ENTREVISTA

Torero, sua vida e seu "Diário do Bolso"



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Torero

Semana passada fuçando sobre o Jabuti 2020 descobri entre os finalistas um camarada das antigas, que conheci num evento em Cuiabá, que teve a sua participação. Isso já faz um tempinho e de vez em quando trocava emails com ele. 

Falo do escritor, cineasta, roteirista e jornalista, José Roberto Torero. Entre vários prêmios e distinções no cinema, na literatura e na televisão, Torero, em 1995 foi um dos vencedores do Prêmio Jabuti, com o livro "O Chalaça". Neste ano seu "Diário do Bolso" (Padaria de Livros) está entre os finalistas desse tradicional prêmio na categoria Crônica.

O livro é um falso diário do presidente Bolsonaro, onde ele escreve suas opiniões sobre a vida, suas versões sobre os acontecimentos políticos, suas dúvidas, suas piadas, seus sonhos e, principalmente, seus pesadelos. Os textos, claro, são escritos por Torero, e a obra é narrada na primeira pessoa.

Apesar de ser um diário fake, após ler algumas crônicas, dá pra perceber que a narrativa está bem de acordo com o que deve passar pela cabeça do nosso medíocre e estabanado presidente. Ouso dizer que "Diário do Bolso" seria muito mais cômico, se as ações do protagonista não estivessem reverberando em resultados tão trágicos. Infelizmente.

Bom, é isso. Depois de ter perdido o email do Torero, devido a esses malditos acidentes digitais, consegui reencontrar o cara e propus-lhe uma entrevista, que foi acatada de imediato. É o que  você vai ler agorinha... 

A CONVERSAÇÃO

Eu te conheci em meados dos anos 1990, quando você veio a Cuiabá para participar do nosso Festival de Cinema e Vídeo. Por trás de um semblante sereno, havia sempre a efervescência de um humor sutil em ponto de bala. Percebi isso, lá se vão uns 25 anos...  Além dos cabelos já marcados pela neve do tempo, o que mudou em você, segundo sua própria opinião?
Poxa, isso é uma primeira pergunta que se faça? Um autoexame comparativo de um quarto de século?! Bem, vamos lá... Acho que a minha grande mudança foi trazida pela paternidade. Aos 45 do segundo tempo, ou pior, aos 49 anos decidi ser pai. E foi a experiência mais importante e enriquecedora da minha vida. Ser pai pisoteia o egocentrismo do sujeito. Você percebe que não é o centro do mundo. Aprende a cozinhar, a limpar cocô, a passar noites em claro, a sacrificar tempo e dinheiro por outra pessoa. E aprende que tudo isso é bom. Talvez a paternidade tenha destravado alguns sentimentos que antes estavam engaiolados. Eu tinha o breque de mão sentimental puxado. Hoje melhorei um bom tanto.
Há também, pela passagem do tempo e uma maior proximidade da morte, que a cada dia se aproxima, a consciência de que não vai dar tempo de fazer tudo. Então já não entro em qualquer projeto, e escolho bem os livros que vou escrever. Há uma certa seleção. Antes eu fazia o que tinha vontade na hora, sem pensar muito. Agora penso se aquilo que vou fazer é realmente interessante, porque outras coisas vão ficar de fora.

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Primeiramente, vamos de assuntos gerais. Com que idade, mais ou menos, você decidiu que deveria se tornar isso que vem se tornando e mencione alguns acontecimentos que foram marcantes para optar por essa escolha.
Acho que não há um momento em que você diz "vou ser escritor". É um processo que vai se fazendo a cada dia, até que não dá mais para voltar atrás. 
Porém, se eu fosse eleger um instante simbólico, escolheria uma aula de redação em 1976. A professora pediu que todos escrevêssemos uma redação sobre o Dia das Mães. Eu não queria fazer uma declaração de amor (ah, os sentimentos travados...). Então inventei que minha mãe tinha morrido e fiz uma carta para colocar sobre seu túmulo. Ela terminava assim: "Minha mãe, imortal, mas morta". Praticamente um bolero. 
A professora levou as redações para casa e, na semana seguinte, trouxe todas corrigidas. Então ela devolveu a minha e disse: 
- Você tirou nove. Muito boa a sua redação. E sinto muito pela sua mãe.
Quando eu ouvi aquilo, meu queixo caiu. Ela tinha acreditado! E agora, eu devia contar a verdade, e perder o meu nove, ou ficar quieto? Optei por falar a verdade: 
- Professora, a minha mãe não morreu. Ela está viva.
- Você inventou tudo?
- Inventei... 
- Então a sua redação é melhor ainda. É nota dez!
Foi um momento inesquecível. Eu tinha conseguido as duas coisas mais legais de se fazer na escola: tirar dez e enganar o professor. Talvez daí em diante eu tenha pensado em ser escritor. Talvez.   

Suas áreas de atuação são várias, mas vou reduzi-las em duas: audiovisual e literatura, já que seu jornalismo pratica uma namoro sério com a narrativa literária. Mas, claro que está tudo misturado. Ou não...? Discorra um pouquinho sobre como você consegue disciplinar essa criação vária.
Não é muito misturado, não. Quando eu faço dois trabalhos num mesmo dia, seja um roteiro e um romance, ou mesmo uma crônica e um conto, eu preciso de alguma coisa para separar as tarefas. Pode ser o almoço, ou lavar louça, nadar ou tomar banho.  Mas não consigo largar um e começar o outro instantaneamente. E geralmente deixo para o período da manhã a coisa que precisa de mais cérebro. À tarde sou mais burro. 

Você é formado em letras e jornalismo, mas consta em sua trajetória uma pós-graduação em cinema e roteiro (inconclusa). É impossível que você pratique um retorno a esse mundo acadêmico, ou será que pode haver algum interesse?
É impossível. Tenho uma notável falta de talento para escrever textos acadêmicos. O que faço às vezes é dar cursos rápidos em pós-graduação. Mas são cursos bem práticos.

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"Diário do Bolso", do qual já li apenas umas poucas crônicas,  me remete a "O Chalaça", livro com o qual você venceu o Jabuti em 1995. Você diria que há algo em comum entre os dois personagens títulos?
Nunca tinha pensado nisso, mas há alguns pontos em comum, sim, como o humor e a tentativa de entender a psicologia destes personagens. Por isso escrevo em primeira pessoa. E os dois personagens não são exatamente exemplos de bom mocismo. Mas eu tinha uma certa simpatia pelo Chalaça. Pelo Bolsonaro, nenhuma.

"Padaria de Livros" é a editora independente que você criou com sua esposa, para produzir o "Diário do Bolso", seu livro de crônicas lançado em 2019 que está entre os finalistas do Jabuti 2020. Ao escrever esse livro, você tinha a intenção de fazer alguém "comer o pão que o diabo amassou?"
Não tinha. A intenção era organizar os textos do Diário do Bolso, que são escritos no Facebook e no Instagram, e assim dar uma vida mais longa para eles. Já editamos três Diários (eles são semestrais) e no ano que vem vamos começar a publicar algumas obras infantis minhas (nos últimos vinte anos tenho escrito mais para crianças que para adultos). Mas a maior parte dos meus livros vai continuar saindo pela Cia das Letrinhas e pela Objetiva/Alfaguara.   

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"A toda ação há sempre uma reação oposta e de igual intensidade". É a terceira lei de Isaac Newton (1643-1727). "Diário do Bolso" se encaixa nessa legislação do célebre físico inglês? 
Mais ou menos. O livro é uma reação, mas não tem igual intensidade à ação original. Não haveria papel suficiente para equilibrar os pratos da balança. Bolsonaro piorou a vida de quase todos os brasileiros (digo quase porque alguns grupos, como banqueiros, vendedores de armas, agronegociantes e políticos do Centrão estão se dando muito bem), e tudo o que se escreva, seja crônica, ensaio, reportagem ou charge, não vai atingi-lo na mesma proporção. Bolsonaro, com sua política negacionista na pandemia, foi responsável pela morte de muita gente. Milhares de pessoas. E não há reação possível em igual força. 
Poxa, veja só, a entrevista acabou num tom sério. Talvez isso também tenha mudado nesses 25 anos: agora, de vez em quando, eu falo sério. Mas talvez tenha sido o Brasil, e não o tempo, que tenha me obrigado a isso. Que pena...

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Interessados em adquirir o livro em seu formato físico (papel) devem contatar o link https://www.livrariadabok2.com.br/diario-do-bolso-os-100-primeiros-dias . Quem quiser a obra no formato digital deve acessar a Amazon. As imagens e tiras publicadas nesta matéria são creditadas a Ivo Minkovicius.

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OBSERVAÇÃO: na edição da última terça-feira (27) o tyrannus reproduziu uma das crônicas de "Diário do Bolso". Confira em

http://www.tyrannusmelancholicus.com.br/cronicas/13010/eu-na-o-sou-louco-talkei


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