DOCUMENTÁRIO

História muito bem contada



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GTW surgiu em 1988 e permaneceu até 1998. O nome da banda tem a ver com o bairro cuiabano Grande Terceiro, mas, como havia uma ideologia planetária, veio a calhar Great Third World (fotografia de Fran Frassetto)

Entre os anos de 1988 e 1998, nesta cidade que já foi mais verde (e esperançosa), o (ou a) GTW se sobressaiu na cena cultural da terra, com um estilo underground. Cuiabá fervilhava naqueles  anos 1980, com muita fazeção de artes e os protagonistas dessa agitação, mesmo sem as facilidades das tecnologias desta hora, encontravam-se e aprontavam, já que sim, na cidade, estava presente a ideologia punk.

Não posso dizer que fui underground ou punk. Fazia, no máximo, figuração nesse meio. Mas, claro que curtia. Estava com essa turma nas noitadas que se sucediam, compartilhando de uma boemia intelectual que ribombava. Se bem que essa palavra "intelectual" não cheira lá muito bem no contexto.

Como jornalista atuante na divulgação cultural, entrevistei essa turma toda e escrevi inúmeras vezes sobre esses agitos que inseriam Cuiabá nessa vibe planetária. Como jamais me interessei muito pelo futuro, não imaginava que estava direta e indiretamente participando de um momento que se tornou histórico para esta cidade caliente.

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O pré-lançamento do documentário foi marcado por uma energia altaneira, fazendo jus ao que a banda representa

De volta para o futuro

Voltando à quarta-feira (3), e já pulando para o final da noite, vou logo confessando-me vitimado por uma surpresa muito agradável. Antes da sessão indaguei a um dos realizadores: "Joe, quanto tempo tem o documentário?". "Tem sessenta minutos, e setenta com mais os créditos".   

Éramos umas trinta pessoas, malemá, no espaço improvisado para a sessão, onde reinava uma energia altaneira, que logo me contaminou. A pior coisa que pode acontecer a alguém que tem fama de crítico, mesmo sem o sê-lo plenamente qualificado, é checar um produto ao lado de seus autores... Vocês devem imaginar como é ruim, após o lance, ter que improvisar evasivas pra não dizer claramente que não gostou da coisa. Pior do que isso, só quando a gente detesta o que viu. Mas está longe disso o que aconteceu.

Já nos primeiros minutos da projeção fui acometido por benfazejo conforto. E percebi que haveria um final feliz. O documentário começou - e seguiu até o final, com muita espontaneidade e muita informação. Um catatau de entrevistas muito bem conduzidas e editadas, entremeadas com imagens selecionadíssimas das apresentações da banda. O que deu numa narrativa que classifico como sofisticadamente simples. 

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Ao longo de uma década, a banda teve onze integrantes e, entre mortos e feridos, salvaram-se quase todos

Aqueles que assistirem "Entre mortos e feridos, salvaram-se quase todos - GTW 30 Anos Depois" vão se divertir e captar as principais informações sobre o que foi a banda e o que era a Cuiabá daqueles tempos. Quase todas as entrevistas foram feitas no tempo presente e não só com os integrantes da banda, mas com muita gente que vivenciou aqueles tempos. Todos somam com sinceridade e bela capacidade analítica. 

E o que percebemos é que a maior parte desse elenco, que era bastante jovem há trinta anos, amadureceu e está se virando diante da dureza que é esta vida atual, porém, não perdeu a gana e o pique daqueles tempos, mantendo uma "ideologia rebelde" aliada à maturidade. Ou seja, essa turma não vivenciou à toa a explosão cultural de trinta anos passados, quando o GTW foi uma espécie de estopim.

Essa galera está longe da alienação, do analfabetismo funcional. Tem se mostrado capaz de lapidar a criticidade e a contestação, características tão necessárias para se buscar e encontrar uma envergadura social que seja pelo menos aceitável. Fico feliz (feliz é pouco), felicíssimo, diante da confirmação daquilo que sempre acreditei. A militância cultural, independente da sua área de atuação, tende a desaguar em pessoas socialmente preparadas para enfrentar a contemporaneidade e mudar o mundo, quando isso for necessário. Isso não é fácil e tampouco comum nos dias de hoje. Nem ontem, anteontem e assim sucessivamente.  

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O documentário, em sua precoce exibição, contou com seis ex-integrantes da banda. Nada como aquele abraço ao final da sessão

Algo mais

"Entre mortos e feridos, salvaram-se quase todos - GTW 30 Anos Depois" é um dos filmes programados para o V CineCaos, que vai acontecer em Cuiabá no próximo mês (agosto). Fica a minha dica para que todos assistam ao documentário. Vale muito a pena.

A qualidade do doc, assinada pela JF Produções, com coprodução da Drakar Audiovisual, teve a participação de dois respeitáveis nomes do audiovisual de MT: Protásio de Morais (imagens) e Yuri Kopcak (som).  

No mais, falta dizer que esta matéria está repleta de incompletudes. Fiz o possível para fornecer a maior quantidade possível de spoilers, mas uma voz que veio vindo de dentro da minha cabeça clareou que eu não deveria tascar aqui algo como o resumo da bíblia. 

 O GTW (integrantes)

Em ordem alfabética, os nomes da galera que participou da banda ao longo dos seus dez anos, com uma longa folha de serviços prestados:

Aldivan Jacaré (baixo)
Arenilzo Podre (bateria)
Capilé Charbel (guitarra)
Drailler (guitarra)
Eduardo Dezan (bateria)
Joe Fagundes (baixo)
Marcelo Trash (guitarra)
Rosi Pando (voz)
Serginho H (voz e bateria)
Valdir Batata (baixo)
Vicente (guitarra)

 


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