ANDAÇÃO

Passeio por Montmartre



A colina de Montmartre (Monte dos Mártires), recebeu esse nome por ter sido local de martírio de São Diniz e seus companheiros, no século XIII. Em 1871, ali também foram executados e enterrados (a maioria ainda com vida) milhares de revolucionários da Comuna de Paris, a primeira experiência de governo proletário da história, que demorou exatos 72 dias.

Chega a ser irônico, se não fosse trágico. Como sabemos, a violência humana não respeita credo nem ideologia. A Basílica, para os padrões daqui, é super nova, quase um bebê. Construída no período de 1875 a 1914, a sua arquitetura tem forte influência dos estilos romano e bizantino. É grandiosa, imponente, mas, a meu ver, aquela que parece ser o que não é. Acho que tentar recriar o passado no presente não tá com nada, nem na vida e muito menos na arquitetura.

Como diz a sabedoria popular cuiabana: uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Principalmente numa cidade, cuja igreja romana mais antiga remonta ao ano 1000, a belíssima igreja de Saint Germain-de-Prés, e que possui uma catedral como a Notre Dame com 850 anos de existência, legítimas heranças da Idade Média, com seu elegante estilo gótico. Estas sim, não parecem ser. São.

Fiquei sabendo depois que a maioria dos parisienses tem essa mesma opinião, a qual naturalmente não é compartilhada pelos milhares de turistas que visitam a igreja diariamente e a acham o máximo. Enfim, como diria também o meu saudoso amigo Liu Arruda: - Cada um com o seu cada qual! Mora na filosofia…
Mas valeu a subida. A visão que se tem dali é realmente encantadora. As luzes se acendendo em meio ao fog que cobria a cidade dava um tom de irrealidade à paisagem. Fui tomada por um sentimento nostálgico que não sei bem porque sempre surge em mim quando contemplo a beleza. Não é feito de tristeza esse estado d’alma. Tem mais a ver com saudade de algo indefinível, como um paraíso perdido. E, ao mesmo tempo, reencontrado.
Andamos sem destino pelas estreitas ruas de Montmarte, subindo e descendo, parando aqui, virando acolá, passando por pontos movimentados, ouvindo pedaços de conversas nas mais diferentes línguas; outros silenciosos, com pouca luz, íntimos, cúmplices, com um certo tom de magia. Em uma dessas ruelas, senti o doce cheiro de resedá. O que pode a imaginação!

Esse cheiro vinha da minha infância, do quintal da minha avó Ana Clotilde, em N. Sra. do Livramento. E eu que pensava tê-lo esquecido. Agora quando! Neste país famoso por seus perfumes, ele resolveu me acompanhar, não na condição de extrato, muito forte para a sua natureza mas suave como só o sabem ser as águas de colônia, discretas, quase imperceptíveis ao olfato.
Montmartre é um lugar famoso pelos artistas que moraram lá a partir de 1900. Só pra ficar entre poucos, olha só a turma da pesada: Van Gogh, Cézanne, Monet, Renoir, Tolouse-Lautrec, Matisse, Degas, George Braque, Picasso, Modigliani, etc, etc. Muitos migraram para Montparnasse , outro reduto de boêmios, artistas, intelectuais e revolucionários como Lenin e Trotski.

Ao longo dos anos, a turma de Montparnasse foi só aumentando: Man Ray, Fernand Léger, Max Ernest, Ezra Pound, Diego Rivera, Duchamps, André Breton, Salvador Dali, Henry Muller, Samuel Beckett e, para não cansar os leitores, termino com o meu amado, idolatrado, salve, salve... Joan Miró.

Muitos pintores colocavam os seus quadros em consignação ou os vendiam, às vezes, em troca de comida. Naquela época, a pobreza tornou-se quase um estilo de vida para os artistas e pensadores, a ponto de Jean Cocteau ter afirmado que em Montparnasse “a pobreza é um luxo”. Mas, ops, mudei de bairro, sem sentir. Isso é que dá andar à toa por Paris. A gente perde o rumo…
*Gloria Albues passeia e colabora com o Tyrannus Melancholicus

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