ENTREVISTA

Artista analisa criação de novo Prêmio



Gervane de Paula teve atuação incisiva na criação do Prêmio

Gervane de Paula, artista com experiência também como produtor e gestor cultural, teve participação incisiva na criação e no desenvolvimento desta nova premiação que chega para contemplar as artes da região Centro Oeste do Brasil. Confira na entrevista abaixo o que o artista tem a dizer sobre essa novidade já implantada que abrange Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e Brasília.


Vou começar pedindo pra você falar do surgimento da ideia de criar esse Prêmio. Quando e como pintou o embrião que deflagrou a iniciativa?
Como todos os que trabalham com artes visuais em Mato Grosso de forma intensa, sabem que o Salão Jovem Arte deixou de ser realizado há mais de quatro anos, sem dúvida passou a fazer falta. Embora o seu formato já estava ultrapassado a tempos. A ideia era reeditar o Salão, o edital inicial era para isso, mas o orçamento foi insuficiente para tanto. Um salão mesmo regional igual o Jovem Arte exige não só mais recursos como também um novo formato. Acredito que a ideia do Prêmio surgiu dessas circunstâncias e indagações. O Prêmio Jovem Arte é uma mostra coletiva que reúne oito jovens artistas do Centro Oeste brasileiro. Inaugurando em Cuiabá um método de formação de acervo público. O que se considerou de extrema importância nessa confluência de estados da nossa região por meio da iniciativa deste certame foi a união desses importantes centros de criação e formação artísticas, cujos expoentes e reais valores culturais e simbólicos, nem sempre dialogam ou vislumbram a concreta possibilidade de um profícuo intercâmbio.

O Salão Jovem Arte, ao longo de mais de 20 anos, foi o principal evento das artes plásticas de MT. Nas suas últimas edições, muitos artistas sugeriam um novo formato para ele. O Prêmio Jovem Arte pode ser entendido como o antigo Salão repaginado?
De forma alguma, o Prêmio apesar de lembrar o Salão no título foi pensado e organizado por produtores independentes tem outro formato e outros objetivos. O Salão Jovem Arte é uma ação do estado, e entendemos que é o estado que deve realizá-lo ou ressuscitá-lo. Aliás, a Secretaria de Estado de Cultura já está formatando um Salão de Artes para Mato Grosso, que deve ser apresentado à classe artística em breve. Quiçá venha com um formato dos grandes salões que acontecem no Brasil.

A abertura de um evento desse porte para todas as unidades federativas do Centro Oeste (MT, MS, GO e DF) já vinha sendo reivindicada por alguns militantes da plástica mato-grossense. Outros não pensam assim, pois acham que artistas de MT que ainda não se consagraram e disputam acirradamente por espaço, estarão banidos do processo. Fale sobre isso.
Não estamos mais no momento de formação de artistas, “arte aqui é mato” e é preciso distinguir se a erva é boa ou daninha. Os artistas mato-grossenses precisam dialogar com a arte contemporânea, grande parte deles não consegue expor suas obras fora do estado, e nem participar de mostras e salões de caráter nacional. Mesmo correndo esse risco de estar banido do processo é preciso confrontar a produção local com a produção nacional.
Não se trata de uma mera competição entre aceitos, recusados e premiados, mas de um intercâmbio artístico/ cultural, um momento de troca, conhecimento e experiências. Só a volta de um salão ou um prêmio não é o suficiente para renovar as artes visuais no estado. Os jovens artistas contemporâneos brasileiros, quase todos, vêm de escolas de arte e universidades, porque a arte na atualidade exige novas mídias, informações, tecnologias e conhecimentos que estão dentro de salas, laboratórios, não apenas em ateliês livres. Mas é bom lembrar que nenhuma universidade irá formar artistas, mas só a intuição do autodidata também não basta na atualidade.

O novo Prêmio traz entre seus principais objetivos o foco em artistas cujos trabalhos estejam dialogando com as artes contemporâneas. Em níveis local, nacional e internacional, o que mais ouço falar é dessa tal “arte contemporânea”. Dê o seu conceito de arte contemporânea aos nossos leitores e opine sobre essa supervalorização, salvo engano, que ela anda tendo.
A arte contemporânea é uma festa, o barato é estar dentro dela, ela está em constante processo de mutação, transmitindo consciência e renovação.
A arte contemporânea é soberana na atualidade, está em pleno desenvolvimento utiliza materiais e suportes cada vez mais inusitados, é considerada um fenômeno do final do século passado e não adianta fechar os olhos nem torcer o nariz, nem tampouco desconstruir Duchamps. Este fenômeno é responsável pelo vigor e expansão das artes visuais, está aí para ser desvendado no decorrer do século XXI.


Você é um dos artistas plásticos do Estado que está na estrada há 3 décadas, talvez mais do que isso. Tem acompanhado todo o processo do desenvolvimento da força pictórica regional. Quando a arte de MT se sobressai nacional e/ou internacionalmente, fica a impressão de que ela vai muito bem. Tenho a impressão de que isso, em outras épocas, já aconteceu numa escala maior. Será que é só impressão minha, ou a plástica local já teve períodos mais expressivos? Dê a sua opinião.
Eu acho que a boa arte mato-grossense tem espaço em qualquer período. A primeira geração de pintores mato-grossense da qual fazem parte Humberto Espíndola, João Sebastião, Clovis Irigaray e Dalva de Barros, são exemplos de artistas pioneiros que souberam romper o isolamento entre a província e a metrópole sem precisar sair de suas regiões. A segunda geração da qual faço parte ao lado de Adir Sodré, Benedito Nunes, Carlos Lopes, Marcio Aurelio, Jonas Barros e outros, acredito que também tenham a mesma força e representatividade.
Acontece que no final dos anos 80 a arte passa por uma significativa transformação no campo da expressão, caracterizada pela experimentação de linguagens, materiais, tecnologia e abolição da materialidade em benefício do conceito e da idéia.
A ausência de mecanismos e políticas públicas de intercâmbio cultural, escolas de arte tem contribuído para o artista das regiões periféricas do Brasil ficarem parcialmente fora do contexto nacional.






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