LANÇAMENTO

A velhice em tempos modernos



domingo

O título do livro é o nome do seu personagem principal, um aposentado às vésperas de completar oitenta anos

No livro "As cidades invisíveis", do escritor italiano Ítalo Calvino, o viajante Marco Polo descreve para o imperador Kublai Khan o roteiro de suas viagens, detalhando as cidades por onde ele passou. São cidades imaginárias, que levam o nome de mulheres, cujas estruturas, arquiteturas, hábitos e tradições beiram o surreal. Mas, apesar disso, cada cidade transcrita parece conter certa essência humana e traduz uma mensagem sobre nossa sociedade.

Santa Bárbara, cidade que também leva um nome de mulher, não faz parte desse roteiro do famoso mercador veneziano, mas traduz uma mensagem sobre um aspecto importante do nosso tempo: a ferocidade do progresso diante da vulnerabilidade humana. 

Santa Bárbara é a cidade onde transcorre a história de Domingo, novo romance do escritor Eduardo Sens, que acaba de ser publicado pela Editora Penalux.

O título do livro é o nome do seu personagem principal: Domingo Moretti. Um aposentado que, às vésperas de completar oitenta anos, decide trocar sua velha e querida casa (seu intuito é o de agradar a esposa que, no julgamento dele, deseja uma “casa de novela”), por um vasto apartamento a ser construído no maior prédio da cidade. Até aí, tudo vai bem. Mas a obra prossegue e, quando já se encontra numa fase adiantada, a construtora responsável por ela vai à falência. Interrompida por tempo indeterminado, a construção inacabada obriga Domingo a viver numa casa temporária, onde não se sente muito à vontade e, para piorar, em alguns momentos, sob a ameaça de despejo.

“A ideia do livro é transmitir a sensação de fragilidade diante do progresso”, alega Sens. “Um progresso por vezes vil e desumano”.

Nessa expectativa de ver finalmente a obra de sua permuta retomada e concluída, o personagem passa seus dias angustiado, a conversar com sua companheira, a enigmática Lurdinha, temendo que o final da sua própria existência chegue antes das chaves do apartamento, seu vindouro lar.

Em "Domingo", Sens discute com contornos muito atuais a sanha megalomaníaca de empreendimentos cada vez mais altos na construção civil. Para o autor, que além de escritor também é promotor, esses prédios modernos “são vazios de vida e de humanidade. Meros blocos de concreto, sem espaços pensados para conviver ou, quando muito, com espaços artificialmente pensados para as atividades humanas”.

sens

Este é o quarto romance de Eduardo Sens, que já lançou também três livros infantis e dois jurídicos

Esse, de fato, é um ponto central no romance, cuja trama, entre outras questões, discute a forma com que se dá a ocupação urbana de cidades médias, com prédios exageradamente altos, numa falta de lógica urbanística. O personagem da história é afetado diretamente por essa volúpia imobiliária. 

“Domingo é apenas um velho que aprendeu a viver dos cheiros da sua casa, dos estralos da madeira do assoalho, das regas às plantas e à horta”, comenta o escritor. “Quando finalmente se vê transferido para um prédio frio de piso polido, percebe que a arte do viver exige menos brilho e mais calor”, completa.

Para Eduardo Sens, há uma reflexão do escritor Victor Hugo que avalia bem a situação do seu personagem: “A miséria de uma criança interessa a uma mãe. A miséria de um rapaz interessa a uma jovem. A miséria de um velho não interessa a ninguém”. E conclui: “De todos os abandonos, é o mais cruel” (frase extraída do clássico "Os Miseráveis").

Da escolha das epígrafes até o ponto final no último capítulo, passando pela densa cena em que Domingo tenta concluir a obra abandonada com as próprias mãos, Eduardo Sens acerta o tom e, neste delicado e sinestésico romance, resgata reflexões fundamentais sobre um amor forjado por sonhos, silêncios, olhares e abraços incontidos. 

"Domingo" é daquelas leituras que nos causam encanto e desconforto e, no final, nos deixam emocionados, o olhar perdido na última página em busca de respostas. 

Uma linda história de um homem e seu pedaço de chão. Um enternecedor romance de conclusões atemporais.

AUTOR

Eduardo Sens, 1979, Florianópolis. É autor dos romances “Os Outros Eus de Mim Mesmo” (Ed. Micronotas), “Adroaldo, de Majestosa” (Ed. Penalux), e “De quando éramos iguais” (Ed. Oito e Meio), eleito Romance do Ano 2019 pela Academia Catarinense de Letras, vencedor da 2ª Maratona Literária da Editora Oito e Meio. Autor de três livros infantis “O Menino que Adorava Torradas”, “O Meu Meteoro de Estimação” e “O mistério das crianças-zumbis”, e de outros dois livros jurídicos. (*com assessoria)

 

SERVIÇO

O QUE: "Domingo", romance de Eduardo Sens –  (224 p.), R$ 42 (Penalux, 2020)
LINK PARA COMPRA: https://www.editorapenalux.com.br/loja/domingo

 

 


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