LITERATURA/LANÇAMENTO

Aquela magia dos rituais cotidianos



ocampo

Obra tem tradução de Livia Deorsola, posfácio de Laura Janina Hossiason e a capa é de Elisa von Randow, com ilustração de Cristina Daura

Um lançamento pra lá de especial, oportunidade impar de adentrar-se na prosa brilhante da argentina Silvina Ocampo (1903-1993). "A fúria" (Companhia das Letras) já está disponível em tradução para o Brasil. São contos monstruosos, insólitos, perturbadores, sinistros, irreais. O estardalhaço que causa a novidade merece a classificação de  tesouro mais bem guardado da literatura latino-americana do século XX.

A sequência inicial, os três contos que abrem este "A fúria", é sem dúvida um marco do gênero. A elegância total e o tom fabular e misterioso de “A lebre dourada” drasticamente dão lugar à raiva de “A continuação”, uma narrativa perfeita sobre o ciúme, que escorre até o delírio de um doente numa cama de hospital à beira da morte em “O mal”. 

Publicado em 1959, "A fúria" é considerado “o mais ocampiano” dos livros de Silvina, obra em que a autora encontra sua voz única e inaugura seu universo alucinado.

Elogios de cânones da literatura contemporâneos da autora argentina se acumulam. “Nos seus contos há algo que não consigo compreender: um estranho amor por certa crueldade inocente e oblíqua”, escreveu o amigo Jorge Luis Borges. É dedicado a Silvina, aliás, o emblemático “Pierre Menard, autor do Quixote”, primeiro conto publicado de Borges, em 1939 na revista Sur. 

Para a poeta Alejandra Pizarnik, cuja paixão por Ocampo transcendeu a literatura, nos relatos de Silvina “o mundo trivial permanece reconhecível, ainda que estranho e transfigurado: de repente, ele se abre e é outro, mas a passagem da fronteira é completamente imperceptível”.

bioy casares

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Silvina Ocampo só não conquistou a merecida visibilidade antes, porque foi contemporânea de Bioy Casares, com quem foi casada, e de Borges, que era seu amigo

"Eu não conheço outro escritor que capture melhor a magia dos rituais cotidianos, o rosto proibido ou oculto que nossos espelhos não nos mostram", registrou Italo Calvino.

Saídas do que Roberto Bolaño chamou de “uma limpa cozinha literária”, suas histórias misturam elegância e excesso, distanciamento e intensidade, calma e horror. Há a influência macabra que a antiga dona de uma casa exerce na nova inquilina (“A casa de açúcar”, o conto favorito de Julio Cortázar); adivinhos e premonições (“A sibila” e “Magush”); amores loucos (“A paciente e o médico”); a festa de aniversário de uma jovem paralítica (“As fotografias”); e uma profusão de crianças malignas, como a que incendeia cruelmente uma amiga em “A fúria”.

Revalorizada com entusiasmo nos últimos anos, a literatura de Silvina Ocampo é singular — “não se parece com nada, como se tivesse sofrido influências apenas de si mesma”, escreveu Adolfo Bioy Casares. É complexa, envolvente e nos convida, como poucas, à fantasia e à imaginação.

A vida particular de Silvina também é algo... digamos assim, inacreditável. Ela foi esposa de Bioy Casares, com quem manteve uma relação aberta. Bioy é gigante das qualificadíssimas letras argentinas e projetou-se antes dela, ofuscando-a. O genial Jorge Luis Borges, amigo do casal, também voava altíssimo nos tempos de Silvina. Sua própria irmã, Victoria Ocampo Aguirre, escritora e editora famosa naqueles tempos, sobrepunha-se à Silvina, embora, atualmente, Victoria costume ser citada como "irmã de Silvina".

Com tantos nomes ribombando na literatura argentina, naquele pedaço de século XX, não estava fácil para Silvina conquistar a visibilidade que merecia. Aos 27 anos, inclusive, se mandou pra Paris, com a finalidade de enveredar-se pelas artes plásticas, onde chegou a estudar com Fernand Léger e Giorgio de Chirico, precursores do surrealismo. Essa empreitada, no entanto foi descartada por ela que acabou optando pela literatura.

Mas o tempo, oh... o tempo!!! Com ele sua obra ganhou reconhecimento e ela passou a ser  considerada uma autora fundamental da literatura argentina do século XX. (*com assessoria)

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A escritora e Bioy Casares, com quem ela manteve um casamento aberto ao longo de várias décadas

Silvina foi escritora, contista e poeta. Seu verso já foi reproduzido no tyrannus. Confira em http://www.tyrannusmelancholicus.com.br/poesia/3765/silvina-ocampo

 

 


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