SÉTIMA ARTE

O catalão Guerin e o lituano Jonas Mekás



O Beaubourg, objeto do desejo da nossa correspondente

Tenho visto muitos filmes aqui em Paris. Faço um curso de francês numa escola vizinha (quase parede- e -meia) do Centro Pompidou, que abriga o fantástico Museu Nacional de Arte Moderna (os franceses o chamam de Beaubourg), e que possui duas salas de cinema. Ao lado, na mesma rua, há um outro cinema (com 5 salas) de uma rede que tem o nome de MK2. Assim, praticamente, vou ao cinema todos os dias .

Como há sessões também às 11h da manhã, às vezes, assisto filme, almoço, vou a escola... e depois, uma nova ida ao cinema. Cheguei a brincar com a professora, outro dia, quando ela me perguntou onde eu vivia em Paris. Respondi com a maior convicção: no Beaubourg e no MK2! Que fiz eu para merecer tal felicidade? Deve ser por alguma coisa de outras vidas, porque desta, eu não me responsabilizo. Como disse a Rita Lee numa entrevista: eu não ponho minha mão no fogo, por ninguém, nem por mim mesma...

Mas, enfim, é claro que também frequento outras salas. Só não consegui ir ainda ao Studio 28, que foi o cinema de Jean Cocteau, e à Cinematheque Française, que representou em minha juventude a visão do paraíso. Aliás, perdi de ver “Les enfantes du Paradis”, do Marcel Carne, que estava passando lá. Que tristeza! Me senti a própria Eva (arrependida é claro), expulsa do paraíso por algum pecado capital.

Poderia me referir aqui a inúmeros títulos. Mas quero mesmo é falar de amor a primeira vista, paixão, espanto, admiração incondicional, aquela coisa de ficar de quatro, algo assim, totalmente demais. Trata-se de dois cineastas: o espanhol (catalão) Jose Luiz Guerin, e o lituano Jonas Mekás, ambos com belíssimas retrospectivas de suas obras - como não poderia deixar de ser - no Beaubourg. A uni-los, uma instalação onde televisores exibem “A Correspondência”, uma série de nove “cartas”; evidentemente, cinematográficas, trocadas entre eles. É simplesmente genial.

O cinema de Guerin (52 anos) dialoga absolutamente a vontade com a tradição dos grandes diretores do cinema mudo. Não se submete a uma ordem literária. São as imagens e a montagem que criam a narrativa. É visível ao espectador o processo da criação da obra. O cineasta para, prossegue, pensa, duvida, expõe e oculta... se deixa levar, reconsidera, dando ao espectador a possibilidade de aí incluir também a sua própria condução do filme.

Há um tempo de fruição, de fluxo, que segue como a vida. O passado e o presente convivem num cotidiano atemporal. O silêncio fala com intensa poesia. E quando há sonoridades (musicais, ambientais, diálogos ou narração), são outras vozes que valem, cada uma por si mesma. Me faz lembrar uma poesia do João Cabral de Melo Neto, onde ele dizia que fazer poema é como cozinhar feijão. Há que catá-lo, um a um, lavá-lo (deixar que toda a impureza, por ser leve, suba e seja retirada), e depois ainda lavá-lo outra vez.

Acho que Guerin faz também isso com o seu ofício, através de filmes como “Os motivos de Berta”, “Trem de sombras ( Le spectre du Thuit ), “Algumas fotos da cidade de Sylvia”, “Innisfree”, “Em construção” e outros, que tornam o seu cinema tão especial, ou talvez caiba melhor dizer, essencial.

Jonas Mekas, após viver num campo de concentração na Lituânia, durante a segunda Guerra, se exilou nos Estados Unidos e passou a morar em Nova York onde vive ate hoje. Faz um tipo de cinema de uma subjetividade radical. Filma, como diria o cuiabano, de um tudo. Sobre a sua vida e o que está a sua volta. Não tá nem aí para os enquadramentos, movimentos de câmera, iluminação etc, que aprendemos como apropriados, corretos, na linguagem do cinema. Aliás, o que ele faz o tempo todo é subverter essa dita linguagem.

Jonas Mekas conviveu com a turma dos beatniks (um dos filmes que assisti foi sobre a morte e o velório de Allen Ginsberg). Era da turma da Factory de Andy Warhol e conheceu e filmou centenas de pessoas anônimas, artistas e personalidades de ontem e de hoje. Sua extensa obra é única. É considerado um dos papas do cinema independente, underground nos Estados Unidos. O cara esta com 90 anos e continua no agito, inclusive participando de debates após as exibições. Outro dia, não resisti e mandei a timidez às favas: sapequei dois beijinhos, assim meio a queima roupa, em suas bochechas. Acho que ele ficou agradavelmente surpreendido. E eu me achando… Aquelas coisas de fã, mesmo sem carteirinha.

Os cineastas José Luiz Guerin e Jonas Mekás

*Gloria Albues é diretora de cinema e teatro e parceira do Tyrannus

PS: A possibilidade do Eduardo Ferreira vir a ser o nosso próximo Secretário de Cultura é bárbara. Não sei quanto tempo ele conseguiria permanecer no cargo, mas, certamente um vento de independência, de novas ideias, de práticas coletivas e populares, poderia levantar a poeira da burocracia burra e ineficaz aos anseios da classe. E só isso já valeria apena, porque no caso, a alma não é pequena.




Voltar  

Agenda Cultural

  • Em Cartaz:
  • Feira do Vinil
  • Dia: 23 de março
  • Local: Casa Cuiabana
  • Informações: 99225-6204
Veja Mais

Newsletter

Preencha o formulário abaixo para receber nossa newsletter:

  • Nome:

  • Email:

  • assinar

  • cancelar


Copyright © 2012 Tyrannus Melancholicus - Todos os direitos reservadosTrinix Internet