
uma segunda-feira desnecessária
E o pó dos móveis.

Auroras e crepúsculos, ventos e horizontes, essa /realidade não concreta das horas/ faz do tempo da poeta o instante já consagrado em sua vasta obra. Seja na fugacidade de auroras e crepúsculos, seja na divisão indivisível /de ventos e horizontes indeterminados/, a concretude da passagem se faz, mesmo que diáfana. A impermanência pode materializar-se no calendário que marca /uma segunda-feira desnecessária/ ou no /pó dos móveis./. Ainda assim, o tempo escapole pelas mãos como a linha que fia e não pertence mais ao novelo. É o movimento intermitente que perfura o tecido e borda impermanentes sequências de pontos sempre refeitos e nunca terminados. É o desejo de prender, amarrar de algum modo essa linha que foge e se esgarça, indiferente ao tecido e à trama. É um tempo que só a palavra aprisiona, enlaça e eterniza. 

O tempo nada pode diante de três Damas de Ouro que desafiam e desfiam. Que inscrevem e escrevem a temporalidade de todas nós, mulheres bordadeiras de tantas e várias ancestralidades. Para isso e por isso, celebro. Alheia ao tempo que me desenlaça ou desalinha, com a alegria e a gratidão que me são peculiares, só posso dedicar a elas alguns versos da “Canção de outono”, de Cecília Meireles. 

Para Icléia,  

De que serviu tecer flores
pelas areias do chão
se havia gente dormindo
sobre o próprio coração?

Para Marília Beatriz, 

Tu és folha de outono
voante pelo jardim.
Deixo-te a minha saudade
- a melhor parte de mim.

Para Lucinda,

E vou por este caminho,
certa de que tudo é vão.
Que tudo é menos que o vento,
menos que as folhas do chão...

Que a linha do tempo dessas três mulheres seja sempre espaço sagrado para a escrita. Que seja sobre o tempo, porque o tempo é a própria vida que se dá. Resistamos, pois.


LEITE, Marília Beatriz de Figueiredo. Viver de véspera ou antes mesmo. Cuiabá-MT: Carlini & Caniato: 2018.

LIMA, Icléia Rodrigues de. Passado a limpo. Cuiabá-MT: Carlini & Caniato Editorial, 2018.

PERSONA, Lucinda Nogueira. Por imenso gosto. Cuiabá-MT: Carlini & Caniato: 2018.

 

*Marli Walker é professora e poeta.

 


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